8/3/2007 – 14h40
Silvinha Almeida, do GIV, entregou documento ao presidente Lula com reivindicações do movimento social
“Pela primeira vez na história da Aids nesse país, um presidente falou sobre o uso da camisinha. Mas ele deveria ter aproveitado este momento para ter trazido algumas propostas.” Esta foi a avaliação do presidente do Fórum de ONG/Aids do Maranhão, Wendel Alencar, sobre o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quarta-feira, 7, durante o lançamento do Plano de Enfrentamento da Feminização da Aids e outras Doenças Sexualmente Transmissíveis e da Campanha de Prevenção das DST/Aids nos Jogos Pan-Americanos (saiba mais). “Preservativo tem que ser doado e ensinado como usar. Sexo tem que ser feito e ensinado como fazer. Somente assim nós seremos um País livre da Aids”, declarou o presidente.
Wendel acredita que faltaram propostas de políticas públicas de prevenção, assistência e tratamento. “O próprio ministro da Saúde falou sobre patentes e transferência de tecnologia há quinze dias atrás, então o presidente também deveria ter falado. O que temos para sustentar o plano que foi lançado e as ações que já existem? Há cinco anos estamos falando da feminização da Aids e só agora vemos uma atitude do governo. Antes tarde do que nunca…”, criticou o ativista. Ele considera importante o presidente falar sobre camisinha, principalmente às vésperas da chegada ao Brasil do Papa Bento XVI, que condena o uso do preservativo. No entanto, ressalta que o discurso do presidente também é hipócrita. “Quando ele diz que ‘quase todo mundo gosta de sexo’, há hipocrisia nessa fala. Com quase 33 anos de idade, não conheço ninguém que não goste de sexo”.
O coordenador da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), Veriano Terto, afirmou valorizar a declaração do presidente, por “mostrar uma certa coragem e, atualmente, até ousadia ao abordar esses temas, do ponto de vista de questionar valores e romper com alguns mitos”. Terto comentou que ficou tudo muito “embolado”, porque se misturou o lançamento do Plano, os Jogos Pan-Americanos e atletas. “Temos problemas estruturais tão graves quanto à resistência ao uso do preservativo que é a questão da assistência e o acesso aos medicamentos, que não foram mencionados, mas considerando que o contexto era de festa, de lançamento, a fala foi interessante.”
“Acho bastante benéfico para o país o presidente falar da importância do uso do preservativo e de sua distribuição gratuita. E que essa distribuição realmente ocorra. É contundente porque prega o distanciamento dos tabus”, explicou o presidente do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), Cláudio Pereira. Ao lado do secretário do GIV, Pereira é o autor da carta que foi entregue a Lula durante a cerimônia pela ativista Silvinha Almeida. A carta (leia) é a mesma que foi entregue ao Ministro da Saúde, Agenor Álvares, no final de fevereiro, onde ativistas reclamam dos “problemas” de acesso aos insumos e pedem a limitação da “dependência externa” em relação aos medicamentos anti-retrovirais. A independência, segundo reivindicação contida na mesma carta, se daria por meio da produção local desses remédios. Os ativistas também solicitaram uma audiência com Lula.
Convidada pelo Ministério da Saúde para participar do lançamento, Silvinha Almeida, disse em seu discurso que os integrantes do movimento social estão muito orgulhosos do Brasil não ter chegado a alcançar a marca de um milhão de portadores do HIV, como previam as estatísticas e atribuiu o fato à parceria entre governo e sociedade civil. “Nós mulheres soropositivas brasileiras acreditamos no governo, no nosso país e na força que temos como movimento social. O ministro da Saúde e a ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres podem contar conosco para as ações de prevenção à Aids em geral, mas saibam que estaremos sempre prontas a cobrar nossos direitos”, enfatizou. Apesar da comemoração do Dia Internacional da Mulher, Silvinha lembrou da importância do movimento gay para a luta contra a doença.
A ativista contou à Agência de Notícias da Aids que o presidente foi orientado pela ministra Nilcéia Freire e pela diretora do Programa Nacional de DST/Aids, Dra. Mariângela Simão para não se referir aos portadores do HIV como “aidéticos”, o que ele admitiu publicamente. “O governo está com uma injeção de ânimo novo na luta contra a Aids, que são as mulheres. O primeiro passo foi dado. Agora temos que ficar em cima para ver se o plano vai ser colocado em prática, que é a função da sociedade civil. Sabemos das nossas conquistas, mas conhecemos nossas fragilidades,” concluiu.
Maurício Barreira


