País atinge por dois anos consecutivos as metas estabelecidas pela OPAS e pela OMS, repete feito alcançado com o HIV e avança na meta de eliminar cinco infecções de transmissão vertical até 2030
O Brasil deu mais um passo para consolidar sua posição entre os países de referência no enfrentamento das infecções transmissíveis. Após se tornar o primeiro país de grande porte a receber a certificação internacional pela eliminação da transmissão vertical do HIV, o governo brasileiro anunciou, nesta terça-feira (28), que também cumpriu as metas globais para eliminar a transmissão da hepatite B de mãe para filho como problema de saúde pública e entregou oficialmente à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e à Organização Mundial da Saúde (OMS) o dossiê que solicita a certificação internacional.
O anúncio foi feito durante as atividades do Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites Virais, no Rio de Janeiro, e representa um dos principais marcos recentes da saúde pública brasileira. Para obter o reconhecimento, o país precisou comprovar, por dois anos consecutivos, o cumprimento dos rigorosos indicadores estabelecidos internacionalmente.
“O dia de hoje é muito importante para uma luta que travamos há décadas contra as hepatites virais. Hoje estamos entregando formalmente ao diretor da OPAS e ao diretor-geral da OMS o relatório do Ministério da Saúde e do Sistema Único de Saúde brasileiro que demonstra, com base no nosso monitoramento, que o Brasil alcançou as metas para eliminação da transmissão vertical da hepatite B”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
O principal indicador avaliado é a prevalência de infecção ativa pelo vírus da hepatite B em crianças de até cinco anos, medida pelo exame HBsAg. Para que um país seja considerado apto à certificação, esse índice deve permanecer abaixo de 0,1%. No Brasil, a estimativa referente a 2025 foi de apenas 0,0111%, quase dez vezes inferior ao limite estabelecido pela OMS. Modelagens matemáticas atualizadas em 2026 confirmaram a manutenção desse resultado.
Outro requisito fundamental é a ampla cobertura do pré-natal. O Brasil também superou essa exigência: mais de 98% das gestantes realizaram acompanhamento pré-natal em 2024 e 2025, índice superior ao mínimo de 95% recomendado internacionalmente.
Na vacinação, os resultados também foram expressivos. A imunização contra a hepatite B nas primeiras horas de vida alcançou 97% de cobertura em 2024 e 100% em 2025, ultrapassando com folga a meta mínima de 90%. Já a terceira dose da vacina pentavalente, aplicada aos dois, quatro e seis meses de idade, registrou cobertura de 90,4% em 2024 e 88,7% em 2025, percentual ainda preliminar que deverá superar a meta após consolidação dos dados.
Estratégia construída no SUS
O desempenho brasileiro é resultado de uma estratégia integrada desenvolvida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que combina rastreamento precoce, vacinação, tratamento e acompanhamento das gestantes e dos recém-nascidos.
Durante o pré-natal, todas as gestantes são testadas para hepatite B. Nos casos em que o exame não foi realizado durante a gravidez, a testagem é feita na maternidade. Mulheres com indicação clínica recebem tratamento antiviral para reduzir o risco de transmissão ao bebê.
Após o nascimento, a prevenção continua. Todos os recém-nascidos devem receber a vacina contra a hepatite B, preferencialmente nas primeiras 12 horas de vida. Quando a mãe vive com hepatite B, o bebê também recebe imunoglobulina específica (HBIG). A combinação dessas duas medidas é capaz de prevenir cerca de 99% das infecções perinatais.
O fortalecimento da vigilância epidemiológica também contribuiu para os resultados. Desde 2024, passaram a ser de notificação obrigatória os casos de hepatite B em gestantes, puérperas e crianças expostas ao risco de transmissão vertical, permitindo maior monitoramento e resposta mais rápida dos serviços de saúde.
Outro avanço ocorreu na segurança transfusional. Desde 2016, todas as doações de sangue realizadas no SUS são testadas por meio da tecnologia molecular NAT, desenvolvida pela Fiocruz, aumentando significativamente a capacidade de detecção precoce do vírus.
Próximo desafio: eliminar outras quatro infecções
Com a entrega do dossiê, o Brasil inicia agora o processo internacional de validação. O documento será analisado pela OPAS, revisado por especialistas independentes e, posteriormente, submetido ao Comitê Global de Validação da OMS.
Caso a certificação seja concedida, o país ampliará uma conquista histórica iniciada em dezembro de 2025, quando recebeu o reconhecimento internacional pela eliminação da transmissão vertical do HIV.
A estratégia brasileira prevê que, até 2030, sejam eliminadas como problemas de saúde pública cinco infecções transmitidas de mãe para filho: HIV, hepatite B, sífilis, doença de Chagas e HTLV.
Casos e mortes continuam em queda
Os avanços também aparecem no novo Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2026, divulgado pelo Ministério da Saúde.
Entre 2015 e 2025, os casos de hepatite B diminuíram 25,5%, passando de 14,8 mil para 11 mil notificações. Na hepatite C, a redução foi de 34%, enquanto a hepatite D apresentou queda de 57,9%.
A mortalidade também recuou. Os óbitos por hepatite B caíram 31,9% no período, enquanto as mortes relacionadas à hepatite C diminuíram 61,5%, reflexo da ampliação do diagnóstico e do acesso ao tratamento.
SUS oferece prevenção, diagnóstico e tratamento
O Sistema Único de Saúde disponibiliza gratuitamente vacinação contra as hepatites A e B, testes rápidos e tratamento para as hepatites B e C.
A vacina contra a hepatite B é oferecida para toda a população, desde o nascimento, incluindo pessoas que não foram imunizadas ou que possuem esquema vacinal incompleto.
Já para a hepatite C, o SUS disponibiliza antivirais de ação direta para adultos e crianças a partir de três anos de idade, com taxas de cura superiores a 95%.
No caso da hepatite B, o tratamento contínuo reduz significativamente o risco de evolução para cirrose e câncer de fígado, reforçando a estratégia brasileira de prevenção, diagnóstico precoce e cuidado integral, que agora coloca o país mais próximo de obter mais um reconhecimento internacional na resposta às infecções de transmissão vertical.
Redação da Agência de Notícias da Aids




