03/12/2006 – 13h00
“Isso é uma terapia”. A afirmativa é da soropositiva Deltina Cândida dos Santos e refere-se ao seu sentimento em relação ao trabalho de prevenção, que ela considera o seu “papel como cidadã”. A agente do CR Nossa Senhora do Ó foi uma das debatedoras da primeira mesa-redonda do “Auditório Público: Falando Sobre Aids”, uma parceria do Programa Municipal de DST/Aids e da Agência de Notícias da Aids. O evento, que aconteceu no Largo São Bento (centro de São Paulo), teve início às 9h30 e seguiu até o final da tarde da sexta-feira (01/12), Dia Mundial de Combate à Aids.
O mediador do debate, o jornalista Boris Casoy, convidou a todos que passavam pelo local a pararem “um pouco, ceder um pouquinho do seu tempo”, sendo atendido por muitos, que fizeram perguntas e escutaram com atenção às explanações da agente de prevenção, de Paulo Teixeira (Programa Estadual DST/Aids – SP) e da infectologista Marinella Della Negra. No momento de concluir sua fala, Teixeira disse que “apesar dos problemas enormes a serem vencidos” (segundo estimativa do Ministério da Saúde, há 600 mil infectados em todo o país), hoje a Aids “é uma epidemia contida”. “Existem populações marginalizadas que ainda não recebem o tratamento adequado. São vítimas de uma forma desigual”, ressaltou Teixeira, citando a população carcerária e os moradores de rua.
Os assuntos tratados foram os mais variados. Boris Casoy indagou sobre a situação das crianças e adolescentes vivendo com Aids. “Depois do advento dos anti-retrovirais essas crianças crescem muito bem. Hoje essas crianças são adolescentes. Nós temos crianças que nasceram vinte anos atrás”, responde Marinella Della Negra. “Hoje o maior desafio é inserir esses adolescentes no mercado de trabalho”, conclui a infectologista, lembrando a todos da questão ainda presente do preconceito em relação aos portadores da síndrome.
Em seguida, discutiu-se os experimentos com vacinas da Aids que, segundo Paulo Teixeira (Programa Estadual DST/Aids – SP), “ainda não chegaram a um resultado consistente”. Por isso, a prevenção continua sendo fundamental. “A camisinha é o recurso mais eficiente de prevenção. Infelizmente, nós temos algumas vozes conservadoras que tentam diminuir a sua importância”, lamenta Teixeira. “Todos somos suscetíveis ao vírus. Ninguém é especial diante do HIV”, lembra o representante do Programa Estadual DST/Aids (SP). A agente de prevenção Deltina Cândida dos Santos, portadora há 20 anos do HIV, concorda e ressalta: “Não é fácil viver com Aids, apesar do tratamento, há muitos efeitos colaterais. O uso da camisinha não pode ser deixado pra trás de jeito nenhum. A camisinha é sagrada”. Ela também cobrou mais engajamento dos infectados pelo vírus da Aids. “Mostrar a cara”, clamou.
Diante de pergunta de um dos espectadores do debate, que discorria sobre “grupos de risco” e “o que fazer quando se desconfia estar infectado”, Paulo Teixeira foi direto: “Existe situação de risco e não grupo de risco”. Segundo Teixeira, em “situações em que o risco é muito alto, existe uma norma [dos centros de referência] em que a pessoa toma os medicamentos por um período” (mesmo antes de saber o resultado dos testes). Esse é o chamado “tratamento profilático”. A infectologista Marinella Della Negra lembrou que “grupos que inicialmente foram prejudicados [pela pandemia da Aids], agora são os que mais entendem de prevenção”.
Outra pergunta dos espectadores tratou da transmissão vertical. Della Negra explicou que “se a mulher fizer o diagnóstico, tomar os cuidados, a taxa de transmissão gira em torno de 1%”. Ou seja, segundo conclusão da própria infectologista, “de cada 100 nascidos, apenas um terá o vírus da Aids”. Ela também listou as três maneiras em que a transmissão de mãe para filho pode se dar: por meio da amamentação, durante a gestação ou no momento do parto. O “Auditório Público: Falando Sobre Aids” continuou até final do dia.
Léo Nogueira


