Até 2040, maioria das pessoas vivendo com HIV terá mais de 50 anos, aponta Comissão da The Lancet HIV

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Estudo apresentado na AIDS 2026 mostra que o maior desafio da resposta global ao HIV já não é apenas manter as pessoas vivas, mas garantir que envelheçam com saúde, autonomia e qualidade de vida.

Durante muito tempo, vencer o HIV significava impedir que ele matasse. Nas décadas de 1980 e 1990, quando os primeiros casos da epidemia surgiram, envelhecer vivendo com o vírus era uma realidade para poucos. O diagnóstico ainda carregava uma expectativa de vida curta, tratamentos limitados e um futuro cercado de incertezas.

Quatro décadas depois, esse cenário mudou completamente. Graças aos avanços da terapia antirretroviral, milhões de pessoas passaram a viver por décadas com HIV. O que antes era considerado improvável tornou-se uma conquista da medicina: chegar aos 50, 60, 70 anos e continuar vivendo com o vírus.

Mas essa vitória trouxe uma nova pergunta. Como garantir que essas pessoas envelheçam com saúde, autonomia e qualidade de vida?

É essa mudança de cenário que está no centro da The Lancet HIV Commission on Ageing and HIV: a Global Perspective, apresentada durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro. O estudo reúne especialistas de diferentes países, pesquisadores e representantes da sociedade civil — entre eles a infectologista brasileira Beatriz Grinsztejn, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) — e afirma que a resposta global ao HIV entrou em uma nova fase. A principal mensagem da Comissão é direta: a epidemia envelheceu.

Hoje, cerca de 11,5 milhões de pessoas vivendo com HIV já têm mais de 50 anos. Em apenas 15 anos, esse número deverá saltar para 20,2 milhões. Se as projeções se confirmarem, em 2040, mais da metade de todas as pessoas vivendo com HIV no mundo terá ultrapassado os 50 anos.

Mais do que um dado demográfico, a projeção revela uma mudança histórica. Pela primeira vez desde o início da epidemia, o HIV deixará de ser marcado predominantemente por uma população jovem. A realidade será outra: milhões de pessoas envelhecendo com o vírus, convivendo não apenas com o tratamento antirretroviral, mas também com doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, osteoporose, alterações cognitivas, cânceres e outros problemas que acompanham o avanço da idade.

Há outro dado que amplia o tamanho desse desafio. Segundo a Comissão, 96% das pessoas vivendo com HIV acima dos 50 anos estarão concentradas em países de baixa e média renda. São justamente os locais onde os sistemas de saúde convivem com menos recursos, dificuldades de financiamento e serviços ainda organizados para responder a uma epidemia muito diferente da atual.

O sucesso da ciência mudou a epidemia Para os pesquisadores, esse novo cenário é consequência direta da maior conquista da resposta global ao HIV.

A expansão da terapia antirretroviral transformou completamente o curso da epidemia. Pessoas que décadas atrás dificilmente sobreviveriam ao diagnóstico hoje trabalham, formam famílias, planejam a aposentadoria e chegam à velhice. “O acesso global à terapia antirretroviral prolongou a vida de milhões de pessoas vivendo com HIV”, destaca o resumo executivo da Comissão.

Mas o próprio documento faz um alerta: os sistemas de saúde ainda não acompanharam essa transformação.

Durante muitos anos, o sucesso do tratamento foi medido quase exclusivamente por um indicador: manter a carga viral indetectável. Esse objetivo continua sendo fundamental. Afinal, controlar a replicação do vírus protege a saúde da pessoa vivendo com HIV e impede a transmissão sexual do vírus. Mas, para a Comissão, isso já não basta.

Chegar aos 70 anos sem conseguir caminhar, trabalhar, manter a independência ou participar da vida social não pode ser considerado um resultado satisfatório apenas porque a carga viral permanece controlada. É por isso que os pesquisadores defendem uma mudança de perspectiva.

Mais do que controlar o vírus, será preciso preservar aquilo que permite às pessoas continuarem vivendo plenamente.

“O cuidado deve concentrar-se na manutenção da supressão viral, na promoção do envelhecimento saudável e no apoio ao que é mais importante para cada pessoa”, afirmam os autores entre as mensagens centrais da publicação.

Na prática, isso significa que exames laboratoriais deixam de ser os únicos indicadores de sucesso.

A Comissão propõe que médicos, enfermeiros e gestores passem a observar também se aquela pessoa continua independente, consegue realizar suas atividades diárias, mantém vínculos sociais, preserva a saúde mental e tem qualidade de vida.

Em outras palavras, o desafio deixou de ser apenas acrescentar anos à vida. Agora, é preciso acrescentar vida aos anos. Nem todas as gerações envelheceram da mesma forma O envelhecimento das pessoas vivendo com HIV também carrega marcas da própria história da epidemia.

Quem recebeu o diagnóstico nas décadas de 1990 ou no início dos anos 2000 enfrentou uma realidade completamente diferente daquela vivida por quem descobre o HIV hoje.

Naquela época, o tratamento normalmente só começava quando o sistema imunológico já estava bastante comprometido. Isso significava passar anos convivendo com intensa replicação viral e um processo inflamatório contínuo.

Além disso, muitos utilizaram medicamentos das primeiras gerações, fundamentais para salvar vidas, mas hoje reconhecidos por seus efeitos adversos sobre o metabolismo, os ossos e o sistema cardiovascular. Parte dessas consequências acompanha essas pessoas até hoje. A realidade atual é diferente.

Hoje, as recomendações internacionais orientam que o tratamento seja iniciado imediatamente após o diagnóstico. Os medicamentos são mais eficazes, menos tóxicos e controlam rapidamente a infecção.

Segundo a Comissão, isso provavelmente fará com que as próximas gerações envelheçam em condições diferentes das observadas entre quem convive com o HIV há três ou quatro décadas, embora os efeitos de longo prazo dos tratamentos atuais ainda precisem ser acompanhados.

O desafio agora é viver melhor

Se antes a maior preocupação era sobreviver, hoje a pergunta é outra. Como garantir que milhões de pessoas vivendo com HIV cheguem à velhice preservando autonomia, capacidade funcional e qualidade de vida?

A Comissão argumenta que essa resposta passa por uma mudança profunda na organização dos serviços de saúde e na forma de compreender o envelhecimento.

Porque viver mais, lembram os pesquisadores, significa também enfrentar novos desafios — e eles vão muito além do controle da carga viral.

Viver mais também significa enfrentar novos desafios

Se sobreviver ao HIV foi a grande conquista das últimas décadas, envelhecer bem com o vírus será o grande desafio dos próximos anos.

A Comissão da The Lancet HIV mostra que a longevidade conquistada graças aos antirretrovirais traz uma realidade que os serviços de saúde ainda estão aprendendo a enfrentar. À medida que as pessoas vivem mais, cresce também a presença de doenças típicas do envelhecimento, como hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, insuficiência renal, osteoporose, alguns tipos de câncer, alterações cognitivas e transtornos mentais. Em muitos casos, essas condições aparecem ao mesmo tempo, tornando o cuidado muito mais complexo.

Os pesquisadores explicam que isso não acontece por um único motivo. Há pessoas que passaram anos convivendo com o HIV antes de iniciar o tratamento, utilizaram medicamentos das primeiras gerações e carregam até hoje parte dos efeitos desses esquemas terapêuticos. Soma-se a isso o processo inflamatório provocado pela própria infecção, que pode persistir mesmo quando a carga viral permanece controlada.

O resultado é uma população que precisa de um acompanhamento muito diferente daquele pensado no início da epidemia.

Quando o HIV deixa de ser a única preocupação

Há algumas décadas, boa parte das consultas era dedicada quase exclusivamente ao controle da infecção pelo HIV. Hoje, esse cenário mudou.

Uma pessoa que chega aos 60 ou 70 anos vivendo com HIV pode precisar controlar, ao mesmo tempo, a pressão arterial, o diabetes, o colesterol, doenças cardíacas ou problemas ósseos. O HIV continua fazendo parte da rotina, mas passa a dividir espaço com outras condições que também exigem atenção permanente.

Essa realidade aumenta outro desafio destacado pela Comissão: o uso simultâneo de vários medicamentos.

Além dos antirretrovirais, muitos pacientes utilizam remédios para controlar doenças crônicas associadas ao envelhecimento. Essa combinação amplia o risco de interações medicamentosas, efeitos adversos, dificuldades de adesão ao tratamento e internações evitáveis. Por isso, os pesquisadores defendem que revisar periodicamente todas as medicações prescritas passe a fazer parte da rotina dos serviços de saúde.

Envelhecer não significa a mesma coisa para todas as pessoas

Outro ponto destacado pela Comissão é que a idade, sozinha, diz pouco sobre o estado de saúde de alguém.

Duas pessoas de 65 anos podem ter condições completamente diferentes. Enquanto uma mantém autonomia, trabalha, pratica atividades físicas e leva uma vida independente, outra pode apresentar limitações importantes de mobilidade, cognição ou fragilidade física.

Por isso, o relatório recomenda que decisões sobre prevenção, exames e tratamentos deixem de considerar apenas a idade cronológica e passem a avaliar a condição global de cada pessoa, suas prioridades e sua capacidade funcional. O objetivo é substituir protocolos padronizados por um cuidado mais individualizado e centrado no paciente.

O HIV também envelheceu fora do radar

O estudo chama atenção para outro problema que ainda recebe pouca visibilidade: o aumento dos diagnósticos de HIV entre pessoas com mais de 50 anos.

Embora as novas infecções continuem mais frequentes entre adultos jovens, cresce o número de pessoas que descobrem o HIV mais tarde, muitas vezes quando o sistema imunológico já apresenta comprometimento importante.

Para os pesquisadores, isso acontece porque ainda persiste a falsa ideia de que pessoas mais velhas não mantêm vida sexual ativa. Como consequência, elas costumam ficar fora das campanhas de prevenção, recebem menos orientações durante as consultas e são testadas com menor frequência.

A Comissão lembra que sexualidade não desaparece com o envelhecimento e defende que o tema seja tratado de forma natural nos serviços de saúde, independentemente da idade. Também recomenda atenção especial às mudanças fisiológicas do envelhecimento, especialmente entre mulheres após a menopausa, que podem aumentar a vulnerabilidade à infecção pelo HIV.

O peso do preconceito continua presente

Se o envelhecimento traz novos desafios clínicos, ele também amplia barreiras sociais. Pessoas mais velhas vivendo com HIV frequentemente convivem com um duplo estigma: o preconceito relacionado ao vírus e a discriminação associada à idade.

Segundo a Comissão, essa combinação pode afastar pessoas dos serviços de saúde, dificultar conversas sobre sexualidade, favorecer o isolamento social e comprometer a qualidade de vida. Por isso, combater o estigma, fortalecer redes de apoio e ampliar a participação comunitária são medidas consideradas tão importantes quanto o tratamento medicamentoso.

Os sistemas de saúde terão de mudar

Para os autores, a maior transformação não acontecerá apenas dentro dos consultórios, mas na forma como os sistemas de saúde estão organizados.

Os programas de HIV foram estruturados para enfrentar uma doença específica. Agora, terão de responder às necessidades de uma população que vive mais, apresenta múltiplas condições de saúde e precisa de acompanhamento integrado.

A proposta da Comissão é aproximar a assistência em HIV da atenção primária, da geriatria, da saúde mental, dos cuidados paliativos e dos serviços comunitários. Em vez de percorrer diferentes especialidades sem comunicação entre si, a ideia é oferecer um cuidado coordenado, centrado na pessoa e não apenas na doença.

Essa mudança também passa pela formação dos profissionais de saúde. Médicos, enfermeiros e demais integrantes das equipes precisarão estar preparados para lidar não apenas com o HIV, mas também com os desafios do envelhecimento e das doenças crônicas. O relatório ainda propõe uma agenda internacional de pesquisa voltada à prevenção, qualidade de vida, integração dos serviços e desenvolvimento de modelos de cuidado capazes de responder a essa nova realidade.

A mensagem final dos pesquisadores é que o sucesso da resposta ao HIV não poderá mais ser medido apenas pela carga viral indetectável ou pela redução da mortalidade. Será preciso considerar também como essas pessoas vivem, envelhecem e participam da sociedade.

Afinal, o maior legado da terapia antirretroviral não foi apenas aumentar a expectativa de vida. Foi tornar possível imaginar um futuro. Agora, o desafio apontado pela Comissão é garantir que esse futuro seja vivido com dignidade, cuidado integral e equidade.

Redação da Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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