16/03/2014 – 13 h15
Atualizado em 17/03/2014 – 19h15
Uma errata impressa distribuída junto com o manual que a Fifa fez para estudantes de escolas públicas de nosso país, corrigindo itens sobre prevenção do HIV que vão contra a orientação brasileira, não é suficiente. Essa é a opinião dos ativistas ouvidos pela Agência de Notícias da Aids. O assunto veio à tona nesta sexta-feira (dia 14), quando a Agência Aids publicou matéria da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), criticando trechos do manual que a Fifa quer deixar de legado depois da Copa, como os que indicam a abstinência sexual e a fidelidade como formas de prevenção ao HIV/aids. A Agência Aids falou com o Departamento de DST Aids e Hepatites Virais e foi informada de que o Ministério da Saúde corrigiu esses itens ao revisar o material a pedido da Fifa (leia no destaque da página). Veja a opinião dos ativistas a seguir:
Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de Ongs/Aids: “Não fiquei satisfeito com a resposta do Ministério da Saúde de que o problema das orientações da Fifa sobre o HIV foi solucionado com uma errata. Se ninguém prestar atenção nessa errata, o que é bem possível que aconteça, vai prevalecer o entendimento de uma política conservadora contra a qual lutamos, e da total falta de governabiidade numa questão ique é do Brasil.”
José Araújo Filho, presidente do Espaço de Prevenção e Humanização (Epah): “Esse manual é uma reprodução da cartilha ABC do Bush. A polícia Bush que conseguimos exterminar é agora ressuscitada pela Fifa . A posição dessa federação, sobrepondo a política brasileira, significa a nossa falta de soberania na Copa. Não vejo a errata do Ministério como solução. O governo teria de exigir a retirada desses itens que jogam contra a nossa política de prevenção.”
Marcus Dutra, do Centro de Apoio ao Cidadão, Sergipe (ES): “Para mim, isso reforça que o cenário brasileiro de prevenção, a cada dia que passa, está em retrocesso. Esquecem da pluralidade cultural, da diversidade sexual e de múltiplos desejos que temos como seres humanos. Que dica é essa de abster-se do sexo? É algo fora do comum… Daqui a pouco vão sugerir a castração humana. Esta cartilha mostra o reflexo do preconceito e a falta de preparação para elaborar algo sólido e eficaz na prevenção. Sem falar que é destinada a alunos de 11 e 12 anos, fase em que hoje a sexualidade já está aflorada. É preciso rasgar o verbo, falar abertamente dos riscos, cuidados, prevenção e tratamento. Ou já esqueceram que o número de adolescentes infectados está só aumentando visto que não se fala de prevenção nas escolas, não disponibilizam preservativos para tal faixa etária abertamente?”
Oséias Cerqueira, da Rede Latino Americana de Jovens Vivendo com HIV/Aids: "É muito cotraproducente a ideia de abstinência ou fidelidade, porque prevencão não está no número de parceiros. O material nesse ponto é um retrocesso. É uma informacção equivocada e com conteúdo moralista que nunca funcionou em relacao a aids."
Américo Nunes, coordenador do Movimento Paulistano de Luta Contra Aids (Mopaids): "É um absurdo, não estamos nos Estados Unidos que pregou o ABC, as pessoas têm livre arbítrio de ter vida sexualmente segura ou não, campanhas e peças publicitárias com conotações de impositivas não funcionam. Já vivenciamos isso em anos passados."
Marta MacBritton, presidente do Instituto Cultural Barong: "Não tive acesso ao material impresso, só ao PDF. Mas não sei se apenas uma “errata” é suficiente. Em escolas com perfil conservador, imagino que esta “errata” do Ministério será suprimida e o material adotado na íntegra. O recurso da Fifa poderia ter sido utilizado para patrocinar a ampliação do projeto Saúde e Prevenção nas Escolas. Mas, como se trata de um novo manual, diversas questões deveriam ter sido construídas de maneira horizontal com o Programa Nacional de Aids."
Redação da Agência de Notícias da Aids



