Por iniciativa da Bancada Feminista do PSOL, a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) sediou, na última sexta-feira (12), uma sessão solene em tributo à luta contra o HIV/aids. O evento reuniu parlamentares, ativistas históricos, representantes de movimentos sociais, coletivos culturais e entidades da saúde pública, em uma noite marcada por falas contundentes sobre estigma, desigualdade racial, acesso à prevenção e direito à vida.
Realizado no contexto do Dezembro Vermelho, mês dedicado à luta contra a aids, o tributo teve como eixo central o reconhecimento da trajetória do movimento social de HIV/aids e o protagonismo de pessoas negras, LGBTQIA+ e periféricas na construção de políticas públicas. Em um parlamento reconhecido por sua maioria conservadora, o ato foi reiteradamente definido pelos participantes como um gesto de ocupação política e resistência.
Logo na abertura, a co-deputada Carol Iara (PSOL) destacou o simbolismo da atividade dentro da Alesp. “Essa casa não é a primeira vez que recebe as demandas de HIV/aids, mas é uma casa conservadora. E essa legislatura é um pouco conservadora além da conta. Então, estar aqui hoje é um ato de resistência”, afirmou.
Segundo Carol, o tributo não se limitava a uma homenagem formal, mas representava a afirmação da vida de populações historicamente excluídas do poder institucional. “Como o maior parlamento estadual do país, nós estamos aqui hoje ocupando esse espaço para homenagear aquelas, aqueles e aquelus que estão na linha de frente na luta por dignidade”, disse.
Em uma das falas mais marcantes da noite, Carol Iara relacionou diretamente sua trajetória pessoal à existência do movimento de HIV/aids no Brasil. Mulher negra, travesti e vivendo com HIV, ela afirmou que sua presença no Parlamento é resultado direto do acolhimento e da organização coletiva. “Essa mesa representa o motivo pelo qual eu consegui estar viva. Quando eu recebi o diagnóstico de HIV, eu não sabia o que me esperava. Eu não sabia se eu ia viver muito”, declarou.
Carol citou o papel fundamental de organizações como o Grupo de Incentivo à Vida (GIV), o Grupo Pela Vidda São Paulo e outras entidades do movimento social. “Quando eu bati na porta do GIV, quando eu bati na porta do Pela Vidda, quando eu bati na porta do movimento de aids, foi o movimento que me acolheu”, afirmou, emocionada.
Ela também ressaltou o significado político de ocupar o espaço institucional: “Hoje, eu ser parlamentar num mandato coletivo, eu ser doutoranda, eu ser uma mulher negra e travesti vivendo com HIV num país como o nosso diz respeito a todas as pessoas que estão aqui presentes.”
Movimento histórico alerta para desafios atuais da epidemia
O ativista Eduardo Barbosa, uma das principais referências do movimento de HIV/aids no país, agradeceu à Bancada Feminista por manter a pauta viva no Legislativo e fez um alerta sobre os desafios atuais da resposta à epidemia. “A gente avançou bastante. Tem PrEP, tem PEP, tem tratamento. Mas a gente não está conseguindo chegar na periferia, no jovem negro, na mulher, em pessoas que não têm acesso à internet”, afirmou.
Para Eduardo, coordenador do Mopaids e presidente do Grupo Pela Vidda, o Brasil corre o risco de não alcançar as metas globais de eliminação da Aids como problema de saúde pública até 2030 se não houver novas estratégias. “A gente vai ter que encontrar outros mecanismos para quebrar essa bolha e ampliar o diagnóstico e a assistência”, disse.
“Não é discurso, é ação”, afirma Américo Nunes
Representando o Instituto Vida Nova, o ativista Américo Nunes destacou a atuação concreta da Bancada Feminista e de Carol Iara na defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV. “A Carolina tem contribuído efetivamente. Não é discurso, é ação. Quem acompanha vê que é luta cotidiana”, afirmou.
Américo também compartilhou sua própria trajetória no movimento, relacionando o ativismo ao fortalecimento pessoal e coletivo. “Estar no movimento de aids, estar na luta com o movimento LGBTQIA+, faz a gente crescer e avançar”, disse.
Mulheres vivendo com HIV reivindicam cura e enfrentamento do estigma
A representante do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas, núcleo São Paulo, Maria Elisa Silva, chamou atenção para a situação das mulheres vivendo com HIV no Brasil. “Desde o início da epidemia até hoje, nós temos 350 mil mulheres infectadas. A aids não acabou”, afirmou.
Ela também fez uma crítica direta ao modelo atual de resposta biomédica: “Nós não queremos mais apenas ser alvos de laboratórios para compra de novos medicamentos. Nós queremos cura. E nós merecemos isso.”
Racismo e desigualdade marcam o cenário atual da epidemia
A ativista e pesquisadora Pisci Bruja destacou dados do boletim epidemiológico e relacionou a persistência da epidemia às desigualdades estruturais. “62% das novas infecções estão na população negra. Isso não é determinismo biológico. Isso é marginalização social”, afirmou.
Segundo ela, reconhecer a história do movimento é essencial para projetar respostas futuras: “A gente precisa olhar para o passado, entender as emergências do presente e prospectar o nosso corpo vivo no futuro.”
Cultura ballroom como tecnologia de saúde e sobrevivência
Representando o Coletivo AMEM, Biel Lima defendeu a cultura ballroom como ferramenta de cuidado comunitário e prevenção. “Estar aqui hoje não é apenas um ato de presença, é um ato de sobrevivência”, afirmou.
Ele destacou que a comunicação sobre HIV precisa dialogar com os territórios onde a população está. “A epidemia de HIV tem cor. Falar de HIV precisa ser uma pauta preta, LGBTQIA+ e periférica”, disse.
Mais de 70 homenageados recebem reconhecimento da bancada feminista
Ao longo da sessão, cerca de 70 pessoas, coletivos e instituições receberam certificados da Bancada Feminista do PSOL, em reconhecimento à atuação histórica e cotidiana na resposta ao HIV/aids no estado de São Paulo e no país.
Entre os homenageados esteve o Instituto Vida Nova, o GIV, a Casa 1, a Casa Florescer, a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, o Coletivo Contágio, o Instituto Multiverso, o Grupo Pela Vidda São Paulo, o Fórum de ONGs/Aids de São Paulo, a Rede de Jovens SP+, a House of Black Velvet, entre outros.
A Agência de Notícias da Aids, representada neste evento pelo Marcelo de Jesus, foi reconhecida por sua dedicação à prevenção do HIV, ao cuidado e à visibilidade das pessoas que vivem com HIV/aids e pela defesa permanente de direitos e enfrentamento do estigma e da discriminação.
Criada com o compromisso de produzir informação qualificada e comprometida com os direitos humanos, a Agência foi destacada pelo papel estratégico que desempenha no fortalecimento da resposta comunitária e na valorização das vozes historicamente silenciadas pela epidemia. Segundo a certificação entregue, seu trabalho “fortalece vidas, combate o estigma e contribui para a construção de uma sociedade mais justa”.
Direito à vida e à memória
No encerramento, Carol Iara voltou a afirmar que a luta contra o HIV/aids é, antes de tudo, uma luta pela vida. “Não estamos falando apenas de insumos ou tecnologias. Estamos falando de vidas humanas, de pessoas de carne e osso, com cor, classe, território e sexualidade”, afirmou.
Ela também ressaltou que a ocupação da Alesp naquele dia foi um gesto coletivo de afirmação. “Nós não vamos pedir licença. Vamos usar todas as nossas tecnologias sociais de sobrevivência para viver plenamente.”
Confira a seguir os melhores momentos do evento:
Fotos: Bancada Feminista do PSOL

O evento foi marcado por falas em defesa das pessoas vivendo com HIV/aids

Eduardo Barbosa e Américo Nunes defenderam a importância da discussão sobre aids no legislativo

A Bancada Feminista lotou o auditório da Assembleia

Pisci Bruja falou sobre os desafios da luta contra aids entre pessoas vulnerabilizadas

Nelson Matias, presidente da Parada do Orgulho LGBT de SP, disse que a luta contra a aids também é pauta do movimento LGBTQIAP+

Ativistas históricos que já partiram foram merecidamente homenageados: José Araújo e Jorge Beloqui: presentes!

A luta contra aids sempre foi construídas por diferentes atores, incluído os coletivos e as ONGs.

Dezenas de ativistas compareceram ao evento

A equipe do Instituto Vida Nova sempre presente!

Marcelo de Jesus representou a equipe da Agência Aids no Tributo

Certificada, a Família Stronger reafirmou seu papel na luta contra o estigma, a discriminação e a inclusão

Os jovens dominaram o evento, reafirmando que eles também são o presente desta luta que existe há mais de 40 anos

A cultura Ballroom é um movimento artístico e político LGBTQIA+ criado por pessoas negras e latinas nos EUA, a partir dos anos 70, como resposta à exclusão, usando bailes (balls) com competições de dança (Vogue), moda e performance para criar espaços de acolhimento, família (Casas/Houses) e afirmação de identidade, celebrando corpos diversos e abordando temas como HIV/aids e empoderamento

A arte sempre foi potência na luta pelas desigualdades

A luta feminista também passa pela contra com a aids, a exclusão, o preconceito

Representantes da House of Império marcaram presença no tributo

Carol Iara e Iran Giusti, jornalista e ativista, fundador da Casa 1, um importante centro de acolhimento e cultura LGBTQIAPN+ em São Paulo

Longe de ser uma cena underground, a ballroom inspira ícones da cultura pop e vem se consolidando como um fenômeno global

Representando o Multiverso, o Dr. Maravilha levou muito amor e afeto para o Tributo
Redação da Agência de Notícias da Aids



