O 2º Seminário Nacional sobre HIV e Tuberculose foi oficialmente encerrado neste sábado, 13 de dezembro, com a realização do Ato Político e da Ação de Enfrentamento Corpo a Corpo. A atividade marcou o desfecho de dois dias intensos de debates, articulações e construção coletiva de propostas voltadas ao fortalecimento das políticas públicas de saúde no Brasil.
O encerramento ocorreu das 9h ao meio-dia e reuniu movimentos sociais, servidores públicos, gestores e representantes de todas as regiões do país. Mais do que um momento simbólico, o ato reafirmou o protagonismo histórico da sociedade civil organizada na defesa do direito à vida, da cidadania e da equidade em saúde, fortalecendo também a Campanha Dezembro Vermelho 2025 — Fopaids.

A avaliação dos dois dias de seminário foi feita pelo coordenador nacional do evento e diretor de comunicação da Coalizão+Brasil, Janailson Lobo, que destacou o acúmulo político e técnico construído ao longo das atividades.
“Estamos terminando esse seminário com um senso de informação e empoderamento e de dados que vai entrar em um relatório que vai gerar uma diretriz, sendo a nossa maior meta, a construção de políticas públicas estaduais contra aids e de valorização de pessoas vivendo com hiv/aids. Tivemos 11 mesas de debates, tivemos dados de todas as esferas, além da contribuição dos movimentos sociais, criamos conteúdos informativos para as redes sociais, posso dizer hoje com muita certeza, o povo do Pará mostrou a sua força política e de luta contra essa epidemia que tanto assola a população brasileira”, disse Janailson, em tom de agradecimento.

Realizado em um dos espaços mais simbólicos da capital paraense, a Escadinha do Cais do Porto, o ato público promoveu um reencontro entre o povo, as políticas públicas e o território. O local, carregado de memória e resistência, traduziu na prática o princípio que norteou todo o seminário: a saúde é um direito fundamental, e sua defesa se constrói de forma coletiva, popular e cotidiana.
Durante o encerramento, também foi destacada a importância da consolidação da 2ª Carta da Amazônia, documento que reúne propostas, reivindicações e soluções debatidas ao longo do seminário, com foco nos desafios enfrentados pelos territórios amazônicos no enfrentamento ao HIV, à Tuberculose e às Hepatites Virais.

O vice-presidente do Fórum ONG/Aids, Cledson Sampaio, conversou com a equipe e reforçou a necessidade de que o documento alcance todas as instâncias responsáveis pela saúde pública e privada no país.
“A carta da Amazônia é um documento que vai ser encaminhado nas próximas horas para gestores estaduais e municipais e o governo federal, e para várias instituições do movimento social, porque ela tem o objetivo de levar as diretrizes do que foi discutido dentro do seminário como forma de chamar atenção dos gestores para as suas responsabilidades. A carta tem esse objetivo de mostrar o cenário alarmante atual para que a gente mude a realidade do Brasil” – explica Cledson, orgulhoso com o resultado.

Mais do que um encerramento formal, o Ato Político se configurou como um manifesto vivo pela continuidade da luta contra o estigma, o preconceito e as desigualdades sociais que ainda impactam diretamente o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à qualidade de vida das populações mais vulnerabilizadas. O encontro reforçou a urgência de uma resposta nacional justa, integrada e sustentável às epidemias do HIV, da Tuberculose e das Hepatites Virais.
A atividade também foi marcada por falas potentes de ativistas que vivenciam diariamente o enfrentamento às violências estruturais, reafirmando que a luta por saúde está diretamente ligada à defesa dos direitos humanos e da vida.

Jéssica Marajoara, 46 anos, mulher-travesti que vive com HIV há 22 anos, compartilhou sua trajetória e destacou a importância de romper com o estigma.
“Acabei quebrando essa bolha de estigma e preconceito do que era o hiv e ainda estou aqui para contar história, estou feliz. Sou um exemplo e quero dizer que ainda precisamos quebrar esse estigma nas pessoas, elas precisam aderir mais ao tratamento, continuar testando e se deu positivo a vida continua, os avanços estão ai e precisamos fazer parte deles”.
Jéssica também relatou um episódio recente que marcou profundamente sua participação no ato.
“Na noite da última sexta, uma travesti foi assassinada em Salvador e assuntos como esse ainda mexe muito comigo, eu quase passei por isso, e isso me deixa apavorada e insegura, graças a deus estou viva, fico comovida com uma garota de 18 anos que foi brutalmente enforcada, eu acho assim, foi mais um corpo que foi usado, no sigilo e o cara foi preso e logo em seguida solto e viemos para o ato também como forma de manifestar a nossa dor e chamar a atenção do governo para que isso não aconteça mais e deixar claro a minha fala [Parem de nos matar]”.

Com o encerramento do seminário, fica reafirmado o compromisso coletivo de manter viva a mobilização nos territórios e de transformar as reflexões construídas em ações concretas. A solidariedade, tema central do evento, segue como elo fundamental na luta pela saúde pública no Brasil.
Hugo Tomkiwitz, de Belém, especial para a Agência Aids


