Ativistas elogiam campanha de prevenção às ISTs no Carnaval e ressaltam protagonismo feminino e prevenção combinada

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A campanha de prevenção às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) lançada pelo Ministério da Saúde para o Carnaval 2026 repercutiu entre ativistas e organizações da sociedade civil, que destacaram avanços na estratégia de comunicação, mas também apontaram desafios como o alcance entre populações vulneráveis e o timing da divulgação.

Com o mote “Carnaval com prevenção. Antes, durante e depois da folia, é o Governo do Brasil do seu lado”, a iniciativa prioriza jovens e jovens adultos e reforça o uso de preservativos e da chamada prevenção combinada — que inclui testagem, vacinação, profilaxia pré e pós-exposição ao HIV (PrEP e PEP).

 

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Nos últimos três meses, o ministério distribuiu 138 milhões de preservativos aos estados para reforçar a demanda do período carnavalesco, incluindo novas versões texturizadas e ultrafinas incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) em 2025. A pasta afirma que a medida busca aumentar a adesão ao uso, diante de dados que apontam que 60% da população brasileira não utiliza preservativos nas relações sexuais.

Protagonismo feminino

A advogada Márcia Leão, do Fórum de ONGs/Aids do Rio Grande do Sul e do Coletivo Feminista Gabriela Leite, destacou a importância de trazer a mulher para o centro do debate.

“Achei muito acertada a escolha do Ministério da Saúde em trazer a Gaby Amarantos como protagonista da campanha. O fato de ser uma mulher falando sobre prevenção chama atenção porque, historicamente, as campanhas costumam colocar a responsabilidade do preservativo muito associada aos homens ou tratar o tema de forma neutra, sem destacar o papel e o protagonismo feminino nesse cuidado.

Quando uma mulher ocupa esse espaço de fala, ela ajuda a reforçar que a prevenção também passa pela autonomia, pelo direito de negociar o uso do preservativo e pelo acesso à informação. Além disso, contribui para ampliar a identificação com outras mulheres, que muitas vezes não se veem representadas nesse tipo de abordagem.

Trazer esse olhar é importante para fortalecer a ideia de que a prevenção é uma construção coletiva, mas que precisa reconhecer as desigualdades de gênero que ainda impactam a capacidade de muitas mulheres de decidir sobre sua própria saúde sexual. Nesse sentido, a escolha da Gaby dialoga com representatividade, comunicação acessível e com a valorização da mulher como sujeito ativo no cuidado e na prevenção.”

“Campanha potente e conectada com o Brasil real”

Para o professor e diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+, Toni Reis, a campanha representa um avanço na comunicação pública sobre prevenção.

Segundo ele, a estratégia combina informação científica com representatividade social ao incluir a cantora Gaby Amarantos como rosto da campanha.

“A campanha de Carnaval sobre HIV e aids do governo federal está simplesmente lindíssima. É potente, responsável e profundamente conectada com o Brasil real. Ver uma artista popular como Gabi Amarantos, mulher da região Norte, falando abertamente sobre prevenção combinada, é um gesto simbólico e político de enorme importância.

A campanha deixa claro que hoje existem várias formas de prevenção: o uso do preservativo, a PrEP, a PEP e a vacina — fruto do compromisso histórico do Sistema Único de Saúde com a vida, com a ciência e com os direitos humanos. Isso é política pública baseada em evidências. Isso é cuidado. Isso é responsabilidade social.

Parabenizo o Ministério da Saúde e o governo federal pela ousadia e pela sensibilidade de colocar a prevenção no centro do debate justamente no Carnaval, quando falar de cuidado é também falar de liberdade com responsabilidade.

A Aliança Nacional LGBTI+ participou da discussão da campanha e dos grupos focais, contribuindo com a escuta da sociedade civil organizada. Esse diálogo demonstra maturidade democrática e respeito à participação social.

Num contexto adverso, marcado pelo avanço da extrema-direita e por ataques à ciência e aos direitos humanos, o Brasil reafirma seu compromisso com a prevenção, com a informação de qualidade e com a vida. Estamos no rumo certo: o rumo da ciência, do SUS e da dignidade.”

Representatividade e linguagem acessível

Avaliação semelhante foi feita por Américo Nunes Neto, presidente do Instituto Vida Nova, que destacou a linguagem acessível e a representatividade racial e regional como pontos positivos.

Segundo ele, a presença de uma artista negra da região Norte pode ampliar a conexão com públicos diversos.

“A campanha está consistente, leve, com linguagem acessível e com a representatividade de uma mulher negra paraense, o que pode conectar ainda mais a população da região Norte do Brasil. Destaca também a importância da testagem regular e da conscientização, especialmente em períodos de maior vulnerabilidade, como o Carnaval.

A ênfase no preservativo e na prevenção combinada é crucial; por ser genérica, considero isso um ponto positivo.

O resultado e o impacto devem ser percebidos nos próximos meses. Nesse sentido, fica a pergunta: haverá uma pesquisa para medir o impacto real entre o público atingido pela campanha, permitindo decisões mais assertivas para as próximas ações, sempre baseadas em dados? Vamos aguardar o recall.”

Redução do estigma e ampliação do autocuidado

Para Thiago Rodrigues, secretário político da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+Brasil), a campanha cumpre um papel estratégico ao associar prevenção ao contexto cultural do Carnaval.

Ele avalia que a iniciativa contribui para reduzir estigmas ainda associados ao HIV e às ISTs, além de ampliar o acesso à informação.

“A campanha de Carnaval do Ministério da Saúde cumpre um papel estratégico fundamental na promoção da saúde pública em um dos períodos de maior mobilização social do país. O Carnaval, por sua natureza festiva, de grande circulação de pessoas e de intensificação das interações sociais, exige ações de prevenção amplas, acessíveis e culturalmente conectadas com a população.

Nesse contexto, a campanha vai além da simples difusão de informações técnicas: ela atua na redução de vulnerabilidades, no incentivo ao autocuidado, na ampliação do acesso à prevenção combinada e no enfrentamento do estigma ainda associado às IST, ao HIV e à busca por serviços de saúde. Ao ocupar os espaços simbólicos e reais da festa — ruas, blocos, redes sociais e mídia —, a iniciativa transforma a prevenção em parte da experiência coletiva do Carnaval, reafirmando que cuidado e celebração podem caminhar juntos.

A participação da cantora Gaby Amarantos neste ano fortaleceu significativamente o alcance e a efetividade da campanha. Reconhecida por sua autenticidade, carisma e forte conexão com a diversidade cultural brasileira, a artista conseguiu traduzir mensagens de saúde pública em uma linguagem leve, próxima e envolvente. Sua presença ajudou a romper barreiras comunicacionais, tornando temas muitas vezes tratados com distanciamento técnico em conteúdos acessíveis, acolhedores e socialmente mobilizadores.

Ao levar informação de forma descontraída, sem perder o rigor das orientações de prevenção, Gaby Amarantos contribuiu para ampliar a identificação do público com a campanha, especialmente entre jovens e populações que historicamente enfrentam maior vulnerabilidade social e sanitária. Essa estratégia demonstra a relevância de integrar comunicação em saúde com referências culturais populares, fortalecendo o diálogo com a sociedade em sua pluralidade.

Assim, a campanha de Carnaval reafirma seu papel como instrumento de educação em saúde, promoção de direitos e prevenção baseada em evidências. A presença de Gaby Amarantos simboliza uma comunicação pública mais humana, criativa e eficaz, capaz de informar, sensibilizar e mobilizar, sem abrir mão da alegria que marca a maior festa popular do país.”

Campanha aposta em prevenção combinada e linguagem popular

Na avaliação da ativista Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural Barong, a campanha do Ministério da Saúde apresenta avanços importantes ao reforçar a prevenção combinada e ampliar o acesso a novos métodos de proteção, além de apostar em uma comunicação acessível ao público.

“Muito bacana a campanha, contemplando a prevenção combinada e apresentando os novos preservativos externos que foram incorporados à distribuição gratuita pelo SUS.

A melodia é bacana, funciona como disparador temático e pode ser incorporada em outras ocasiões, já que temos tanto Carnaval fora de época no Brasil e tem força para ser replicada por blocos, festas, veículos e afins.

A campanha do Ministério da Saúde acerta ao unir prevenção combinada, linguagem popular e protagonismo de uma mulher negra, ao mesmo tempo em que apresenta novos métodos de proteção e afirma a autonomia das mulheres sobre sua sexualidade.”

Queda no uso de preservativos preocupa autoridades

A campanha ocorre em um contexto de redução do uso de preservativos no Brasil e no mundo. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (2019) mostram que apenas 22,8% dos brasileiros relataram uso do método em todas as relações sexuais no ano anterior ao levantamento, enquanto 59% afirmaram não utilizá-lo.

O Ministério da Saúde afirma que a diversificação dos preservativos e o reforço da prevenção combinada buscam reverter essa tendência, especialmente entre jovens.

Além da prevenção às ISTs, a pasta recomenda hidratação, uso de protetor solar, vacinação contra febre amarela em áreas de risco e busca por serviços de saúde quando necessário.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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