Boa notícia: Ministério da Saúde incorpora vacina contra dengue no SUS e planeja imunização a partir de fevereiro

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Brasília (DF), 26.08.2023 - Ministério da Saúde lançou, no Zoológico de Brasília, a campanha de multivacinação no Distrito Federal. Foto: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo

A vacina contra a dengue foi incorporada ao SUS, anunciou a ministra da Saúde, Nísia Trindade. O Brasil será o primeiro país do mundo a incluir a vacina em seu sistema único de saúde. O imunizante, entretanto, não será aplicado em larga escala inicialmente em razão da capacidade limitada do laboratório para a sua produção.

“Teremos que priorizar áreas e grupos mais vulneráveis. Essa é a orientação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec), que avalia fatores como o acesso e a relação custo-benefício”, afirmou a ministra em suas redes sociais.

Em 2024, de acordo com a ministra, serão oferecidas 6,2 milhões de doses para um grupo de 3,1 milhões de pessoas. A vacinação começará em fevereiro. A expectativa da pasta é que um acordo possa ser feito com o laboratório Takeda, responsável pela produção da vacina, para que o imunizante também possa vir a ser fabricado no Brasil.

“Estamos discutindo uma transferência de tecnologia com a empresa e é muito provável que consigamos um resultado positivo. Temos dois grandes laboratórios, o Instituto Butantan e a Fiocruz, com capacidade de produção para chegarmos à escala de que nosso país e população precisam.”

Nas próximas semanas, o ministério, por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), irá definir a estratégia de utilização das 6 milhões de doses, definindo o público-alvo e as regiões com maior incidência da doença.

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Alexandre Naime Barbosa, vê a incorporação como essencial diante do agravamento de epidemia da doença nos últimos anos.

“A vacina da dengue foi incorporada num momento mais do que oportuno porque nunca na história desse país tivemos um número tão grande de óbitos pela doença. 2022 foi o ano de recorde histórico, com mais de mil óbitos por dengue e isso nunca havia acontecido. Mas 2023 já superou o ano passado e as perspectivas que temos para 2024 em termos da epidemia são alarmantes. Portanto, a vacina vem para salvar vidas”, afirma Naime Barbosa.

De acordo com o infectologista, a SBI entende que é “salutar que a vacina tenha sido incorporada da maneira possível”, porque já protege os mais vulneráveis e abre caminho para que novos lotes sejam comprados no futuro.

“Infelizmente, por conta do estoque disponível, como é uma vacina inovadora, produzida por apenas um laboratório e licenciada em diversos países, o que o laboratório consegue fornecer em termos de dose fica para uma população restrita. Obviamente nós todos gostaríamos que essa vacinação pudesse ser feita em maior escala, mas já é um primeiro passo”, explica o vice-presidente da SBI.

O imunizante

A Qdenga, também chamada de TAK-003, recebeu o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em março para uso no Brasil em pessoas de 4 a 60 anos. A vacina começou a ser comercializada nas clínicas particulares no início de julho.

Ela é aplicada em duas doses. O esquema protege contra os quatro sorotipos do vírus e, nos testes clínicos, demonstrou uma eficácia geral de 80,2% para evitar infecções, e 90,4% para casos graves.

Nas clínicas, as doses podem ser encontradas por valores que variam entre R$ 400 e R$ 500. Como o esquema envolve duas aplicações, com um intervalo de três meses entre elas, o preço final fica entre R$ 800 e R$ 1 mil.

A vacina não é a primeira contra a dengue recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ou a receber um aval da Anvisa. Em 2015, o Brasil aprovou a Dengvaxia, desenvolvida pela Sanofi, que se tornou o primeiro imunizante para a doença com o sinal verde no país.

Contudo, o público-alvo restrito levou a Dengvaxia a não ter uma alta adesão — ela é indicada apenas aos que já foram contaminados anteriormente para evitar um quadro de reinfecção mais grave. Em pessoas que nunca tiveram dengue, a dose não se mostrou significativamente eficaz em impedir a infecção. Também não apresentou o perfil ideal de segurança, levando à possibilidade de um risco aumentado de casos graves no período após a vacinação. Assim, o imunizante nunca chegou a ser incorporado ao SUS.

Recordes históricos

Neste ano, o país se tornou o primeiro do mundo no ranking de casos de dengue, e já ultrapassou o total do ano passado. Segundo as últimas atualizações epidemiológicas do Ministério da Saúde, são mais de 1,6 milhão de casos, 23,4 mil casos graves e mais de mil óbitos.

Em 2022, ano que já havia batido recorde de mortes, foram 1,4 milhão de casos, 16,3 mil casos graves e 1.016 óbitos pela doença.

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O Ministério da Saúde atribuiu, em nota, o crescimento das arboviroses a “fatores como a variação climática e aumento das chuvas no período em todo o país, o grande número de pessoas suscetíveis às doenças e a mudança na circulação de sorotipo do vírus”.

A dengue tem quatro sorotipos, a DENV1, DENV2, DENV3 e DENV4. Na maioria dos estados, os casos têm sido provocados pelo tipo 1, embora alguns tenham prevalência do sorotipo 2. Há ainda uma proporção considerável em Roraima associada ao DENV3.

O ressurgimento do tipo 3, que há 15 anos não causava epidemias no país, tem preocupado especialistas em relação à possibilidade de novos surtos provocados por ele, o que pode piorar o cenário epidemiológico. Um estudo da Fiocruz, coordenado pela Fiocruz Amazônia e pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), relatou casos identificados em Roraima, mas também no Paraná.

“Nesse estudo, fizemos a caracterização genética dos casos de infecção pelo sorotipo 3 do vírus dengue. É um indicativo de que poderemos voltar a ter, talvez não agora, mas nos próximos meses ou anos, epidemias causadas por esse sorotipo”, explicou o virologista Felipe Naveca, chefe do Núcleo de Vigilância de Vírus Emergentes, Reemergentes e Negligenciados da Fiocruz Amazônia e pesquisador do Laboratório de Arbovírus e Vírus Hemorrágicos do IOC/Fiocruz, à agência Fiocruz.

A dengue costuma ser cíclica, ou seja, provocar ondas maiores a cada três anos. No entanto, os altos números mesmo em períodos de expectativa para menor incidência e a manutenção da tendência de alta neste ano após os recordes em 2022 acendem um alerta.

A principal estratégia de combate à dengue no país ainda são as campanhas de prevenção que buscam evitar a proliferação do mosquito transmissor, como evitar a água parada, tampar caixas d’água e colocar areia nos pratos de vasos de planta.

Outras técnicas, como a criação de mosquitos com a bactéria wolbachia também têm avançado no país. A bactéria está presente em cerca de metade dos insetos, mas que não é encontrada naturalmente no Aedes aegypti. Ao ser inserida nele, ela impede que os vírus da dengue, do zika e da chikungunya também se desenvolvam. O método, promovido pela Fiocruz, vai ser expandido com a construção de uma biofábrica capaz de produzir até 100 milhões de mosquitos por semana, 5 bilhões ao ano, anunciou a fundação.

Redação da Agência Aids com informações do jornal O Globo

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