Bélgica e Egito: o jogo contra o HIV passa pelo combate ao estigma e pela ampliação do diagnóstico

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Seleções se enfrentam na estreia da Copa do Mundo de 2026 carregando desafios distintos na resposta à epidemia: enquanto os belgas se aproximam das metas globais do Unaids, os egípcios registram crescimento das infecções e baixa cobertura diagnóstica

A Copa do Mundo de 2026 segue ampliando seu mapa de histórias dentro e fora dos gramados. Nesta segunda-feira (15), Bélgica e Egito entram em campo no Lumen Field, em Seattle, pela primeira rodada do Grupo G. De um lado, uma das seleções mais talentosas da última década tenta transformar sua geração dourada em um capítulo inesquecível da história dos Mundiais. Do outro, uma potência africana liderada por Mohamed Salah sonha em desafiar os favoritos e avançar além das expectativas.

Mas, longe das quatro linhas, os dois países também protagonizam outra disputa. Bélgica e Egito convivem com cenários bastante diferentes no enfrentamento ao HIV, revelando que a epidemia continua impondo desafios mesmo em nações que apresentam índices relativamente baixos de prevalência.

Enquanto a Bélgica concentra seus esforços no combate ao preconceito e à discriminação contra pessoas vivendo com HIV, o Egito enfrenta um aumento consistente dos diagnósticos e dificuldades para ampliar o acesso à testagem e à prevenção.

Dois países, duas realidades da epidemia

Embora os números absolutos sejam diferentes, Bélgica e Egito demonstram como a luta contra o HIV continua exigindo respostas permanentes.

Na Bélgica, aproximadamente 19 mil pessoas vivem com HIV. A prevalência entre adultos de 15 a 49 anos é de 0,2%, uma das mais baixas da Europa. Em 2024, foram registrados 662 novos diagnósticos.

Já o Egito possui cerca de 56 mil pessoas vivendo com HIV. Apesar da prevalência estimada ser de apenas 0,1%, os números vêm crescendo de forma acelerada. Em 2024, o país registrou aproximadamente 6.300 novas infecções, um aumento de 18% em comparação com 2022.

Os dados mostram que, embora os dois países estejam muito distantes em termos de contexto social, econômico e cultural, ambos ainda enfrentam obstáculos importantes para controlar a epidemia.

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A resposta belga ao HIV é considerada uma das mais eficientes da Europa. Segundo o Unaids, 93% das pessoas vivendo com HIV no país conhecem seu estado sorológico. Entre elas, 95% estão em tratamento antirretroviral e 98% alcançaram a supressão viral — indicadores que colocam a Bélgica muito próxima das metas globais 95-95-95.

A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) também é amplamente acessível. Regulamentada desde 2017, a estratégia vem crescendo ano após ano. Em 2024, mais de 10 mil pessoas utilizaram a profilaxia no país, um aumento de 26% em relação ao ano anterior.

Os homens que fazem sexo com homens (HSH) seguem sendo o grupo mais afetado pela epidemia, respondendo por cerca de 43,6% dos novos diagnósticos.

Apesar dos avanços, o principal adversário da Bélgica atualmente não está relacionado à ciência ou à medicina. Está relacionado ao preconceito.

Quando o estigma também adoece

Dados da organização Sensoa revelam que 41% das pessoas vivendo com HIV na Bélgica já sofreram algum tipo de discriminação por causa de sua condição sorológica.

O receio de revelar o diagnóstico também permanece elevado. Cerca de 85% das pessoas com HIV afirmam ser cautelosas ao compartilhar sua condição com familiares, amigos ou colegas. O cenário se torna ainda mais preocupante quando o preconceito acontece dentro dos próprios serviços de saúde.

Segundo a pesquisa, quase um terço das pessoas vivendo com HIV já enfrentou algum tipo de desrespeito durante atendimentos médicos. Em alguns casos, pacientes relataram até mesmo recusa de atendimento.

Os números mostram que, mesmo em países com sistemas de saúde robustos e acesso universal ao tratamento, o estigma continua sendo uma barreira tão importante quanto a própria infecção.

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No lado egípcio, o principal desafio é outro. O país vem registrando crescimento constante no número de pessoas vivendo com HIV.

Entre 2022 e 2024, a estimativa de pessoas vivendo com o vírus passou de 46 mil para 56 mil. No mesmo período, os novos diagnósticos cresceram de 5.300 para 6.300 casos anuais. O dado que mais preocupa especialistas é a baixa cobertura diagnóstica.

Apenas 59% das pessoas que vivem com HIV no Egito sabem que são portadoras do vírus. Isso significa que milhares de pessoas seguem sem diagnóstico e, consequentemente, sem acesso ao tratamento.

Entre aqueles que conhecem seu estado sorológico, 75% estão em terapia antirretroviral e 78% já alcançaram supressão viral.

Embora o tratamento seja oferecido gratuitamente pelo sistema público de saúde, o país ainda enfrenta dificuldades para ampliar estratégias de prevenção e diagnóstico precoce.

A prevenção ainda não chega para todos

Diferentemente de diversos países que participam da Copa do Mundo de 2026, o Egito ainda não possui um programa nacional de distribuição da PrEP. A profilaxia permanece restrita e tem alcance limitado, o que dificulta sua utilização por populações mais vulneráveis.

Organismos internacionais também apontam insuficiência de dados sobre populações-chave, especialmente homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis.

Especialistas consideram que a falta de informação, somada ao estigma social e às barreiras culturais, contribui para o crescimento das infecções observado nos últimos anos.

O jogo fora do estádio

A partida entre Bélgica e Egito coloca frente a frente duas seleções com histórias distintas no futebol e também duas realidades diferentes da epidemia de HIV.

A Bélgica demonstra que acesso ao tratamento e prevenção podem transformar a trajetória da doença, mas evidencia que o preconceito continua sendo um obstáculo para milhares de pessoas.

O Egito, por sua vez, mostra que a ampliação do diagnóstico e das estratégias preventivas ainda é uma tarefa urgente para evitar que os casos continuem crescendo. Quando a bola rolar em Seattle, os torcedores estarão atentos aos gols, às jogadas e ao resultado do confronto.

Mas, fora dos gramados, a luta continua sendo a mesma: garantir que informação, prevenção, tratamento e direitos cheguem a todas as pessoas.

Porque, assim como no futebol, vencer a epidemia exige estratégia, trabalho coletivo e a certeza de que ninguém pode ficar para trás.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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