ATIVISTAS CONFIRMAM FALTA OU FRACIONAMENTO DE ALGUNS MEDICAMENTOS NO ESTADO DE SÃO PAULO; JOSÉ ARAÚJO, PRESIDENTE DA CASA DE APOIO AFXB, PROMETE ENTRAR COM AÇÃO PREVENTIVA NO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL AINDA HOJE

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15/12/2006 – 14h45

“O programa estadual e o nacional não estão se entendendo”. Essa é a principal justificativa de José Araújo, presidente da Casa de Apoio AFXB, para uma ação preventiva que será apresentada na tarde desta sexta-feira (15) ao Ministério Público Federal. A falta ou o fracionamento de alguns medicamentos, denunciados na tarde de ontem pelo infectologista Robinson Camargo (coordenador do SAE Sapopemba), é considerado, pelo ativista, como algo “gravíssimo”. “Eu acho que nós estamos chegando a uma situação limite. Há um risco muito grande de desabastecimento. Em nome de contenção de despesas, o programa está sendo estrangulado. O governo Lula está querendo estrangular o programa [de DST/Aids]”, acusa José Araújo. Em resposta às declarações do ativista, Maria Clara Gianna, coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids, esclarece que “não há nenhuma divergência entre o programa nacional e estadual”. Ela ressalta que, “nos próximos dias”, o “problema do abacavir” vai estar resolvido.

Segundo o presidente da Casa de Apoio AFXB, além da gamaglobulina (“que há muito tempo não tem”, lembra o ativista), o anti-retroviral abacavir também estaria em falta. Alexandre Gonçalves, da Gerência de Apoio Estratégico da Coordenação Estadual do Programa de DST/Aids de São Paulo, admite que o medicamento está sendo “fracionado”, mas não haveria falta do fármaco. José Araújo também critica os militantes que “já estão de bermuda”. “Pra nós [ativistas] não existe final de ano. Todo dia é dia de ação”, cobra Araújo.

Hugo Hagstrom, coordenador do departamento social do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), acrescenta outro anti-retroviral à lista dos medicamentos que estariam sendo fracionados: o saquinavir. “Faltar não está faltando, mas está sendo fracionado. Fracionado pra dez dias”, explica Hagstrom. A Coordenação Estadual do Programa de DST/Aids de São Paulo nega. “Isso não tem procedência”, garante Alexandre Gonçalves.

Na opinião de Hugo Hagstrom (GIV), o problema do fracionamento é que a adesão ao tratamento se tornaria menor e, portanto, a terapia menos eficaz. “Obrigatoriamente a pessoa tem que ir várias vezes ao posto de saúde. Pelo menos umas três vezes por mês. Algumas pessoas têm condições de ir buscar [os medicamentos], mas algumas não”, afirma Hagstrom, referindo-se ao custo elevado das tarifas dos transportes públicos na capital paulista. Recentemente, o preço da passagem dos ônibus municipais foi reajustado em 15%, o dobro da inflação do período (2005-2006), que foi de 6,5% (segundo dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Além do anti-retroviral saquinavir, também estariam em falta, no Centro de Referência e Treinamento DST/Aids da capital paulista, “alguns medicamentos psicotrópicos”. A acusação, de Hugo Hagstrom (GIV), é parcialmente admitida pela Coordenação Estadual. “Só está faltando um psicotrópico: o sertralina. Mas a gente está empenhando isso ainda hoje”, promete Alexandre Gonçalves. “Empenho” é uma espécie de certificado, de garantia para o prestador de serviço de que o poder público vai pagar por aquele ofício ou produto. “A empresa retira o empenho e faz a entrega”, explica Gonçalves.

Léo Nogueira

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