24/2/2007 – 10h40
Pequim – Gao Yaojie, a médica chinesa que denunciou a corrupção de funcionários locais como causa da explosão no número de contagiados com AIDS na província de Henan, conseguiu um visto para os Estados Unidos, onde será premiada. Para que ela renuncie à viagem e não “manche a imagem da China”, a médica e sua família estão recebendo sérias ameaças.
“Estou decidida a dizer a verdade, mas não sei se isso é o melhor a fazer”, disse Gao, de 80 anos. A médica foi submetida a 20 dias de prisão domiciliar antes de uma misteriosa intervenção – talvez da vice-premier Wu Yi, única mulher no governo de Pequim e líder da mobilização contra a AIDS – reverter as sanções contra Gao.
Obrigados a deixá-la partir para os Estados Unidos, onde receberá o prêmio da fundação Vital Voices, um grupo humanitário apoiado pela senadora Hillary Clinton, os funcionários ameaçaram sua família.
Gao Yaojie não conseguiu evitar as lágrimas quando relatou que seu filho mais velho, um professor universitário de 55 anos, se ajoelhou diante dela pedindo que não viajasse, depois de receber sérias pressões de superiores.
“Não está em perigo só seu trabalho, mas sim sua própria vida”, denunciou a doutora. Também sua filha, sua nora e seu irmão se viram obrigados a pedir-lhe que abra mão da viagem “voluntariamente”.
“Disse a todos que estou disposta a cancelar minha visita, mas não a dizer que faço isso espontaneamente, cheguei aos 80 anos e não quero mentir para os meus compatriotas nem para as pessoas que me ouvem no mundo todo”, acrescentou.
“Não estou procupada em manchar a imagem da China; a imagem de um país é aquela que o país oferece de si mesmo, não depende do que diz uma pessoa”, destacou Gao.
Em Henan, nos anos 90, milhares de doadores de sangue foram contaminados pelo vírus da AIDS devido às más condições higiênicas a que eram submetidos durante as extrações de sangue.
Segundo a denúncia de grupos humanitários, traficantes vinculados a funcionários locais extraiam ilegalmente o plasma, que vendiam aos hospitais, e em seguida reciclavam o sangue.
O sangue de várias pessoas era misturado e se usava dezenas de vezes a mesma seringa. Gao Yaojie foi uma das primeiras a descobrir a situação e denunciá-la à imprensa chinesa e estrangeira, e organizar iniciativas para informar os habitantes de Henan sobre os riscos que eles corriam.
“Não sou otimista com relação às perspectivas da luta contra a AIDS na China; os funcionários locais são muito corruptos e não seguem as diretivas do governo central, que são corretas”, acrescentou a doutora, que esperava passar um mês nos Estados Unidos, visitando Washington, Nova York e Chicago.
Fonte: ANSA Latina


