16/07/2014 – 20h40
Dos dados do novo relatório divulgado nessa quarta-feira (16) pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) o mais comentado por militantes foi o crescimento de 11% de infecções no Brasil, entre 2005 e 2013. Eles disseram que esperavam resultados nesse sentido, por conta do que consideram retrocesso nas políticas públicas de combate ao HIV/aids. O Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, emitiu nota analisando esse e outros números.
Segundo o Departamento, o crescimento de 11% de novas infecções no Brasil é semelhante ao de países da Europa e dos Estados Unidos, que também tiveram aumento médio de 8%.
Diz a nota que, apesar da prevalência na população ser muito baixa, a doença é concentrada em populações específicas, como homens que fazem sexo com homens (HSH), gays, profissionais do sexo, travestis, transexuais, pessoas que usam drogas, nos quais a prevalência pode ser maior que 10%.
“Aumentam os casos entre a população de jovens gays e o governo estigmatiza justamente esse grupo, vetando a campanha de prevenção dirigida a eles”, comenta o médico Juan Carlos Raxach, assessor de projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA).
Carla Almeida, presidente do Grupo de Apoio a Prevenção da Aids do Rio Grande do Sul (Gapa/RS) também credita ao veto de campanhas de prevenção parcela da responsabilidade por esses 11%. Ela acha que as populações mais vulneráveis recebem pouca atenção, o que dificulta o acesso delas ao tratamento.
“Sem contar que os recursos financeiros para as ONGs foram diminuídos, o que também prejudicou a prevenção”, continua Carla. “Hoje só se fala em testar e tratar. As necessidades do indivíduo foram deixadas de lado.”
José Araújo Lima, presidente do Espaço de Prevenção Humanizada (Epah) e Márcia Leão, da Secretaria Executiva da Articulação Nacional de Luta Contra Aids (Anaids) e coordenadora executiva do Fórum ONGs/Aids do Rio Grande do Sul são da mesma opinião.
“O governo pagou para os segmentos conservadores, não realizando campanhas e ações de prevenção. Agora, a fatura chegou”, diz Araújo.
“Essas novas infecções são consequência do abandono das ações de prevenção em nosso país. Há um descaso, a aids deixou de ser agenda prioritária nos últimos anos”, diz Márcia.
Para o médico Juan Carlos Raxach, o relatório do Unaids dá visibilidade a um dado para o qual a sociedade civil e a ABIA estão chamando atenção há tempos. “Temos avisado o governo, especialmente de 2011 para cá, que a aids não está controlada. Basta pegar as estatísticas no Rio de Janeiro. As mortes estão aumentando em função dos diagnósticos tardios. É absurdo um país que tem tratamento universal de aids apresentar taxas assim.”
Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural Barong, acredita que as campanhas maciças de testes impactaram nesse aumento das novas infecções. “Com campanhas como a Fique Sabendo, as pessoas começaram a fazer mais testes. Quando se testa mais, os resultado aparecem mais nas estatísticas.”
Em sua nota, o Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais faz exatamente essa análise. “No período analisado, o Brasil aumentou em 32% a testagem para HIV na sua população. A cobertura da realização dos exames passou de 28% da população sexualmente ativa (15 a 64 anos), em 2005, para 37%, em 2013. Além desse aumento na população em geral, o Ministério vem investindo, em parceria com organizações da sociedade civil, em ampliar o acesso ao teste nas populações mais vulneráveis. Essas ações permitem ampliar o número de pessoas que conhecem, o mais precocemente possível, a condição de infectadas.”
Carla Almeida acredita no impacto do maior número de testes e, como Marta, cita a campanha Fique Sabendo. “Mas não foi só isso, com certeza. Tem muito mais fatores dentro desses 11%.”
Marta acha que está aí uma boa oportunidade para se investir em projetos de prevenção e saúde sexual nas escolas, no trabalho, nas ruas. “O Brasil é um país erotizado, nós temos um apelo de mídia sexualizado e não há projetos de prevenção e saúde sexual nem nas escolas públicas nem nas particulares.”
Redação da Agência de Notícias da Aids


