ATIVISTAS E INFECTOLOGISTAS CRITICAM ABORDAGEM DA AIDS PELA NOVELA ‘PÁGINAS DA VIDA’, DA TV GLOBO; PARA O DR. CAIO ROSENTHAL MILHÕES DE PESSOAS ASSISTIRAM A ‘UM EXEMPLO DEPLORÁVEL’

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14/12/2006 – 13h50

Crédito: Willian Andrade/TV Globo

Deplorável, abominável, equivocada e anti-ética. Esses foram alguns dos termos usados por ativistas e infectologistas para qualificar uma cena da novela “Páginas da Vida” (TV Globo) exibida na última segunda-feira (11/12). Nela, o médico Diogo (interpretado por Marcos Paulo) afirma que um paciente está infectado pelo HIV apenas baseado em características físicas. Além disso, o médico decide fazer o teste de Aids contrariando a vontade do paciente. “O procedimento [encenado na novela ‘Páginas da Vida’] é totalmente anti-ético. Ele fere o princípio básico, número um da bio-ética moderna que é a autonomia. Não existe mais a possibilidade de o médico dirigir o tratamento, impor normas… Isso é abominável”, protesta o infectologista Caio Rosenthal. “Um exemplo desse ser divulgado em uma novela é um desserviço, um retrocesso. Milhares, milhões de pessoas viram um exemplo deplorável”, conclui Rosenthal.

A polêmica teve início na noite de terça-feira (12/12) com divulgação de nota de repúdio da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) diante da abordagem do tema da Aids pela novela “Páginas da Vida”. Mesmo incorreta, a abordagem encenada no programa da TV Globo ainda “existe”. Quem garante é o infectologista Robinson Camargo, do Serviço de Assistência Especializada (SAE) em DST/Aids Sapopemba, na zona leste de São Paulo. “Essa abordagem existe, não está fora da realidade, mas é anti-ética. Todos os exames feitos com um paciente, desde que ele esteja lúcido, precisam de autorização, tanto para fazer o exame como para o tratamento. Fazer exames sem autorização é uma prática dos anos 70, da época da ditadura. Todo exame é informado. Se o paciente disser que não, é não”, explica Camargo.

Contudo, ainda segundo o infectologista, “a obrigação do médico” é tentar convencer o paciente a fazer o exame. “O paciente é dono do seu corpo e isso tem que ser respeitado. Se ele estiver em coma ou não estiver em condições de ser consultado, tudo bem. O ideal seria que a novela mostrasse o procedimento correto”, lamenta o médico Robinson Camargo.

O ativista Mário Scheffer, da ONG Pela Vidda (SP), concorda com as “opiniões” dos infectologistas em relação à abordagem (“não foi correta, um desserviço”, afirma), mas avalia que muitos soropositivos chegam aos serviços de atendimento “já doentes”, como no exemplo encenado na novela das oito. “Isso não é fantasia da novela. Infelizmente o diagnóstico tardio ainda existe. Acredito que é até uma contribuição. Mas acho que foi bom essa polêmica pra que a direção, a produção da novela mude a abordagem”, diz Scheffer.

“A novela tem uma boa intenção, mas da maneira como foi abordado [o tema da Aids] pode trazer problemas, estigmas. O médico tem que respeitar [a decisão do indíviduo] porque é uma questão muito particular do paciente. O médico foi muito incisivo, ele deveria sugerir o exame”, avalia Américo Nunes Neto, presidente do Fórum de ONG/Aids de São Paulo. Na opinião do ativista, o autor da novela também deve abordar outros temas relacionados à pandemia da Aids, como a questão do “acolhimento” e a “quebra de patentes”. Ele denuncia que, ainda hoje, existe a “recusa” de alguns hospitais particulares em aceitar pacientes soropositivos e pede que autor da novela, Manoel Carlos, incorpore na trama a discussão em torno da “quebra de patentes”.

Para Beth Franco, psicóloga do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), “afirmar que o paciente tem HIV só de olhar é inadequado”. “Não é raro que as pessoas tenham resistência em fazer o exame. A idéia é ter uma equipe multiprofissional com psicólogo, assistente social, enfermeira. Todo um preparo pra fazer o aconselhamento”, explica a ativista do GIV. “Tanto para a testagem quanto para a abordagem, é necessário um aconselhamento e acolhimento”, resume Beth Franco.

Léo Nogueira e Maurício Barreira

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