
Em alusão ao Dia Mundial de Luta contra a Aids, celebrado em 1º de dezembro, o Ministério da Saúde apresentou a campanha de 2024 com o lema: “HIV é sobre viver, conviver e respeitar. Teste e trate.” Pela primeira vez, a iniciativa destaca a estratégia “I=0” (Indetectável=zero infecção), que reforça que pessoas vivendo com HIV e em tratamento, com carga viral indetectável, não transmitem o vírus, mesmo em relações sem preservativo.
A campanha reúne personagens de diferentes contextos para promover diversidade e conscientização. Entre eles estão Raul Nunes e Emer Conatus, criadores do podcast “Preto Positivo”, que aborda vivências de pessoas negras com HIV; a influenciadora e publicitária Thais Renovatto, de 41 anos; Hellena Maldita, drag queen do Rio de Janeiro; e Salomão, atleta de alta performance e ultramaratonista.
Além de conscientizar sobre os avanços científicos e a importância do diagnóstico precoce, a campanha aposta em representatividade para combater estigmas e preconceitos.
Repercussão entre ativistas
A recepção da campanha pelo movimento social de luta contra a aids foi positiva, mas com ponderações sobre áreas a serem aprimoradas.
Américo Nunes – presidente do Instituto Vida Nova
“Gostei muito desta campanha, tem leveza com informações consistentes de forma clara e objetiva e com uma paleta de cores agradáveis. Está muito completa com vídeo, cartaz, banner e spot. As peças trazem mensagens posiTHIVas na perspectiva de vida, respeito e prevenção. Os personagens são pessoas que representam alguns públicos prioritários afetados pelo HIV, cabe um destaque a ênfase do I=0 transmissão com uma pessoa idosa. Há tempos não se via uma campanha do 1º de dezembro gostosa de se ver e assistir várias vezes o vídeo. Parabéns.”
Jean Carlos – Rede de Jovens e Adolescentes vivendo com HIV/aids 
“Gostei da forma como abordaram o tema, campanha leve, educativa e humana. Conscientizar com sorrisos largos é o caminho para desmistificar o estigma!”
Adriano Lopes – Criador de conteúdo digital sobre HIV/aids
“Eu gostei da campanha, mas eu vou fazer uma crítica que eu já faço há muitos anos. Eu acho que falta um foco voltado para os homens heterossexuais, até para se quebrar essa questão do estigma. Acredito que falta um homem heterossexual vivendo com HIV, fazendo uma campanha voltada para esse público, para quebrar de vez com esse estigma, já que desde o início até hoje o estigma não vai embora. Nas redes sociais peguei ontem uma publicação falando sobre dois homens héteros fazendo piada e destilando homofobia e sorofobia. Falta isso para as campanhas, porque nós vemos mulheres heterossexuais, homens cis, gays, vemos todo o público, mas só falta um homem heterossexual. E não estou falando isso por eu ser heterossexual. Outra coisa que eu critico é que nunca se falou sobre os hemofílicos, a história dos hemofílicos ficou invisível por todos esses anos. E também uma pessoa que representa todos esses anos do HIV, eu acho que falta um pouco disso, falta quebrar esse estigma, trazendo novas histórias. Além disso, falar um pouco da longevidade das pessoas que vivem com HIV, que nós vemos nas campanhas pessoas que vivem com o vírus há tanto tempo, pessoas que já descobriram o vírus já com o tratamento existente, então seria interessante também mostrar as pessoas que sobreviveram à aids e que estão até hoje aí. Isso seria interessante para quebrar a ideia de que o HIV é uma sentença de morte.”
Joao Geraldo Netto – Comunicador, influenciador digital e ativista pela ONG Instituto Mutiverso
“Faço meu comentário primeiramente como um profissional de comunicação e depois como uma pessoa que vive com HIV e ativista. A primeira coisa é que como material de comunicação eu achei muito boa a sacada do Ministério de ter colocado pessoas absolutamente diversas, de ter colocado o Salomão, que é um cara atleta de alta performance, colocar o pessoal do Preto Positivo, colocar a Thaís que é uma mulher cis e hétero e também colocar a Helena Maldita, que eu acho que vai falar muito com o público LGBT e que a gente vai precisar acessar. Eu achei interessante usar também essa coisa de colocar os meninos pretos para poder dar uma diversidade de cor de pele porque eu tenho certeza que isso seria um problema até porque a gente não pode ignorar que a raça/cor é transversal a todas essas populações, tanto a mulher cisgênero quanto os homens mais velhos. Inclusive, o Salomão trouxe essa ideia também do homem de mais idade. Então é muito interessante tudo isso. Gostei da aparência, gostei da cor, gostei dos símbolos que eles usaram e gostei muito do slogan “HIV é sobreviver, conviver e respeitar. Teste, trate, previna-se. Percebi também que essa campanha está muito focada nessa ideia de testar e tratar.” Apesar de ela também buscar coisas da prevenção combinada no geral. O filme eu gostei, achei bem legal também ter o Diego que é um cara super legal e presente nas redes sociais e que não tá o tempo todo falando só de HIV. Eu acho isso muito interessante, pegar pessoas também que não estão o tempo todo falando só de HIV/aids, porque eles vivem outras coisas. São pessoas, mais do que ativistas. No entanto, eu acho só essa é uma das outras coisas que eu gostei dessa gestão da diretoria do departamento, porque eu acho que eles têm patinado muito na prevenção do HIV, na informação sobre HIV/aids. Tudo que você vai procurar de informação é tudo muito difícil de encontrar. Eles têm patinado bastante, mas isso eu preciso elogiar, realmente a campanha eu considero que ela ficou muito bacana. E eu espero que eles continuem fazendo campanhas, investindo em ações de pares porque o que acontece é que essas ações aqui, essa campanha, ela vai para a rede aberta de televisão, onde a grande massa vai estar, mas a gente precisa lembrar que o HIV não está nas na grande massa, o HIV está em populações específicas e isso exige ações em locais específicos, em zonas específicas de sociabilidade. Então não adianta soltar uma campanha apenas, não adianta somente soltar uma campanha na televisão e gastar uma fortuna, porque essas campanhas custam muito dinheiro para veicular, pois são veiculadas em veículos de grande audiência, e esquecer, por exemplo, das organizações que fazem o trabalho in loco, que realizam ações diretamente com a sociedade, com a população mais vulnerabilizada e que muitas vezes nem vai receber esse material. Dessas populações que são mais vulnerabilizadas, estão meninas trans e travestis, junto das profissionais trabalhadoras do sexo, junto da população gay, porque essa população está sendo devastada pela aids,… então, se não tiver um cuidado também em ir nesses lugares e fazer o trabalho de pares, a gente vai estar enxergando gelo. Está linda a campanha, esteticamente muito legal. Para uma população geral, ela vai ser muito bacana porque vai atingir muita gente, mas e aí, o que vai causar de mudança real? Porque ela não vai estar chegando a todos os lugares, e é impossível você chegar a todos os lugares. Para campanhas, ações extramuros, vamos chamar organizações não governamentais que fazem. Eu acho que é o trabalho em conjunto que faz com que chegue. Eu vi que o edital foi aberto essa semana para trabalhos nessa área, eu espero que o dinheiro seja suficiente ou pelo menos equivalente a essas ações de grande mídia, porque o trabalho de formiguinha, esse trabalho que é realizado ali dentro da zona de prostituição, dentro da boate LGBT, dentro da sauna, isso também gera muito resultado, gera resultado de pares falando pra pares, isso faz muita, diferença.”
Evalcilene dos Santos – Ativista pelo Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas
“Todas bem bonitos, lindos, com falas super importantes para a população, e pedindo que as pessoas entendam que indetectável é igual zero transmissão, falando do que é o HIV, do que a aids, prevenção combinada, mas retirar a redução de danos, que isso é um pouco complicado ou muito complicado, porque a redução de danos também é uma estratégia para diminuir o número de pessoas se infectando, e que está morrendo, que as políticas públicas são negadas, elas não têm acesso a essas políticas públicas e quando a gente vê um vídeo assim, eu fico até um pouco assustada e um pouco apreensiva sobre quem a gente quer, falando sobre quem vive com HIV/aids, quem a gente quer proteger, porque, por exemplo, eu tenho uma casa, eu tenho alimentação um pouco precária, mas eu tenho uma alimentação, tenho família que me acolhe, então eu sou indetectável, as pessoas amam, me respeitam, quando eu entro numa unidade de saúde, as pessoas não ficam me olhando dos pés à cabeça por mal arrumada, ou porque eu estou cheirando mal, ou proque vivo em situação de rua, mas essas pessoas que [estão nessas situações] estão morrendo, essas pessoas que estão mais se infectando. Como elas vão se sentir? E eu já vivo muito com elas, eu moro aqui no Amazonas, nós temos várias dificuldades. Nosso povo, muitas pessoas vivendo com HIV ficaram sem acesso até ao tratamento, e aí quando a gente fala em medicamento e que gera a nossa qualidade de vida é a qualidade de vida das pessoas que têm acesso às políticas públicas, mas as que não têm elas, as que não têm não estão arrumadinhas, as que não têm elas estão se infectando, as que não têm elas estão morrendo por aids sim, e são muitas ainda, então acho que o departamento, o Ministério da Saúde, ele tem que se empenhar em fazer uma campanha que atenda a essa população, que acolha essa população, essa população que não tem acesso.”
Amauri Lopes – Ativista membro da Rede Nacional de Pessoas Idosas Vivendo e Convivendo com HIV/aids
“Após um período bastante difícil, temos uma campanha com protagonistas e o tema I=0, zero risco de transmissão. Isso muito bem escolhido e a intencionalidade na busca de protagonismo resultou em um produto belíssimo e com possibilidades de circular não só na bolha. Essa questão foi fundamental. Além de ser educativa, combate o estigma e o preconceito, trazendo a prevenção combinada para todos.”
Adriana Ferrazini – Presidente da ONG Projeto Criança Aids
“Gostaria de parabenizar o Ministério da Saúde pelo vídeo falando a respeito de HIV/aids, mas também entendo que o HIV deve ser falado durante todos os meses, não somente no Dezembro Vermelho. E vou mais além, essas informações necessitam que cheguem para todos os públicos. Nós, enquanto projeto Criança Aids, atendemos famílias que têm crianças e que tiveram com HIV. Então aqui fica um alerta para que todas as mulheres sejam informadas que a transmissão vertical não acaba no parto. O Ministério da Saúde tem um protocolo de proteção em relação às mulheres que estão grávidas. Existe a testagem nos primeiros exames de pré-natal, pelo menos mais uma testagem durante a gestação, uma última testagem na hora do parto. Depois que essa mulher dá à luz, ela vai para casa. Em casa, ela começa a amamentar e ninguém explica a essa mãe e ninguém protege de uma possível infecção durante esse período de amamentação. Uma mulher vivendo com HIV, conforme protocolo nacional, ela não deve amamentar, porque o risco de infectar essa criança é de 0,3 a 0,9%. Em compensação, se uma mulher que não vive com HIV for infectada durante o período de amamentação, esse risco que ocorre dessa criança ser infectada, sobe para 40%. Então essas mulheres precisam ser informadas a respeito. As mulheres precisam saber que elas têm direito ao uso da PrEP, se elas não puderem inclusive pedir para que seus parceiros usem o preservativo e elas mesmas usarem. Então eu entendo que esse tipo de informação tem que ser levado para todos. Mais uma vez, parabenizo pela atitude, pelo vídeo, mas entendo que HIV e aids tem que ser falado em todos os momentos, e precisa ser dito para todos os públicos, em especial para mulheres, mulheres gestantes e mulheres amamentando.”
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Américo Nunes
@ividanovasp
Adriana Ferrazini
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Evalcilene dos Santos
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João Geraldo Netto
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Jean Carlos
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Amauri Lopes
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Adriano Lopes
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