Boletim ABIA nº 68 denuncia: sem justiça social e enfrentamento das desigualdades, a promessa da PrEP não se cumpre

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A tarde era de tensão no Rio de Janeiro — sirenes, ruas bloqueadas, o centro da cidade esvaziado por mais uma operação policial que transformou a cidade em um verdadeiro cenário de guerra. Ainda assim, a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) manteve sua tradição de resistência e lançou, de forma virtual, o Boletim ABIA nº 68.

A publicação, dedicada às barreiras de acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), reúne artigos de pesquisadores e ativistas que tratam de um tema tão urgente quanto complexo: o abismo entre o avanço da ciência e a realidade de quem mais precisa dela.

“Temos declarações de acesso antes de termos acesso de verdade”, resumiu o diretor-presidente da ABIA, Richard Parker, logo na abertura. Para ele, a promessa da PrEP — apresentada como uma revolução na resposta ao HIV — não se sustenta sem políticas públicas consistentes e sem um debate ético sobre desigualdades.

“As narrativas de sucesso, muitas vezes, são exageradas. A PrEP não pode resolver a prevenção sem uma verdadeira pedagogia do cuidado, que parece ter desaparecido das campanhas e políticas públicas. O otimismo tecnológico não pode nos cegar.”

A eliminação do HIV é uma questão política

O professor Laio Magno, da Universidade do Estado da Bahia e pesquisador da Fiocruz, autor do artigo A eliminação do HIV/Aids depende de estratégias que enfrentem as iniquidades em saúde, abriu o evento lembrando que o Brasil vive um momento paradoxal: de um lado, tem políticas exemplares e altas taxas de tratamento; de outro, convive com desigualdades que continuam a definir quem vive e quem morre.

“Eliminação não é erradicação. É reduzir a transmissão do vírus a níveis tão baixos que ele deixe de representar uma ameaça à saúde pública. Mas isso só será possível se enfrentarmos, de forma concreta, as desigualdades raciais, sociais e territoriais que marcam o acesso à prevenção.”

Laio destacou que 91% das pessoas que vivem com HIV no Brasil conhecem seu diagnóstico e 81% estão em tratamento, mas os indicadores escondem um padrão: quem mais morre de aids continua sendo a população negra, pobre e com menor escolaridade.

“O HIV segue sendo um marcador das desigualdades brasileiras. A testagem e a PrEP ainda não chegam onde deveriam chegar — entre jovens, pessoas trans e mulheres em vulnerabilidade. Não basta ter tecnologia; é preciso garantir o direito à saúde como prática política.”

Ao falar sobre o cenário global, Laio lembrou o avanço do conservadorismo e dos cortes em programas internacionais, como o PEPFAR, que podem gerar dezenas de milhares de mortes até 2030.

“A eliminação do HIV não é um desafio científico — é ético e político. Enquanto houver exclusão e racismo, não haverá eliminação.”

Patentes, monopólios e uma nova face da exclusão

A pesquisadora e advogada Susana Van Der Ploeg, da ABIA e do GTPI/Rebrip, trouxe ao debate o tema que hoje concentra boa parte da disputa global pela vida: as patentes e o poder da indústria farmacêutica.

Em seu texto Lenacapavir, inovação e exclusão: a luta pelo acesso universal, escrito com Richard Parker e Veriano Terto Jr., ela descreve o paradoxo de um medicamento celebrado como inovação científica e, ao mesmo tempo, inacessível à maioria da população mundial.

“O lenacapavir foi eleito pela revista Science como a inovação do ano, mas o que é essa inovação quando o acesso não chega?”, questionou. “Temos cerca de 10 milhões de pessoas sem antirretrovirais. E enquanto isso, a Gilead cobra 40 mil dólares por um tratamento que poderia custar 40.”

Susana explicou que o medicamento, desenvolvido com financiamento público do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, foi transformado em monopólio privado. E alertou para a exclusão do Brasil dos acordos internacionais de genéricos.

“É um genocídio silencioso”, afirmou. “As populações que participaram dos ensaios clínicos, muitas delas as mais vulneráveis, agora estão excluídas do próprio acesso ao remédio que ajudaram a desenvolver.”

Ela fez também um alerta sobre o impacto da nova lei de pesquisas clínicas no Brasil, que, segundo ela, representa um retrocesso grave.

“Essa nova legislação acaba com o direito ao acesso pós-estudo. Isso significa que pessoas que participaram de ensaios clínicos com o lenacapavir poderão ter o tratamento interrompido em até cinco anos. É uma violação ética profunda — estamos transformando sujeitos de pesquisa em descartáveis.”

Para Susana, o Brasil precisa retomar sua postura histórica de enfrentamento aos monopólios.

“Como disse o presidente Lula em 2007, toda descoberta de interesse da humanidade deveria ser patrimônio da humanidade. Não é aceitável que alguém fique rico com a desgraça dos outros.”

Solidariedade como prática científica

Os antropólogos Kris Herik de Oliveira (USP) e André Luiz Machado das Neves (Universidade do Estado do Amazonas) trouxeram uma das reflexões mais sensíveis do evento. Com base no estudo multicêntrico PrEP América do Sul, eles apresentaram uma análise sobre o acesso à profilaxia em cinco países da região e o papel da solidariedade como princípio ético e político na resposta ao HIV.

“Participar de um boletim da ABIA é, ao mesmo tempo, uma alegria e uma responsabilidade”, iniciou Kris. “A ABIA representa décadas de luta, de produção de conhecimento e compromisso com a vida. Discutir a PrEP na América do Sul é entender que o continente carrega feridas históricas — o racismo, o colonialismo, o neoliberalismo, as violências de gênero — que moldam profundamente o acesso à saúde.”

Ele lembrou que, embora a PrEP tenha sido considerada uma das tecnologias mais promissoras da prevenção combinada, o acesso na América do Sul continua limitado. Há países, como Bolívia, Suriname e Venezuela, sem políticas públicas de PrEP.

“Temos cerca de 1,8 milhão de pessoas vivendo com HIV na região. Mas há países que sequer têm política pública de PrEP. Mesmo onde há oferta, persistem barreiras simbólicas e institucionais — o estigma, o racismo, a falta de acolhimento. Disponibilidade não é o mesmo que acesso. A PrEP é muito mais que uma tecnologia biomédica: é também um campo simbólico, moral e político.”

Kris destacou ainda que o cuidado e o acolhimento devem estar no centro das estratégias de prevenção. “O sucesso da PrEP não vai depender só do comprimido ou da injeção, mas da capacidade dos serviços de saúde de acolher as pessoas em sua complexidade — com respeito, escuta e solidariedade. É disso que se trata a prevenção combinada.”

André Neves complementou, detalhando a metodologia do estudo. “O PrEP América do Sul reúne mais de 40 pesquisadores de Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia e Paraguai. Adotamos uma abordagem etnográfica para compreender as experiências de usuários, profissionais e gestores. O que encontramos é que o sucesso da PrEP depende de muito mais que o medicamento — depende de vínculos, confiança e reconhecimento das formas locais de viver e cuidar.”

Para André, o projeto tem um compromisso político com a solidariedade: “A solidariedade não é só um valor moral. É um modo de gestão, uma prática de resistência. Significa assumir a responsabilidade coletiva diante das injustiças. Acreditamos que só com solidariedade é possível construir políticas públicas mais equitativas, que tratem a prevenção também como produção de vida. Sem isso, não há transformação social possível.”

Juventude, redes digitais e o futuro da prevenção

O publicitário e pesquisador Mayllon Oliveira, da Fiocruz, com o artigo PrEP, juventude e futuro: o que ainda nos falta combinar, assinado em parceria com Kátia Lerner, chamou atenção para o abismo geracional entre políticas públicas e o modo como os jovens se informam e se relacionam.

“As gerações Z e Alpha pensam, se relacionam e buscam informação de forma totalmente diferente. Menos de 1% das pessoas menores de 18 anos acessam a PrEP, e a taxa de abandono entre adolescentes chega a 64%”, destacou.

“Esses jovens falam sobre sexualidade no Reddit, no Twitch, no Roblox — e não nas redes tradicionais. É preciso estar nesses espaços, com campanhas menos conservadoras. Precisamos criar pedagogias ativas, com escuta, protagonismo juvenil e influenciadores que falem a sua língua.”

Mayllon reforçou que a prevenção entre jovens deve ser compreendida como um processo educativo contínuo, que transforme informação em engajamento. “Precisamos formar redes de apoio e criar ambientes de confiança. A prevenção não é só técnica: é política, cultural e comunicacional.”

Entre desigualdades e esperança

O debate final, mediado por Veriano Terto Jr., reuniu comentários sobre adesão, religião e os limites da chamada “prevenção combinada”.

Veriano destacou preocupações com a adesão e o abandono da PrEP. “Há programas, como o do CRT de São Paulo, com taxas próximas a 60% de descontinuidade. Isso nos obriga a repensar estratégias.”

Laio Magno observou que “interromper o uso da PrEP não significa abandono”, defendendo que o conceito de persistência deve substituir o de adesão rígida. “A vida sexual é dinâmica, e o uso da PrEP também deve ser.”

Participantes também levantaram reflexões sobre o papel das religiões e das populações indígenas no acesso à prevenção. André Neves ponderou que “a diversidade cultural e linguística exige formação e construção de confiança”, enquanto Susana alertou para o risco de o lenacapavir ser usado em políticas compulsórias. “A prevenção deve ser um direito, nunca uma imposição”, reforçou.

Richard Parker encerrou o evento destacando que a ABIA continuará acompanhando e estimulando o debate sobre prevenção combinada e acesso equitativo às novas tecnologias. “Discutir PrEP é discutir democracia e cidadania. O controle da epidemia não virá apenas da ciência, mas da nossa capacidade de construir solidariedade e justiça social.”

O Boletim ABIA nº 68 está disponível gratuitamente no site da ABIA. 

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

ABIA

Site: www.abiaaids.org.br

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