Enquanto belgas se aproximam das metas globais 95-95-95, espanhóis ampliam o acesso à PrEP e buscam reduzir desigualdades no atendimento à população migrante
A disputa entre Bélgica e Espanha, marcada para esta sexta-feira (10), às 16h, pelas quartas de final da Copa do Mundo, coloca frente a frente duas seleções que também figuram entre as referências europeias na resposta ao HIV. Embora apresentem avanços importantes em diagnóstico, tratamento e prevenção, os dois países ainda convivem com desafios relacionados ao preconceito e às desigualdades no acesso aos serviços de saúde.
Bélgica avança rumo às metas globais
A Bélgica está muito próxima de alcançar os objetivos estabelecidos pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids). Atualmente, 93% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico. Entre elas, 95% estão em tratamento antirretroviral e 98% alcançaram carga viral indetectável, resultado que reduz significativamente a transmissão do vírus e melhora a qualidade de vida.
Na prevenção, o país também registra crescimento consistente. A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), regulamentada desde 2017, segue em expansão. Somente em 2024, mais de 10 mil pessoas utilizaram a estratégia preventiva, número 26% superior ao registrado no ano anterior.
Apesar dos indicadores positivos, a epidemia permanece concentrada principalmente entre homens que fazem sexo com homens, responsáveis por cerca de 43,6% dos novos diagnósticos.
Entretanto, o principal obstáculo enfrentado atualmente não está ligado ao acesso ao tratamento, mas ao estigma. Pesquisa da organização Sensoa revelou que 41% das pessoas vivendo com HIV já sofreram discriminação em razão do diagnóstico.
O receio de revelar a sorologia também continua elevado: aproximadamente 85% afirmam ter cautela ao compartilhar essa informação com familiares, amigos ou colegas de trabalho. O preconceito também chega aos serviços de saúde, onde quase um terço dos entrevistados relatou experiências de desrespeito ou até mesmo recusa de atendimento.
Espanha amplia prevenção e busca reduzir desigualdades
A Espanha também apresenta uma resposta sólida ao HIV. Segundo o Unaids, cerca de 160 mil pessoas vivem com o vírus no país, sendo que 92,5% já conhecem seu diagnóstico.
Em 2024, foram registrados aproximadamente 3.200 novos casos, enquanto a prevalência entre adultos de 15 a 49 anos permanece em torno de 0,3%, um dos índices mais baixos da Europa Ocidental.
Os homens que fazem sexo com homens concentram cerca de 56% das novas infecções, enquanto as transmissões por relações heterossexuais representam aproximadamente um quarto dos diagnósticos.
Embora disponha de tratamento universal e de estratégias consolidadas de prevenção, especialistas alertam que o maior desafio espanhol é garantir que esses serviços alcancem todas as populações.
Durante o 22º Congresso Nacional sobre Aids e ISTs, realizado em Valladolid, representantes do Plano Nacional sobre HIV/Aids destacaram que aproximadamente metade dos novos diagnósticos ocorre entre migrantes em situação administrativa irregular. Barreiras burocráticas frequentemente atrasam o acesso à testagem, ao acompanhamento médico e ao início do tratamento.
Nos últimos anos, a Espanha também fortaleceu o enfrentamento ao preconceito. Em 2025, uma decisão da Justiça considerou discriminatória a redução da validade da carteira de motorista de uma pessoa apenas por viver com HIV. A medida foi comemorada por entidades da sociedade civil como um importante precedente no combate à discriminação.
O país também ampliou o acesso à PrEP, oferecida gratuitamente pelo sistema público desde 2019 e que passou a contar, mais recentemente, com a versão injetável para pessoas elegíveis.
Dentro e fora de campo
Assim como prometem equilíbrio dentro das quatro linhas, Bélgica e Espanha chegam às quartas de final demonstrando que respostas eficazes ao HIV vão além do acesso aos medicamentos.
Os dois países acumulam resultados expressivos em prevenção e tratamento, mas reforçam que eliminar o estigma, combater a discriminação e ampliar o acesso aos serviços de saúde continuam sendo passos essenciais para controlar a epidemia e garantir os direitos das pessoas que vivem com HIV.




