Avanço de ataques contra pessoas LGBTI ameaça prevenção do HIV e mobiliza organizações em mais de 50 países

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Com apoio do Unaids, redes comunitárias ampliam ações de proteção, assistência emergencial e defesa dos direitos humanos diante do crescimento da violência e da discriminação

O avanço de movimentos contrários aos direitos das pessoas LGBTI tem provocado impactos que vão além da violência e da discriminação: ameaça também o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento do HIV. Diante desse cenário, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) está fortalecendo uma rede de mais de 130 organizações comunitárias em 50 países, com iniciativas voltadas à proteção de direitos, ao enfrentamento de emergências e à manutenção dos serviços de saúde.

Segundo informações divulgadas pelo Unaids na quinta-feira (29), ativistas enfrentam perseguições, detenções arbitrárias, deslocamentos forçados e ataques nas redes sociais, muitas vezes enquanto tentam manter serviços essenciais de HIV em funcionamento. A organização alerta que o enfraquecimento dos direitos humanos amplia as barreiras enfrentadas por populações historicamente marginalizadas.

A estratégia internacional concentra esforços no fortalecimento de lideranças trans, na assistência rápida a organizações ameaçadas e na comunicação como instrumento de enfrentamento ao preconceito.

Organizações trans ampliam participação nas decisões internacionais

Uma das iniciativas é desenvolvida em parceria com a Global Action for Trans Equality (GATE), organização internacional dedicada à defesa dos direitos das pessoas trans e de gênero diverso. O trabalho oferece financiamento, capacitação e apoio técnico para que movimentos comunitários possam documentar violações, desenvolver campanhas e participar de espaços de decisão política.

No Panamá, por exemplo, o financiamento possibilitou uma participação inédita de organizações trans no processo de Revisão Periódica Universal das Nações Unidas, mecanismo que avalia a situação dos direitos humanos nos países.

Após receberem formação, ativistas documentaram episódios de discriminação e dificuldades de acesso à saúde. Os resultados foram apresentados a missões diplomáticas em Genebra, contribuindo para recomendações internacionais sobre igualdade e não discriminação.

Até agora, a parceria destinou 14 financiamentos ao fortalecimento de organizações da sociedade civil e outros sete à produção de informações e relatórios encaminhados a mecanismos internacionais de direitos humanos.

“Quando o Unaids investe na liderança da sociedade civil, os recursos chegam às comunidades mais afetadas, as experiências vividas se tornam evidências e as evidências se transformam em defesa, proteção e responsabilização. Em um momento em que os movimentos anti-gênero estão se intensificando e o espaço cívico está diminuindo, essa parceria demonstra que o apoio significativo a organizações lideradas pela comunidade pode transformar a vulnerabilidade em poder coletivo e o poder coletivo em mudanças duradouras”, afirmou Erika Castellanos, diretora executiva da GATE.

Mais de 300 pedidos de ajuda emergencial em 2026

A dimensão das ameaças também aparece na procura crescente por assistência. Somente em 2026, organizações parceiras do Unaids na África Oriental, Austral, Ocidental e Central receberam mais de 300 solicitações de apoio emergencial.

Neste ano, os fundos internacionais já atenderam mais de 60 organizações e grupos em quatro regiões. Em 2025, outras 42 iniciativas haviam recebido assistência.

Os recursos são administrados por redes comunitárias, entre elas a APCOM, a EATHAN, a ECOM, a Global Black Gay Men Connect (GBGMC) e a Youth LEAD. O financiamento permite responder a situações de violência, ameaças e restrições ao funcionamento de organizações.

Entre as experiências apoiadas estão a assistência jurídica a pessoas LGBTI no Quirguistão e a criação de um espaço comunitário seguro em Fiji, destinado especialmente a pessoas LGBTI com deficiência.

Para Michael Ighodaro, diretor executivo da GBGMC, a importância dessas iniciativas ultrapassa a resposta imediata às situações de violência.

“Num momento em que as comunidades LGBTI enfrentam crescente hostilidade, este apoio vai muito além da proteção emergencial. Ele ajuda a sustentar a liderança comunitária, proteger o acesso aos serviços de HIV e garantir que aqueles que estão na linha de frente da defesa dos direitos humanos não sejam deixados sozinhos para enfrentar essas ameaças”, declarou.

Cinema e comunicação entram na resposta ao preconceito

Outra frente de atuação busca enfrentar a disseminação de estereótipos e informações falsas sobre pessoas LGBTI. Para isso, o Unaids iniciou, em 2026, uma parceria com a SHUGA Global, que desenvolverá dois curtas-metragens na Costa do Marfim e no Quênia.

As produções serão construídas com a participação direta de organizações LGBTI locais, responsáveis por colaborar na elaboração dos roteiros e garantir que as histórias representem experiências reais das comunidades.

A proposta é utilizar o audiovisual para ampliar o debate público sobre diversidade, combater a desinformação e apresentar narrativas frequentemente ausentes dos meios tradicionais de comunicação.

“As histórias podem alcançar as pessoas de maneiras que os fatos e as estatísticas sozinhos muitas vezes não conseguem”, afirmou Umunyana Rugege, responsável pela equipe de Comunidades e Direitos Humanos do Unaids.

Ao reunir iniciativas de proteção emergencial, participação política e comunicação, o programa internacional busca fortalecer organizações que atuam diretamente com populações LGBTI, especialmente em países onde a discriminação e as restrições aos direitos humanos também comprometem a continuidade da resposta ao HIV.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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