Bem Paraná: Novo rastreio de HPV no SUS amplia desafio de processamento nos laboratórios

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

A mudança no rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil traz um desafio que vai além de disponibilizar novos testes: criar capacidade laboratorial para processar milhões de amostras em diferentes regiões do país.

O teste molecular para detecção do HPV oncogênico foi incorporado ao SUS como método primário de rastreamento e está substituindo gradualmente o modelo baseado no exame citopatológico, o Papanicolau. A meta do Ministério da Saúde é levar a nova estratégia a toda a rede pública nacional até dezembro de 2026.

A mudança ocorre diante de um problema de saúde pública relevante. Segundo a Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 19.310 novos casos de câncer do colo do útero por ano entre 2026 e 2028. É o terceiro tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras.

O teste molecular identifica a presença de tipos de HPV de alto risco antes mesmo do desenvolvimento de alterações celulares. Quando o resultado é negativo, o intervalo entre os exames pode chegar a cinco anos, conforme as novas diretrizes de rastreamento.

Com a expansão do programa, porém, surge uma questão operacional: como processar grandes volumes de amostras sem concentrar toda a capacidade diagnóstica em poucos laboratórios de grande porte? É nesse ponto que espaço físico, automação e produtividade passam a ser tão relevantes quanto a capacidade nominal dos equipamentos.

Uma plataforma desenvolvida no Brasil busca responder a esse gargalo combinando alta capacidade de processamento e dimensões reduzidas.

O Amplio Station 9600, desenvolvido pela Loccus, empresa brasileira de diagnóstico molecular e automação laboratorial, processa 192 amostras por ciclo, chegando a aproximadamente 960 amostras por turno e até 2 mil em 24 horas de operação contínua.

Em comparação, uma plataforma automatizada de alto volume amplamente utilizada no mercado entrega até 1.440 resultados no mesmo período. Isso representa uma capacidade diária aproximadamente 39% maior para o equipamento brasileiro.

A diferença também aparece no espaço necessário para a instalação. O Amplio Station 9600 mede 1,60 metro por 0,90 metro e ocupa 1,44 m². A plataforma utilizada como referência no comparativo ocupa aproximadamente 3,77 m². Na prática, o equipamento brasileiro processa 39% mais amostras por dia utilizando cerca de 38% da área física da plataforma de referência.

Quando a produtividade é calculada em relação ao espaço ocupado, são aproximadamente 1.390 amostras por metro quadrado no equipamento brasileiro, ante cerca de 380 na plataforma comparada – uma relação de aproximadamente 3,6 para 1. O comparativo considera 24 horas de operação contínua e utiliza as especificações técnicas publicadas pelos fabricantes.

A questão do espaço pode parecer secundária diante de um programa nacional de rastreamento, mas ganha relevância quando a tecnologia precisa sair dos grandes centros de diagnóstico e chegar a laboratórios com estruturas físicas distintas.

“Quando pensamos em rastreamento em larga escala, não basta perguntar qual equipamento consegue processar mais amostras. É preciso saber quantos laboratórios conseguem instalar e operar aquela tecnologia. Espaço, necessidade de profissionais e quantidade de etapas manuais passam a fazer parte da capacidade real de processamento”, afirma Eduardo Araújo, CEO da Loccus.

Antes da automação, há horas de trabalho manual
Outro gargalo está em uma etapa pouco visível para quem realiza o exame: o que acontece com a amostra antes de ela entrar no sistema automatizado.

Em plataformas de alto volume disponíveis no mercado, a amostra coletada em frasco de citologia líquida pode precisar ser transferida para um tubo primário específico antes do início da automação. O procedimento envolve homogeneizar a amostra, abrir o frasco e realizar individualmente a transferência do material.

Em uma rotina de mil amostras, essa preparação pode consumir entre cinco e oito horas de trabalho de um profissional qualificado, além de exigir cabine de segurança e manipulação individual dos recipientes. Na prática, parte de um processo automatizado ainda pode começar com centenas ou milhares de intervenções manuais.

O Amplio Station 9600 inicia o processamento diretamente a partir do tubo de citologia líquida, eliminando essa transferência prévia. Após o carregamento, o sistema integra o processamento da amostra, a extração do material genético, o preparo das reações, a amplificação por PCR em Tempo Real, a leitura dos resultados e o descarte do material utilizado.

Na etapa de amplificação, a Loccus reúne duas soluções voltadas a necessidades distintas, abrangendo rastreio e genotipagem estendida. O Kit Biomol HPV Alto Risco detecta 14 genótipos oncogênicos, com identificação individual dos tipos 16 e 18. Já o Amplio HPV-23 GenID amplia essa análise, permitindo identificar individualmente 23 genótipos de HPV em uma única reação, com reagentes liofilizados.

“Em uma rotina de milhares de exames, retirar uma etapa manual não significa apenas ganhar alguns minutos. Significa liberar profissionais especializados para outras atividades, reduzir manipulações e tornar mais previsível o fluxo de processamento”, afirma Lucas de Oliveira Rossetti Nascimento, diretor de Inteligência de Negócios da Loccus.

O desafio de levar o teste para diferentes regiões
A infraestrutura laboratorial ganha relevância porque a carga do câncer do colo do útero não é uniforme no país. Para o período de 2026 a 2028, as estimativas do INCA colocam a doença como a segunda neoplasia mais incidente entre mulheres nas regiões Norte e Nordeste e a terceira no Centro-Oeste e no Sudeste.

As diferenças regionais estão relacionadas, entre outros fatores, à prevalência da infecção pelo HPV e à qualidade e cobertura dos programas de rastreamento.

Nesse cenário, a expansão do teste molecular não depende apenas da disponibilidade dos exames. Exige uma rede capaz de receber, processar e analisar grandes volumes de amostras de maneira contínua.

Para os laboratórios, entram nessa equação o espaço disponível, o número de profissionais necessários para operar o processo, o tempo de preparação das amostras, a rastreabilidade e a capacidade diária de processamento.

“Um programa nacional precisa funcionar em realidades muito diferentes. A tecnologia que cabe em um grande laboratório central nem sempre é a que consegue ser incorporada com facilidade em outras estruturas. Para ampliar o rastreamento, precisamos olhar para a capacidade instalada da rede como um todo”, diz Araújo.

Uma mudança na prevenção do câncer do colo do útero
A adoção do teste molecular faz parte de uma transformação na estratégia brasileira de prevenção do câncer do colo do útero.

A infecção persistente por tipos oncogênicos do HPV é a principal causa da doença. Enquanto o exame citopatológico procura alterações nas células do colo do útero que possam indicar lesões precursoras, o teste molecular identifica o DNA de tipos de HPV associados ao desenvolvimento do câncer.

A maior sensibilidade do método permite ampliar o intervalo de rastreamento. Pelas novas diretrizes, mulheres com resultado negativo no teste molecular podem repetir o exame após cinco anos, enquanto os casos positivos seguem para investigação de acordo com os protocolos estabelecidos.

A mudança de escala também amplia a importância da automação. Quanto maior o volume de amostras, maior a necessidade de padronizar processos, reduzir intervenções manuais e distribuir capacidade de processamento pela rede.

Com a meta de levar o teste molecular a todo o país até dezembro de 2026, o próximo desafio da prevenção do câncer do colo do útero não está apenas em ampliar o acesso ao exame. Está também em garantir que os laboratórios tenham estrutura para transformar essa expansão em milhões de testes processados com segurança e eficiência.

Apoios