Avanços em medicamentos de longa ação e novo estudo sobre PrEP oral marcam destaques da Conferência Europeia de Aids (EACS), aponta Dr. Valdez Madruga, da Casa da Pesquisa do CRT de São Paulo

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Pesquisador destaca que novas tecnologias podem transformar o cuidado e a prevenção do HIV no Brasil, mas alerta para a lentidão na incorporação de medicamentos pelo SUS

A edição 2025 da Conferência Europeia de Aids (EACS), realizada em Paris, foi marcada por um intenso debate científico e pela apresentação de novas tecnologias que podem transformar o cuidado e a prevenção do HIV no mundo. Para o infectologista e pesquisador Valdez Madruga, diretor da Casa da Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo (CRT-SP), o encontro trouxe “excelentes notícias” — especialmente no campo dos medicamentos de longa duração, tanto para o tratamento quanto para a prevenção.

“Foi um congresso intenso, com palestras importantes ocorrendo simultaneamente, muita informação. O que mais chamou atenção foi o avanço dos medicamentos de longa ação, principalmente para a prevenção, mas também para o tratamento”, afirmou o dr. Valdez.

Entre os temas de destaque, o pesquisador cita os novos estudos com cabotegravir e rilpivirina, injeções intramusculares aplicadas a cada oito semanas. Segundo ele, pesquisas recentes mostram resultados promissores mesmo entre pessoas que enfrentam dificuldades de adesão ao tratamento.

“Os estudos estão desafiando populações que não estão virologicamente suprimidas, que têm dificuldade de adesão, e mesmo assim as taxas de sucesso permanecem acima de 90%. Isso é excelente”, destacou. “Esses medicamentos podem ser muito adequados, por exemplo, para pessoas em situação de rua, que enfrentam barreiras para guardar e tomar os remédios todos os dias.”

Inovações que podem mudar a rotina do tratamento

Dr. Valdez Madruga explica que o desenvolvimento de terapias de longa ação também busca responder à chamada fadiga por pílulas, termo usado para descrever o cansaço das pessoas em manter o uso diário de antirretrovirais.

“A injeção a cada dois meses pode ajudar nisso. Há pessoas que se cansam de tomar comprimido todos os dias e outras que enfrentam o estigma e preferem não deixar o medicamento visível. Então, ter a opção de ir ao serviço de saúde de dois em dois meses é uma alternativa mais confortável”, disse.

Além dos injetáveis, a conferência apresentou estudos com tratamentos orais de longa ação, tomados uma vez por semana. Entre as combinações em estudo estão lenacapavir e islatravir, além de novos medicamentos, como o desenvolvido pela MSD. “O número de moléculas em desenvolvimento é muito grande. Há inclusive injetáveis semestrais e novos antagonistas de capsídeo”, acrescentou.

Vacinas, anticorpos e temas revisitados

Embora as pesquisas em vacinas estejam “em reavaliação”, segundo Madruga, há avanços em outras frentes, como os anticorpos monoclonais, que podem futuramente substituir ou ser associados aos antirretrovirais. Também voltaram ao debate temas como tratamento de crianças e aleitamento materno por mulheres vivendo com HIV, além de novos dados sobre o uso de medicamentos para o controle de ganho de peso em pessoas em tratamento, como a semaglutida.

“Foi um congresso muito clínico, com boas novidades em várias frentes”, resumiu o pesquisador.

Lacunas brasileiras e a lentidão na incorporação de novas tecnologias

Apesar do entusiasmo com os avanços, dr. Valdez Madruga aponta que a principal lacuna do Brasil está na demora para incorporar novos medicamentos.

“Os medicamentos demoram muito para serem incorporados. O processo é mais lento, precisa passar por várias etapas. O bictegravir, por exemplo, já está disponível há mais de cinco anos na Europa e nos Estados Unidos, acabou de ser aprovado pela Conitec, mas ainda não chegou ao Brasil”, explicou.

Mesmo assim, ele reconhece que o país mantém um programa robusto de tratamento e acompanhamento das pessoas vivendo com HIV. “O governo brasileiro fornece medicamentos e exames, o que é muito importante. Demora um pouco, mas chega”, pontuou.

Pesquisas em andamento na Casa da Pesquisa

O CRT-SP segue participando ativamente de estudos multicêntricos internacionais, inclusive sobre novas estratégias de PrEP (profilaxia pré-exposição). Entre os próximos passos, dr. Valdez anunciou que a Casa da Pesquisa deve iniciar, em novembro, um estudo com PrEP oral de longa ação, tomada uma vez por mês.

“Será um estudo promissor, um comprimido mensal para prevenir a infecção pelo HIV. É uma molécula da Merck. Já participamos dos estudos de PrEP injetável de longa ação, e agora queremos incluir um grande número de pessoas também nesse novo estudo”, contou.

O recrutamento ainda não começou, mas o pesquisador adianta que o perfil de participantes incluirá populações vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans e pessoas não binárias com vida sexual ativa e histórico recente de relações desprotegidas. A idade mínima para participação será 16 anos.

Equipe da Casa da Pesquisa presente na EACS

Estigma, equidade e o papel do Brasil

Para o infectologista, a luta contra o estigma e as desigualdades continua no centro do debate global sobre HIV.

“A questão do estigma, da equidade e do acesso para todos é um tema recorrente. Não podemos deixar ninguém de fora das estratégias. É difícil, mas não é impossível”, defendeu.

Dr. Valdez reforçou a importância da participação do Brasil nas pesquisas clínicas internacionais e da garantia de acesso equitativo às novas tecnologias. “O Brasil tem um papel importante no cenário de pesquisa. Precisamos continuar garantindo acesso igual para todos”, concluiu.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

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Tel.: (11) 5087-9901

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