Ava Cruz: conhecimento, corpo e permanência no Mês da Visibilidade Trans; “Transicionar também é uma questão de saber”

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Doutoranda em antropologia pela USP constrói sua trajetória entre a academia, a arte e a religião, tensionando espaços historicamente excludentes e reivindicando o direito de existir.

Celebrado em janeiro, o Mês da Visibilidade Trans marca um momento de reflexão sobre direitos, reconhecimento e a luta histórica de pessoas trans por existência plena na sociedade. Mais do que datas simbólicas, a visibilidade se concretiza quando histórias ganham nome, voz e profundidade, rompendo estigmas e narrativas únicas. É nesse atravessamento entre vivência pessoal, produção de conhecimento e permanência institucional que se inscreve a trajetória de Ava Cruz.

Aos 27 anos, antropóloga, artista visual e doutoranda pela Universidade de São Paulo (USP), Ava construiu seu caminho a partir de deslocamentos geográficos, afetivos e simbólicos. Entre Belo Horizonte, Salvador e São Paulo, ela narra uma história marcada por pesquisa, espiritualidade, coletividade e pela convicção de que ocupar a universidade também é um gesto político.

Quem é Ava hoje

“Meu nome é Ava Cruz. E eu venho sendo Ava há cerca de três anos, que é quando eu dei início à minha transfeminilização e me entendi como travesti.”

Mineira, Ava vive hoje em São Paulo, onde cursa o doutorado em antropologia. Antes disso, passou por Salvador, cidade onde realizou o mestrado e onde iniciou sua transição.

“Como muitas travestis, eu precisei emigrar da minha cidade de origem para dar cabo a essa transição. Foi quando iniciei o mestrado em Salvador que eu comecei esse processo.”

Além da vida acadêmica, Ava também transita por outros campos de criação e expressão.

“Além de ser antropóloga, eu também sou modelo e artista visual.” Há cerca de dois anos, atua como modelo de passarela, especialmente em iniciativas ligadas à inclusão de pessoas trans no universo da moda, como a Casa de Criadores.

Na arte, seu trabalho se desenvolve principalmente por meio da performance.

“Eu trabalho com uma técnica que eu trago do BDSM — um acrônimo para práticas eróticas consensuais —, chamada mumificação, que é uma técnica de restrição corporal total.” A partir dela, Ava elabora reflexões sobre religiosidade, um “sagrado travesti” e questões ambientais. Sua última performance aconteceu em uma mina abandonada na região metropolitana de Belo Horizonte, abordando “essa questão tão latente em Minas da mineração e das políticas de vida e de morte nesses espaços”.

Religião, corpo e multiplicidade

A relação com a espiritualidade atravessa profundamente sua trajetória pessoal e intelectual.

“O terreiro foi o primeiro espaço onde eu entendi que este corpo poderia ser diferente daquilo que estava estabilizado para ele.”

Segundo Ava, foi dentro da umbanda que surgiu a percepção de um corpo múltiplo, atravessado por diferentes entidades, histórias e expressões de gênero.

“Foi no terreiro onde eu entendi que meu corpo poderia ser múltiplo. A partir dessa vivência, fui entendendo o meu caminho enquanto pessoa trans.”

Ela destaca a relação histórica entre travestilidade e os terreiros.

“Existe uma relação histórica insociável entre terreiro e travestilidade como um espaço de acolhimento.” Ava reconhece os conflitos existentes, inclusive como parte de sua pesquisa acadêmica, que investiga identidades trans em diferentes expressões religiosas afro-indígenas no Brasil.

“Definitivamente, o terreiro foi um lugar de acolhimento e de entender essa multiplicidade corporal que eu poderia ser.”

Antropologia como escolha e ferramenta

A aproximação com a antropologia, ciência que estuda o ser humano de forma integral, começa ainda na graduação em ciências sociais.

“Desde o começo eu já me sentia inclinada para a antropologia. Ela tensiona de forma mais radical as nossas concepções de verdade e parte de uma relação de alteridade.”

Seu percurso acadêmico sempre esteve ligado ao estudo das religiões afro-brasileiras e afro-indígenas. O trabalho de conclusão de curso foi sobre o baralho cigano na umbanda. No mestrado, Ava aprofundou o olhar sobre práticas espirituais urbanas, pesquisando os conhecidos cartazes de “Traga o Seu Amor de Volta”.

“Eu tinha muita curiosidade de saber quem eram as pessoas por trás desses cartazes. Eles estão presentes no cotidiano urbano de diversas capitais e carregam um quê de Brasil muito forte.”

A pesquisa revelou estigmas, histórias invisibilizadas e continuidades históricas que remontam ao século XIX, quando anúncios de cartomantes já circulavam nos jornais.

Ser travesti na academia

Para ela, sua trajetória individual se insere em um movimento coletivo mais amplo.

“Esse percurso reflete um momento da luta trans no Brasil, de tensionar a associação quase automática entre travestilidade e prostituição.”

Ela reconhece o papel histórico do trabalho sexual na construção do ativismo trans e travesti no país.

“É o trabalho sexual que funda o ativismo. Eu tenho total respeito e um senso de ancestralidade com esse espaço.”

Hoje, estar na vida acadêmica representa tanto desafio quanto possibilidade.

“A academia tem uma série de problemas, mas é um lugar onde o básico da minha existência está sendo respeitado, em termos de pronome.”

Família, apoio e referências

Ao contrário de muitas narrativas marcadas pela expulsão familiar, Ava reconhece o apoio que recebeu. Embora relate o silêncio e a não validação por parte do pai, é na mãe que encontra sustentação.

“Ela foi minha maior aliada nesse processo. Afetivamente mesmo. Isso cria possibilidades de vida para corpos em transição.”

Outro elemento fundamental foi a convivência com outras travestis.

“Transicionar também é uma questão de saber.” Em Salvador, ao morar com uma amiga travesti, encontrou referências e aprendizados compartilhados. “A transição é um ato coletivo, mesmo quando parece solitária.”

Memória, escrita e futuro

Entre seus projetos atuais está a escrita de um livro e o trabalho com memória travesti. Ava foi premiada pelo Instituto Moreira Salles, na revista Serrote, com um ensaio que resgata a história de Thais Diniz, travesti que viveu entre as décadas de 1980 e 1990.

A partir desse trabalho, Ava passou a se dedicar à escrita de memórias travestis.

“Existe um desejo muito forte de não sermos lembradas só depois da morte.”

O livro em preparação busca levar o pensamento travesti para além dos muros acadêmicos, em linguagem acessível e de divulgação científica.

Thais Diniz, citada por Ava

Ballroom: parentesco, corpo e política

Além da academia e da produção artística, outro território central na vida de Ava é a ballroom — um movimento cultural, social e político de resistência, criado nos anos 1960/70 em Nova York por pessoas LGBTQIAPN+ negras e latinas, oferecendo um espaço de acolhimento e livre expressão através da moda, dança e performance.

Ela descreve a ballroom como uma estrutura de cuidado, pertencimento e criação coletiva.

“A ballroom não é simplesmente chegar, competir ou desfilar. Ela produz parentesco, produz economia, produz arte. É uma grande plataforma criada por pessoas trans, de vivência mesmo.”

O primeiro contato aconteceu em Salvador, num momento em que a cena local ainda estava em formação.

“É irônico, porque Belo Horizonte tem uma ballroom muito forte, mas eu não conhecia lá. Eu conheci a ballroom em Salvador.”

Na primeira ball que frequentou, Ava ainda não havia iniciado a transfeminilização, mas já se apresentava pelo nome que hoje carrega. Ela conta que não conhecia os códigos daquele universo.

“Eu não sabia o que a categoria exigia. Se é categoria de roupa, você não pode dançar ou performar. Você tem que vender a roupa, mostrar a beleza dela.”

A partir dessas trocas, Ava passou a se aprofundar na ballroom e a construir laços.

“Ela me ensina sobre corporeidade e sobre construir laços familiares, algo que é muito importante para corpos que, em geral, são destituídos desse direito.”

Com o tempo, integrou coletivos ao lado de outras pessoas trans que hoje também constroem trajetórias próprias dentro da cena. Atualmente, sua atuação na ballroom se dá principalmente pela arte gráfica.

“Hoje eu trabalho mais como designer, produzindo artes gráficas para a ballroom, principalmente em Salvador.”

Para Ava, a ballroom dialoga diretamente com sua pesquisa, sua religiosidade e sua experiência enquanto travesti.

“Ela junta esse saber do corpo, da estética, da família escolhida, que atravessa tudo o que eu faço.”

Visibilidade como permanência

Ao falar de sonhos, Ava é direta:

“Meu sonho é poder dizer que sou uma travesti doutora.” Ela reconhece que, apesar das conquistas, o estigma ainda atravessa os corpos travestis no espaço público. “Na rua, eu vou ser lida como garota de programa. Eu não tenho problema com isso, mas eu não sou.”

Para além do título, seus sonhos incluem pesquisa internacional, retorno à religiosidade em espaços verdadeiramente inclusivos e o fortalecimento de redes como a ballroom, onde atua também como designer gráfico.

O Mês da Visibilidade Trans não se resume à celebração de identidades, mas à defesa de condições concretas de vida, permanência e futuro. A trajetória de Ava Cruz revela que visibilidade também é acesso à educação, produção de conhecimento, memória e reconhecimento institucional. Ao ocupar a universidade, a arte e a escrita, Ava não apenas conta sua própria história, mas tensiona estruturas e amplia horizontes para que outras pessoas trans e travestis possam, simplesmente, existir e permanecer.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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Ava Cruz

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