Em nota pública, ART-TB Brasil alerta para riscos de retrocessos nas políticas de saúde e proteção social e destaca que o programa do presidente apresenta maior convergência com as demandas do movimento
A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, a Articulação Social Brasileira para o Enfrentamento da Tuberculose (ART-TB Brasil) divulgou uma nota pública em defesa da democracia, do Sistema Único de Saúde (SUS) e da continuidade das políticas de proteção social. No documento, publicado nesta quinta-feira (22), a organização manifesta preocupação com os rumos da saúde pública brasileira e afirma que, após analisar os programas de governo dos dois candidatos, identificou maior alinhamento das propostas de Luiz Inácio Lula da Silva com as demandas do movimento de enfrentamento da tuberculose.
A manifestação ocorre em um cenário no qual a tuberculose continua representando um importante desafio de saúde pública, especialmente entre populações em situação de vulnerabilidade. Para a articulação, as decisões políticas dos próximos anos terão impacto direto sobre o financiamento do SUS, a continuidade dos programas de prevenção e tratamento e a capacidade do país de enfrentar desigualdades históricas que favorecem a transmissão da doença.
Fundada em 2019, a ART-TB Brasil reúne organizações da sociedade civil, representantes comunitários e diferentes setores envolvidos na resposta à tuberculose. Na avaliação da entidade, os avanços científicos e as novas tecnologias de diagnóstico e tratamento precisam estar acompanhados de investimentos públicos, proteção social e políticas capazes de enfrentar o racismo estrutural, a pobreza e o estigma.
Tuberculose, HIV e desigualdades sociais
Os números apresentados no documento ajudam a dimensionar os desafios. Em 2024, o Brasil notificou 84.308 casos novos de tuberculose. Em 2023, foram registrados 6.025 óbitos pela doença. Pessoas pretas e pardas representaram 65,8% dos novos casos, evidenciando a relação entre o adoecimento e as desigualdades sociais e raciais.
A situação também preocupa quando se observa a associação entre tuberculose e HIV. Segundo os dados citados pela articulação, a proporção de coinfecção tuberculose-HIV chegou a 11,4%, após dois anos consecutivos de crescimento. Entre as pessoas notificadas com as duas infecções, apenas 57,3% apresentavam registro de uso de terapia antirretroviral.
Para a ART-TB Brasil, esses indicadores demonstram que o enfrentamento da doença não depende exclusivamente de medicamentos ou de novas tecnologias. É necessário garantir condições para que as pessoas consigam chegar aos serviços de saúde, receber o diagnóstico oportunamente, iniciar o tratamento e manter o acompanhamento até a recuperação.
Memória da pandemia e preocupação com retrocessos
Outro ponto destacado pela organização é a necessidade de preservar a memória das consequências sanitárias e sociais da pandemia de Covid-19. Entre 2020 e 2022, a sobrecarga dos serviços de saúde, as dificuldades de acesso ao diagnóstico e ao tratamento e as interrupções na assistência comprometeram a resposta brasileira à tuberculose.
A entidade considera que essa experiência demonstrou a importância de fortalecer o financiamento público, valorizar os trabalhadores do SUS e assegurar a continuidade das políticas de saúde, independentemente das mudanças de governo.
Nesse contexto, a ART-TB Brasil manifesta preocupação com propostas discutidas durante o processo eleitoral de 2026, especialmente aquelas relacionadas a mudanças constitucionais, restrições orçamentárias e alterações nas políticas sociais. Segundo a organização, medidas dessa natureza podem comprometer conquistas recentes e ampliar as dificuldades enfrentadas pelas populações mais vulnerabilizadas.
“A resposta à tuberculose não pode estar sujeita a retrocessos que comprometam o acesso universal à saúde, a continuidade dos programas de prevenção e tratamento ou a proteção das populações em situação de maior vulnerabilidade”, afirma a nota.
Programa de Lula é considerado mais próximo das demandas do movimento
Ao se posicionar sobre a disputa presidencial, a ART-TB Brasil afirma ter analisado os programas de governo dos dois candidatos e identificado maior convergência entre as propostas de Lula e as prioridades defendidas pelo movimento de enfrentamento da tuberculose.
O documento não apresenta uma comparação detalhada das propostas, mas destaca como prioridades a defesa do SUS, a garantia do direito à saúde, o financiamento contínuo das políticas públicas, a valorização da ciência e o fortalecimento da proteção social.
A articulação também ressalta a importância da participação democrática e da preservação dos direitos estabelecidos pela Constituição Federal de 1988, especialmente o acesso universal à saúde.
Ao encerrar a manifestação, a ART-TB Brasil reafirma seu compromisso com a democracia, a justiça social e a eliminação da tuberculose como problema de saúde pública. Para a organização, o enfrentamento da doença deve permanecer como uma responsabilidade do Estado, com políticas permanentes e capazes de alcançar quem mais precisa.
“Em defesa da vida, da solidariedade, da democracia e do SUS! Viva a vida!”, conclui o documento.




