
Durante o 22º. Camarote Solidário, organizado pela Agência de Notícias da Aids, a jornalista Patrícia Palumbo, com a mediação da drag queen Dindry Buck, entrevistou três personalidades importantes no contexto da cidadania da comunidade LGBT+ em uma live, transmitida diretamente pelo canal da Agência Aids, pelo Sesc TV e pelos sites Catraca Livre e Indetectável.
O primeiro entrevistado foi o educador Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBT+ para falar sobre inclusão e respeito nos ambientes corporativos, bem como nas expressões de comunicação corporativas neste contexto. Dra. Deborah Bonini, geriatra e gerontologista pioneira no trabalho de saúde para quem vive com HIV, abordou a questão da longevidade, especialmente para quem venceu o diagnóstico da infecção e hoje vive sob cuidados médicos com qualidade de vida, muitos na faixa dos 50, 60 anos e até mais. Para encerrar, Dr. Fábio Mesquita, infectologista de renome internacional e que coleciona grandes resultados no enfrentamento à aids, falou a respeito das novas frentes de infecção, como o sexo químico, por exemplo, que desafiam as autoridades médicas e de saúde pública, bem como o impacto dos recentes cortes orçamentários aos programas internacionais de controle e erradicação da aids pelo governo americano. Dr. Mesquita também trouxe boas novas, provenientes de estudos na Austrália e que podem representar, quem sabe, a cura da aids, no futuro.
Esses entrevistados têm entre si, muitas coisas em comum para estarem juntos neste contexto. Todos acima dos 60, em suas jornadas está a luta pelos direitos das pessoas LGBT+, a prevenção ao HIV, bem como a saúde e longevidade de um recorte social das pessoas que vivem com HIV, consolidada ao longo de mais de quatro décadas, desde os primeiros casos desta infecção.
Na Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, a questão da longevidade foi tema central
Na 29ª. vez que essa Parada atravessa a av. Paulista reunindo milhares de pessoas, Bulgarelli, como educador, pontua sobre o título do evento – “Celebramos o ‘orgulho’ porque a vergonha nos foi imposta”. Bulgarelli credita o pioneirismo do movimento gay no Brasil à Festa da Chiquita, realizada anualmente em Belém do Pará, graças ao empenho de um amigo, o artista Elói Iglesias. No final dos anos 1970, o que inicialmente era para ser um bloco carnavalesco, passou a reunir pessoas LGBT+ que pedia anistia política e contra a ditadura militar. Hoje é reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado do Pará.
A evolução de um movimento de inclusão é reconhecida pelo educador, tida como significativa na representação LGBT+ na mídia e publicidade. “Programas de TV e comerciais, que antes usavam estereótipos pejorativos, agora começam a incluir narrativas mais diversas e respeitosas”, observa. Compromissos do Fórum, como os de comunicação e propaganda, incentivam empresas a incluir a diversidade em suas campanhas, sem a necessidade de um ativismo explícito, mas com respeito e dignidade. “E aqui a gente não está falando de sexo, de como ou com quem você faz sexo. Estamos falando de cidadania”.
Bulgarelli, ao citar o amigo Elói Iglesias, que aliás, deve estar na faixa dos 70 anos, teve a dolorosa oportunidade de ver muitos de seus amigos em comum morrerem de aids. “E muitos desses casos foram omitidos, por preconceito dentro de seus círculos sociais”. Por mais que a sociedade tenha mudado em relação à aids e à aceitação aos LGBT+, os riscos de retrocesso são perenes. “Recentemente o presidente Trump declarou que nos EUA só tem dois gêneros, o masculino e o feminino no país. Como se não bastasse, o país cortou apoios a programas voltados aos cuidados e prevenção da aids no mundo, cujas consequências ainda não conseguimos calcular”. E encerrou alertando que a base ética para ações de inclusão diz respeito aos direitos humanos e a negócios sustentáveis.
Linha longeva do tempo
A faixa da população com idade de 60+ já representa 31,8 milhões de pessoas, incluindo aqueles com 80 anos ou mais. A régua de longevidade é ascendente, refletindo o envelhecimento da população brasileira. Esse fenômeno não seria diferente entre as pessoas que vivem com HIV. A aids, que no final dos anos 1980 era uma ‘sentença de morte’, ao longo de quatro décadas mereceu pesquisas, estudos, melhores remédios de controle, bem como novos métodos de prevenção. Hoje um diagnóstico de aids irá exigir um tratamento de “doença crônica”, como acontece em relação à hipertensão ou ao diabetes, por exemplo.

Dra. Deborah Bonini é geriatra, especialidade médica dedicada a tratar pessoas idosas, e gerontologista, especialidade que vai mais a fundo nos cuidados necessários para mitigar problemas de saúde que aparecem ou se acentuam com o avançar da idade.
Com 40 anos de experiência na área médica, pôde ver pacientes infectados com HIV nos primórdios da infecção serem discriminados pela própria classe médica, que os atendia com medo e preconceito, sendo que um pouco de humanidade e menos ignorância poderiam ter mudado a história de muita gente. “Pessoas com aids eram abandonadas porque não sabíamos o quanto elas iriam prejudicar outro paciente. Neste caso, entretanto, ela deveria ser isolada e cuidada para não contrair outras infecções”. E a médica ouvia exclamações assim: “Você é maluca de mexer num aidético”, lembra. “Hoje olhamos para um paciente com aids da mesma forma que atendemos uma pessoa com gripe. Então, houve, sim, muita evolução, apesar de haver, ainda, muito preconceito, inclusive na classe médica”.
A população vem ganhando longevidade, independente do gênero ou classe social. A medicina avançou muito, mas a conscientização da população também expandiu. “Conscientizar-se em relação à prática de atividades físicas, cuidados para melhorar a cabeça e a aceitação do próprio envelhecimento são um caminho”, observa a médica. O cenário que vemos hoje, em relação aos cuidados do próprio corpo, comparado ao de 30 anos atrás, é maravilhoso, mas há um caminho ainda de evolução.
Quando se estabelece um foco sobre a população trans sexos, ou mesmo os cuidados estéticos também da população LGBT+, as barreiras financeiras associadas ao preconceito que ainda está entre nós se acentuam. “Daí tem o etarismo, que também habita entre nós, e encontramos mais uma frente de discriminação e preconceitos”, declara a médica.

Em sua análise, a sociedade brasileira considera uma pessoa de 60 anos idosa, mesmo que a maioria esteja em plena capacidade produtiva. “Na Itália, por exemplo, idoso é a partir dos 75 anos, sendo que muita gente está chegando a essa idade com todos os recursos de trabalhar e realizar coisas. Dindry relembrou da época em que travestis e pessoas trans se submetiam a mutilações e riscos de morte quando buscavam procedimentos invasivos e rudimentares para a mudança de suas formas físicas. “Eu acompanhei casos de travestis que usavam silicone industrial para mudar o corpo, que precisavam ficar amarrados, às vezes, com um cabo de vassoura no meio do corpo, para que o produto injetado atingisse a forma desejada…”.
Para a médica, ainda hoje é necessário que haja um preparo maior os profissionais de saúde para que procedimentos estéticos, muitos deles usados como recursos para atender a anseios importantes desse recorte de pessoas, com segurança e eficácia. Mas uma das frentes mais relevantes e que precisa de reforço na saúde pública é a saúde mental. Com atendimento e acolhimento adequados, essa população que está com 50, 60+, e que atravessou essa revolução da história até os dias de hoje, muitas vezes vai precisar de apoio nesse âmbito. “Precisamos buscar saídas para envelhecer com qualidade de vida”, alerta. “Nós temos de contar as nossas histórias para as novas gerações, contar o que nós passamos nessas quatro décadas que ficaram para trás para que ninguém desista de prosseguir”!
A exclusão está aí e se acentua quando chegamos nas periferias, nas regiões menos favorecidas socialmente, porque, segundo a Dra. Deborah Bonini, se já é difícil ser gay, sendo médica, tendo um filho, “imagine a dificuldade de quem tem restrições financeiras e sociais, muitas vezes vivendo positivo, independente do gênero!”.
A necessidade de ampliar o espectro de respeito e acesso à saúde multidisciplinarmente é um desafio do momento presente, mas que pode ser encarado graças às lutas pregressas. “As novas gerações devem ser trabalhadas, pois é o ser humano que está valendo, ampliar o acesso à questão psicológica diz respeito a uma luta para sermos felizes”.
A geriatra e gerontologista encerrou sua participação com um alerta geral: “A longevidade das pessoas que vivem com HIV tem a ver com saúde preventiva e cuidados médicos permanentes. Este é o recado – não devemos esquecer de fazer as prevenções protocolares, tais como saúde da próstata, útero, seios, independentemente de qualquer condição, porque saúde é fundamental para envelhecermos com qualidade de vida”.
Do coquetel à PEP e PrEP

Nos últimos anos, o tratamento da aids tem registrado avanços significativos com o uso de medicamentos antirretrovirais (ARVs), transformando a doença, que era praticamente uma sentença de morte, em uma condição crônica gerenciável. O infectologista Fábio Mesquita, de renome internacional, que mais uma vez esteve no estúdio da Agência Aids, acompanha essa evolução com a ‘mão na massa’ há mais de 40 anos. Ele recorda que em 1987, o AZT foi o primeiro medicamento aprovado para o tratamento do HIV/aids, revolucionando a abordagem terapêutica da doença. O AZT atua como um inibidor da transcriptase reversa, impedindo a replicação do vírus HIV em células humanas. O impacto do AZT no tratamento do HIV/aids foi monumental, marcando o início de uma nova era na gestão da doença e pavimentando o caminho para o desenvolvimento de novos e mais eficazes tratamentos antirretrovirais.
Dr. Fábio Mesquita, atual secretário municipal de saúde Guarujá, em São Paulo, é notável por seu compromisso com a saúde pública e seu papel tem sido crucial em implementar estratégias eficazes de combate ao HIV/aids no país. Seu trabalho, não só no Departamento de Combate à Aids do Ministério da Saúde do Brasil, nos anos 2000, é um dos marcos na implantação de políticas no âmbito da saúde pública no tratamento e prevenção da aids. Com esse histórico no front do combate à aids, o médico compara os desafios de hoje em relação aos progressos. As pessoas que hoje têm 60+ vivendo com o HIV tiveram de passar por rotinas pesadas de medicação, cujo coquetel antirretroviral, que começou a ser usado em 1996, chegou a ser composto por mais de 15 comprimidos diariamente. “Se a pessoa tivesse outra doença associada, esse volume podia chegar a 20 medicamentos diferentes por dia. Hoje é mais fácil aderir ao tratamento, com menos efeitos colaterais e melhor resposta do paciente”, diz Mesquita.

A era do Lenacapavir e Cabotegravir, que está chegando, traz mais uma revolução no tratamento contra o HIV. São dois novos medicamentos injetáveis que oferecem intervalos de administração mais longos em comparação com medicamentos orais. O Lenacapavir deve ser administrado a cada seis meses e o Cabotegravir a cada dois meses. “Uma injeção a cada seis meses é muito melhor, em termos de aderência ao tratamento”, atenta o Dr. Mesquita. “Muitos países já adotaram esses novos medicamentos e a gente tem uma expectativa grande de que o Brasil os adote o mais rápido possível para toda a rede de atendimento das pessoas que vivem com o HIV. Administrar uma injeção a cada três ou seis meses é um avanço fantástico e que traz mais segurança e qualidade de vida aos pacientes. Agora é necessária a adesão das políticas públicas para que seus benefícios se estendam em escala”.
A ciência nos traz hoje medicamentos e tratamento mais eficazes contra a aids, bem como em relação à prevenção, como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e Profilaxia Pós-Exposição (PEP), disponíveis na rede pública gratuitamente, mas há um risco iminente nesse contexto, que é o retrocesso político detectado com as diretrizes do presidente americano Donald Trump. “O impacto da intolerância política nos cuidados em prevenção e tratamento da aids atinge países como Moçambique, Angola, Cabo Verde, dentre outros, que hoje já estão sentindo as consequências da saída dos EUA da Organização Mundial da Saúde (OMS)”, alerta. “Programas de bolsas de estudo para médicos e pesquisadores, tais como alguns pelos quais eu, o dr. Pedro Chequer e Dr. Artur Kalichman passamos, foram cancelados a partir das deliberações políticas de Trump. Essas bolsas vinham de uma parceria do Ministério da Saúde com o Unaids”. A interrupção ao tratamento de milhares de pessoas, a maioria em situação de vulnerabilidade social, pode atrasar as metas da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), uma delas a de reduzir o número de novas infecções por HIV em 75% em relação aos níveis de 2010. Isso inclui ampliar o acesso a métodos de prevenção eficazes, como PrEP (profilaxia pré-exposição) e educação sobre saúde sexual.
Saúde mental

O Brasil possui uma ampla rede de Centros de Ação Psicossocial (CAPS), com quase 3.000 unidades em todo o território nacional. O conceito deste atendimento surgiu nos anos 1980, como parte da Reforma Psiquiátrica e como alternativa aos hospitais psiquiátricos. “Expandir os recursos dos CAPS, especialmente depois da pandemia, se tornou uma premência. Saúde mental é um desafio social local e globalmente”, destaca Mesquita. “As demandas nessa direção não são só incumbência do Ministério da Saúde, mas do Ministério da Ação Social. Serviços como atividades em grupos, iniciativas de convivência são algumas das inúmeras alternativas na direção dessa busca pela saúde mental, bem como a saúde física”. Como registro, em uma conferência de Vancouver, no Canadá, um estudo sobre a longevidade de pessoas vivendo com HIV mostrava ser maior do que as outras pessoas. “A explicação é simples – os cuidados com a saúde integralmente são eficazes, sendo que o acompanhamento nesse controle nem sempre é considerado no grupo de pessoas que não têm o vírus HIV”.
Vencidas tantas barreiras, em relação à inclusão e acesso a um sistema de saúde integrado, uma rede de distribuição de medicamentos, tanto para tratamento das pessoas que vivem com HIV quanto no âmbito da profilaxia pré e pós exposição a riscos, agora nos levam a novos desafios, que são o acolhimento e cuidados com a saúde mental dessas pessoas em uma fase complexa da vida, quando elas se enxergam mais velhas e onde, em muitos casos, enfrentam novos desafios de sobrevivência. “É normal uma pessoa acima de 60 ter problemas de saúde pertinentes a essa faixa etária. Ter essa visão em relação à diversidade e tratar todo mundo bem é questão prevista na Constituição de 1988”, conclui o médico.
Boas novas estão chegando

A notícia que todos nós sonhamos receber é a cura da aids. Novos estudos, estes provenientes da Austrália, que acabam de ser anunciados dizem respeito a um novo medicamento que é capaz de identificar e matar o vírus, mesmo indetectável, dentro do organismo. “Essa notícia é uma luz no fim do túnel, em relação à cura da aids. Todos sabemos que os antirretrovirais tornam o vírus indetectável, mas ante a ausência de medicamentos, ele volta a agir, podendo causar novas infecções. No caso desses estudos, abre-se a possibilidade de acabar com o vírus definitivamente”, comemora o infectologista.
Outra notícia importante no contexto da aids e no enfrentamento à infecção é que o Brasil será sede, ano que vem, da Conferência Internacional de Aids, que será realizada no Rio de Janeiro, trazendo informações de ponta no âmbito da ciência e da tecnologia no combate à aids e em benefício das pessoas que vivem hoje com o HIV.
Assista à transmissão do Camarote Solidário
Sandra de Angelis, especial para a Agência de Notícias da Aids



