Com o tema “Eleições 2026: nosso futuro em suas mãos”, uma das maiores mobilizações LGBTI+ da Região Norte acontece no domingo (27), exatamente uma semana antes do primeiro turno, e transforma a diversidade em chamado por participação política, políticas públicas e garantia de direitos
Quando milhares de pessoas ocuparem as ruas de Belém no próximo domingo, 27 de setembro, as cores do arco-íris dividirão espaço com uma mensagem que vai muito além da festa. Em sua 24ª edição, a Parada do Orgulho LGBTI+ do Pará escolheu colocar no centro da avenida uma pergunta sobre o futuro — e sobre quem terá poder para decidir os rumos das políticas públicas nos próximos anos.
“Eleições 2026: nosso futuro em suas mãos” é o tema da mobilização, marcada estrategicamente para acontecer exatamente uma semana antes do primeiro turno das eleições gerais, em 4 de outubro. Naquela data, mais de 6,2 milhões de eleitoras e eleitores paraenses estarão aptos a escolher presidente da República, governador, senadores e deputados federais e estaduais. Só em Belém são mais de 1 milhão de pessoas com direito ao voto.

A decisão de aproximar a Parada do calendário eleitoral não é casual. Para o Grupo Homossexual do Pará (GHP), responsável pela organização, direitos conquistados, políticas ainda inexistentes e serviços que precisam ser ampliados também passam pelas escolhas feitas nas urnas.
Não se trata de indicar candidaturas ou partidos, mas, segundo os organizadores, de chamar atenção para o que os programas, mandatos e governos efetivamente propõem para enfrentar a discriminação, a violência e as desigualdades que atingem a população LGBTI+.
Um tema pensado desde janeiro

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Em abril, representantes da organização viajaram a Brasília para uma agenda no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e foram recebidos pela secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, Symmy Larrat. Segundo o GHP, foi uma movimentação inédita para uma Parada da Região Norte em busca de articulação federal antes da realização do evento.
O diálogo ocorre em um momento no qual o país passou a contar com uma Política Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, instituída em 2025 para articular União, estados, municípios e sociedade civil na promoção de direitos, proteção e enfrentamento à LGBTQIAfobia.
Em maio, a articulação seguiu em Belém, com a apresentação das atividades à Prefeitura, ativistas, organizações da sociedade civil e voluntários.
O lançamento público ganhou força em junho. Dentro da programação municipal de diversidade, a avenida Visconde de Souza Franco, a Doca, recebeu uma faixa com as cores do arco-íris no ponto que marca o início do percurso da 24ª Parada. A ação foi realizada em parceria entre a Prefeitura e o GHP.
Era o início simbólico de um projeto construído sobre três eixos que o grupo considera inseparáveis: visibilidade e mobilização; direitos e cidadania; acolhimento e memória.
Conquistas existem. As cobranças também
A Parada chega a 2026 depois de uma conquista histórica. Em setembro do ano passado, a Câmara Municipal de Belém aprovou o reconhecimento da Parada LGBTQI+ como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do município. Na justificativa da proposta, o evento é descrito como um espaço de memória, resistência, mobilização política e promoção da cidadania na Amazônia.
Também houve avanços recentes nas políticas locais. Em julho deste ano, a Prefeitura de Belém anunciou um protocolo de acolhimento e proteção destinado a pessoas LGBTQIAPN+ em situação de extrema vulnerabilidade social. O município também realizou ações envolvendo saúde, assistência social, cidadania e garantia de direitos.
Para o movimento, porém, os avanços não encerram a agenda.
Entre as reivindicações levantadas pelos organizadores estão respostas mais efetivas à violência e à discriminação, investigação e responsabilização nos casos de LGBTQIAfobia, políticas de emprego e renda e ampliação do acesso da população LGBTI+ aos programas habitacionais.
É justamente nesse encontro entre direitos já conquistados e demandas ainda abertas que o tema eleitoral ganha peso.
Nas eleições deste ano, a própria Justiça Eleitoral ampliou a coleta de informações sobre diversidade no registro das candidaturas, incluindo identidade de gênero e orientação sexual. Pessoas trans também têm assegurado o direito de utilizar nome social e identidade de gênero no cadastro eleitoral. Em 2026, 38.472 eleitoras e eleitores estão registrados com nome social no país.

Três dias de programação
A programação começa na sexta-feira, 25, com o Prêmio Cidadania LGBTI+ 2026, cerimônia destinada a homenagear ativistas de outros municípios, artistas, autoridades e pessoas com atuação ligada à promoção dos direitos da população LGBTI+.
A noite terá apresentações das drags Areas, Lilly Deverô, Nandinha Castro e Lilandra, além dos DJs Mister Dan, Astran e Gore. A apresentação ficará a cargo do coordenador Jenverson Garcia e de Nitthaelly, de Ipixuna do Pará, com Prince como host.
No sábado, 26, a mobilização deixa os palcos e ganha também a forma de acesso direto a direitos.
Das 9h às 13h, o Pavilhão Sul do Mercado de São Brás receberá uma Ação de Cidadania voltada à população LGBTQIAPN+, reunindo orientação jurídica, mediação de conflitos, informações para retificação de nome e gênero, direitos trabalhistas, empregabilidade, assistência social, benefícios previdenciários, saúde, medicamentos e orientação policial. O Ministério Público do Trabalho confirmou participação na atividade.
À tarde, a partir das 16h, a Aldeia Cabana recebe um torneio de gaymada, realizado pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer. A competição terá até 32 equipes e R$ 4,5 mil em premiação para os três primeiros lugares. No local haverá ainda serviços de saúde, incluindo testagem rápida para ISTs e distribuição de preservativos.
A presença da prevenção dentro da programação amplia o sentido da Parada: orgulho também passa pelo direito à saúde, à informação e ao acesso aos serviços.
No domingo, Belém ocupa as ruas
O ponto alto será no domingo, 27, com a 24ª Parada do Orgulho LGBTI+ do Pará.
A concentração começa às 13h na avenida Visconde de Souza Franco, na região da Doca, com saída em direção à Praça Waldemar Henrique no fim da tarde. A organização informa, em seu material mais recente, expectativa de reunir entre 500 mil e 700 mil pessoas. Reportagens publicadas anteriormente mencionavam uma estimativa inicial menor, entre 200 mil e 300 mil participantes.
Dois trios elétricos acompanharão o percurso, com nomes como Rogério Vaz, Diego Costa, Paty e Évora. Na Praça Waldemar Henrique, a programação segue com o DJ Henriq Moraes e uma sequência de apresentações de drag queens.
Entre elas estão Sarah de Montserrat, que vem de Florianópolis; Shaula Vegas; Kastelly Fluor; Ticcy Meireles, de São Paulo; e Lauanda Branches. O encerramento será com a banda Xeiro Verde.
Mas, por trás dos trios, da música, das performances e das bandeiras, a organização quer preservar a dimensão política que acompanha a história das Paradas desde sua origem.

Uma história construída nas ruas
O movimento LGBTI+ organizado em Belém tem raízes que antecedem a própria Parada. Pesquisas sobre essa trajetória registram a atuação do Movimento Homossexual de Belém desde 1990 e, posteriormente, o surgimento de diferentes organizações, entre elas o Grupo Homossexual do Pará, institucionalizado no início dos anos 2000 e inicialmente muito ligado às agendas de prevenção das ISTs e HIV/aids e à defesa da cidadania.
Ao longo dos anos, diferentes entidades compartilharam a construção da Parada. Com o encerramento de algumas delas, o GHP passou a assumir diretamente a articulação, produção e responsabilidade pelo evento.
A manifestação cresceu, mudou de percurso, incorporou novas identidades e reivindicações e chegou à condição de patrimônio cultural imaterial de Belém. Em 2026, porém, volta deliberadamente a uma de suas origens: ocupar o espaço público para falar de poder, direitos e cidadania.
Sete dias depois da Parada, o Pará irá às urnas.
Para Kleber Amorim, coordenador da 24ª edição, é justamente essa proximidade que dá sentido ao tema escolhido neste ano: “Nosso futuro está em suas mãos. Votar é mais que um direito, é transformar a realidade.”
No domingo, antes que as urnas eletrônicas sejam ligadas em todo o país, a população LGBTI+ paraense pretende fazer aquilo que vem fazendo há mais de duas décadas: ocupar as ruas de Belém para lembrar que orgulho também é memória, participação, cidadania e reivindicação de direitos.
Redação da Agência de Notícias da Aids



