Ausência de delegações latino-americana é notada na 20ª Conferência de Aids

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22/07/2014 – 03h

O espaço reservado para as organizações sociais da América Latina e Caribe na 20ª Conferência Internacional de Aids fica vazio a maior parte do tempo. As 22 bandeiras das nações que compõem a região e enfeitam o lugar são a única referência deste pedaço do planeta, onde vivem quase dois milhões de pessoas com HIV e aids. Também nos corredores da conferência se nota a pouca participação de latinos. Newm a organização do evento parece ter investido na presença destes ativistas visto a ausência de tradução em português e espanhol nas grandes mesas e demais eventos. Em contrapartida, os países orientais têm grande presença nos debates mobilizando a discussão para suas realidades.

A brasileira Liza Minelli, da Rede LacTrans, reclama da falta de estrutura da conferência para os delegados que não falam inglês. “As dificuldades de idioma se refletem no foco que o evento está dando”, afirma. Também comenta que os voluntários que estão atuando no encontro não estão preparados para atender as necessidades dos latinos. “Muito se fala na barreira do condón, mas também as barreiras culturais precisam ser vencidas, promovendo-se a inclusão”, afirma.

Lottie Gabriela Romero da organização Instituto de Estudos em Saúde, Sexualidade e Desenvolvimento Humano( IESSDEH ), ligado à Universidade Cayetano Heredia do Peru também identifica esta dificuldade. De seu país vieram sete pessoas, a maioria ligada a universidades e programas de governo. “ONGs com trabalhos reconhecidos não tiveram apoio para participar”, informa. Naivovi Catillo, membro da Comunidade de Trabalhadoras Sexuais Travestis- COTRAVETD, da República Dominicana, acredita que desde a conferência do México, em 2009,  o continente americano parou de ter relevância internacional.

Simón Cazal, da organização Somosgay, foi um dos três paraguaios que vieram à conferência. O ativista lamenta a invisibilidade da América Latina neste importante encontro, “nossas demandas e realidades estão sem espaço para serem exibidas aqui”. Da mesma forma, Carlos Garcia de León, diretor do Centro Nacional de Prevenção e Controle do HV/Aids, do México protesta com a “pouca importância que o evento tem dado a região tão necessitada”. Para ele a falsa ilusão de que há fundos de governo aplicados nas repostas locais faz com que os investimentos internacionais acabem caindo. Tal atitude tem se refletido na realização do encontro latino-americano cuja data de realização não tem previsão. “O último foi no Peru em 2009 e deste então temos dificuldades de mobilizar fundos para realizar outro”explica Carlos.

Segundo Alessandra Nilo, coordenadora do Conselho Latinoamericano e Caribenho de Organizacoes Nao Governamentais com Trabalho em Aids (LACCASO ) – que também náo veio ao evento – a dificuldade pelos custos da viagem, que varia entre US$ 5 e 7 mil  por pessoa no total de despesas de uma semana é um fato. "A ausência de pessoas da região é, sem dúvida, um indicador da ausência de fundos para a América Latina, apesar das dificuldades que estes países enfrentam para continuar respondendo ao HIV. Além disto", contiunua “muitas organziações não priorizaram investir tempo na captação de recursos para irem à confereência.”

Alessandra entende que, além da questão de custos, uma nova reflexão deve ser feita: “ Acho que chegou o momento de repensar a ideia dessas massivas conferências, que geram lucro muito alto para setores muito específicos. A era da aids como um negócio precisa começar a ser questionada radicalmente, de outra forma não será possível controlar essa epidemia."

Brasileiros também se sentem invisíveis

“A falta de tradução simultânea tem prejudicado a troca de experiências dos movimentos sociais nesta conferência”. A afirmação é do pesquisador e integrante da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), Vagner de Almeida. Vagner veio para o evento com a intenção de observar o que o mundo tem feito na luta contra aids, principalmente entre os jovens. "A programação do evento é muito cientifica. A área social foi retirada dos principais debates."

Ainda, segundo Vagner, "o Brasil perdeu sua referência no tratamento e prevenção da aids e isso ficou muito claro aqui em Melbourne. São poucos os debates com a presença de brasileiros. Estamos ausentes das apresentações orais."

O jovem ativista Henrique Ávila, do Tocantins, também participa do evento e considera que falta espaço para a sociedade civil aqui em Melbourne. "Tenho acompanhado discussões, mas senti falta da sociedade civil nas mesas. Não está acontecendo plenárias específicas sobre o trabalho do movimento social, sobre formas de cooperação, principalmente nós da América Latina. A maior delegação de lá é a brasileira, mas isso não contempla a luta contra aids na região."

A ativista Eliana Moura, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, veio de Minas Gerais para representar as mulheres do Brasil. "Meu objetivo no evento era trocar experiências com mulheres do mundo inteiro, mas a falta de tradução tem prejudicado minha atuação. Só estou conseguindo acompanhar alguns debates com a ajuda de amigos. A organização não teve a sensibilidade de disponibilizar traduções simultâneas", disse. "Nós que trabalhamos contra aids já temos tantas barreiras a vencer. Não esperava que num evento como este, outros idiomas não fossem contemplados."

Também de Minas Gerais, o ativista Diego Calissto tem dedicado parte do seu tempo na Conferência traduzindo algumas discussões para os brasileiros que não falam inglês. "Estou aproveitando ao máximo todas as informações deste evento, espero voltar para o Brasil e multiplicar o conhecimento. De forma geral, os painéis estão bem distribuídos. Temos discussões sobre sexualidade, juventude, HIV. Não há avanços e novidades, mas também não tinha essa expectativa."

Talita Martins e Liandro Lindner, de Melbourne (Austrália)

A Agência de Notícias da Aids cobre a Conferência na Austrália com o apoio do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais e do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo

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