16/12/2006 – 10h10
Em carta aberta dirigida ao Prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, ao Secretário de Saúde do Município do Rio, Jacob Kligerman, aos integrantes da Coordenação Municipal de DST/Aids (RJ) e aos “amigos da imprensa”, o ativista Cazu Barros, protagonista da campanha brasileira do Dia Mundial de Luta contra a Aids deste ano, exige a “contratação emergencial de médicos infectologistas para os postos de saúde do município do Rio de Janeiro.” Segundo Barros, na última quarta-feira (13/12), ao procurar o Posto de Saúde João de Barros, em Copacabana, na zona sul da capital fluminense, ele teve a assistência negada. Após insistir, alegando tratar-se de um “atendimento urgente”, foi marcada uma consulta para 15 de fevereiro de 2007. Ao questionar o prazo, ainda segundo Cazu Barros, a data foi alterada para 29 de janeiro do próximo ano. “Será que estarei vivo até lá?”, pergunta indignado o ativista em um dos trechos da carta. Em resposta às denúncias, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) divulgou nota na qual assegura que “a direção do Centro Municipal de Saúde (CMS) João Barros Barreto desconhece a informação de que só há vagas para consultas clínicas a partir de 29 de janeiro de 2007, uma vez que há disponibilidade na agenda para início de janeiro.”
Insatisfeito com o tratamento dispensado no Posto de Saúde João de Barros, o ator rumou para outro posto localizado no Catete, também na zona sul do Rio, onde teria sido “informado pelo programa de Aids” que no local não há infectologista há “quase um ano”. Além disso, “os dois mil pacientes de lá estão sendo encaminhados para o posto de saúde de Copacabana, João de Barros, onde só consegui consulta para o dia 29 de janeiro de 2007”, explica Cazu Barros em sua carta. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a “reposição” do médico infectologista foi feita “há mais de um mês e o atendimento está normalizado”. A Secretaria admite, no entanto, a falta de um infectologista no Centro Municipal de Saúde (CMS) João Barros Barreto, em Copacabana, e já estaria “providenciando a contratação de mais um infectologista para preencher a vaga deixada pelo Dr. Estevão.”
O ativista procurou auxílio porque, na manhã da última quarta-feira (13/12), percebeu que estava com candidíase oral: fungo que costuma aparecer em pessoas com baixa imunidade e provoca pequenas feridas no interior da boca. Segundo Barros, se não tratada, a enfermidade pode “até causar a morte do paciente”.
A morte ocasionada pela candidíase oral é “rara” e só costuma acontecer com indivíduos muito fragilizados, como “pacientes em UTI [Unidade de Terapia Intensiva] ou com câncer terminal”, explica a médica infectologista Simone Tenore, do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Essa é a chamada “candidíase disseminada” e ocorre quando o fungo entra na corrente sanguínea. “Mas a gente não costuma ver isso em pacientes com HIV”, ressalta a infectologista. Geralmente, a doença surge em pacientes com baixo CD4 (exame que quantifica as defesas, os anticorpos do indivíduo) e “pode dar em vários locais: na boca, no esôfago… Isso vai debilitando o paciente, pois ele não consegue se alimentar direito”, explica Tenore.
Quase sempre, a candidíase surge em pessoas com CD4 “abaixo de 200”. Na seqüência, a carta do ativista e ator Cazu Barros na íntegra. Em seguida, a resposta da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, que divulgou nota no final da tarde da última quinta-feira (14/12).
Prezados:
Sr. Prefeito César Maia,
Sr. Secretaria Municipal de Saude, Jacob Kligerman
Coordenação Municipal de DST/Aids/RJ e
amigos da imprensa
Saudações,
Me chamo Cazu Barroz, sou membro da Comissão Estadual de aids/RJ, ator protagonista da Campanha do Ministério da Saúde de 2006, e Coordenador Nacional do projeto aids da Federação de Bandeirantes do Brasil. Se eu não consigo ser atendido, fico imaginando as pessoas menos informadas, o que não devem estar passando para se tratar nos postos de saúde do Rio de Janeiro.
Ao acordar hoje,13/12/2007, percebi que minha boca estava cheia Candidiase oral, infecção causada pela baixa imunidade, muito comum em pacientes com Aids, se não tratado logo, pode descer para o estomago e até causar a morte do paciente.
Estou portador do HIV há 17 anos e me trato no posto de Saúde João de Barros, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Fui até ao posto para ser atendido e marcar consulta com meu médico, Dr.Estevão, para minha surpresa, não consegui ser atendido.Motivos apresentados pelo posto:
•Meu médico não pertence mais ao quadro de infectologista do posto;
•O posto tem apenas 02 infectologistas para atender os pacientes do Leme, Copacabana,Morro do Pavão, Morro do Pavãozinho, Morro do Canta Galo, Catete e Glória, além dos pacientes de outras localidades que preferem ser atendidos lá devido ao medo de serem reconhecidos em suas localidades;
•Por falta de infectologista, os dois infectologistas presentes, encontram-se sobrecarregados, sem condições de dar um atendimento rápido e digno as pessoas com Aids.
Ao informar que preciso de atendimento urgente, pois, apresento infecção oportunista, me foi sugerido uma consulta para o dia 15 de Fevereiro de 2007, daqui a três meses , ao questionar a longa espera, consegui marcar a consulta para o dia 29 de Janeiro de 2007. Daqui há um mês e meio. Pergunto ao Srs., será que estarei vivo até lá?
Insatisfeito, fui a outro posto de saude localizado no Catete, também Zona Sul do Rio, fui informado pelo programa de Aids do posto que lá, há quase um ano não há infectologista no posto e os dois mil pacientes de lá, estão sendo encaminhados para o posto de saude de Copacabana, João de Barros, onde só consegui consulta para o dia 29 de Janeiro de 2007.
Onde está o melhor programa de Aids do Mundo no Rio de Janeiro? Enquanto eleitor e pessoa vivendo com Aids, exijo do Sr. Prefeito César Maia e do Sr. Secretario Municipal de Saude/RJ a contratação emergencial de médicos infectologistas para os postos de saude do município do Rio de Janeiro.
Antes, nós pessoas vivendo com Aids, nos escondíamos pra morrer hoje, nos mostramos pra viver. Espero ter meu pedido atendido antes de morrer.
Saudações Bandeirantes,
Cazu Barroz
Coordenador Nacional do Projeto ” Ouça…Aprenda…Viva” – Campanha Mundial de Prevenção às DST/Aids
Membro da Comissão Estadual de Aids do Governo do Estado do Rio de Janeiro
14.12.06
NOTA
Em relação ao e-mail enviado pela Agência Aids sobre a carta do ativista Cazu Barroz, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) esclarece:
A direção do Centro Municipal de Saúde (CMS) João Barros Barreto desconhece a informação de que só há vagas para consultas clínicas a partir de 29 de janeiro de 2007, uma vez que há disponibilidade na agenda para início de janeiro. Para casos de urgência, o paciente deve procurar o programa de infectologia da unidade e o enfermeiro responsável pelo acolhimento dos pacientes para que seja marcada uma consulta de emergência.
A SMS está providenciando a contratação de mais um infectologista para preencher a vaga deixada pelo Dr. Estevão. O CMS Manoel José Ferreira, no Catete, já fez a reposição do médico infectologista há mais de um mês e o atendimento está normalizado.
Léo Nogueira


