As manchas na visão que revelaram o HIV –  “A gente merece viver de cabeça erguida”: a jornada de Renato Morelli após o diagnóstico

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Publicitário descobriu a infecção após procurar um oftalmologista — e transformou a experiência em informação e acolhimento nas redes sociais

Quando decidiu procurar um oftalmologista, Renato Morelli acreditava estar lidando apenas com um problema de visão. Míope desde jovem, ele começou a perceber manchas que insistiam em atravessar seu campo visual. “Eu sou miúpe e comecei a ver umas manchas na visão. Fui procurar o oftalmo.”

Na primeira consulta, a explicação parecia simples.“Ela disse que era alguma questão da miopia, um descolamento de retina esperado para alguém que tem miopia.”

Mas os meses passaram — e as manchas não desapareceram. Pelo contrário. “Quando chegou dezembro, elas tinham aumentado muito.”

A busca por respostas começou em agosto de 2020. O diagnóstico correto, no entanto, só viria meses depois, quando Renato decidiu procurar outro especialista. “Ele examinou meus olhos e disse que pareciam os de uma pessoa de 70 anos”, lembra.

Em seguida, veio uma pergunta inesperada. “Ele perguntou: ‘Você já fez exame de sangue?’. E eu falei: ‘Olha, é a primeira vez que um oftalmo me pergunta isso’.”

A partir daquela consulta, Renato passou por uma série de exames. Quase nove meses depois do início dos sintomas, veio a explicação para o que estava acontecendo: sífilis em estágio avançado, nível 3, que havia evoluído para meningite — responsável pelas manchas na visão.

Foi também nesse processo que ele descobriu que vivia com HIV.

Uma vida que mudou de direção

Hoje, Renato Morelli tem 32 anos. É publicitário, pisciano com ascendente em aquário, coordenador de comunicação no Senac São Paulo e influenciador nas redes sociais.

Diagnosticado há cinco anos, ele fala sobre viver com HIV com franqueza — e também com senso de responsabilidade. “A gente merece ser feliz. A gente merece viver o nosso tesão. E merece viver de cabeça erguida.”

Ao longo dos últimos anos, Renato transformou a própria experiência em uma forma de compartilhar informação e acolher outras pessoas que vivem com HIV.

Mas, antes de chegar a esse lugar de fala, foi preciso enfrentar também o peso do estigma.

Entre religião, culpa e estigma

Renato cresceu em um ambiente religioso rígido. Foi criado como Testemunha de Jeová e permaneceu na religião até os 18 anos, período marcado por um voto de castidade.

Mesmo já não frequentando a igreja quando recebeu o diagnóstico, as marcas dessa experiência reapareceram durante sua internação. “Eu revisitei muitos traumas e medos que aprendi nessa vivência religiosa. A ideia de que ser gay era um problema, uma doença, um pecado.”

Diante da descoberta do HIV, sentimentos antigos voltaram à tona. “Anos depois, me ver internado, descobrindo que vivia com HIV, foi lidar com uma certa culpa de novo.”

Pensamentos duros atravessaram aquele momento. “Pensar: além de ser um viado, agora sou um viado querendo ficar com HIV, tá vendo?”

Mas Renato também percebe que o estigma não se limita aos espaços religiosos. Ele aparece em muitos outros lugares — inclusive dentro da própria comunidade LGBT. “É louco pensar como, entre nós mesmos, a sexualidade ainda fica em um lugar muito subalterno.”

 

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Um post compartilhado por Renato Morelli (@orenatomorelli)

Informação como ferramenta

Com presença ativa nas redes sociais e também como palestrante, Renato decidiu usar sua visibilidade para falar abertamente sobre HIV, prevenção e tratamento.

Uma das principais mensagens que tenta transmitir é que as tecnologias de prevenção disponíveis no SUS ainda são pouco conhecidas.

“As pessoas acham que PrEP e PEP são um recurso do SUS só para gays e mulheres trans e travestis que vivem na prostituição. E não. Está à disposição da sociedade inteira.”

Para ele, ampliar o acesso à informação passa também por discutir educação sexual. “Se a gente tivesse espaços de diálogo, de peito aberto…”

Renato acredita que faltam ambientes seguros para essas conversas. “Eu sinto falta de termos esses espaços seguros. E falo muito disso durante as formações.”

O acolhimento da família

Entre os momentos mais marcantes desse processo está uma conversa com sua mãe durante a internação. “Minha mãe tem 58 anos. Ela assistiu ao surto da aids no mundo.”

O que veio depois ficou gravado na memória. “Lembro da conversa que tivemos no hospital. Foi uma das mais bonitas da minha vida.”

A fala dela mudou a forma como ele enfrentaria o diagnóstico. “Ela disse que não importava o que acontecesse. Seríamos nós dois juntos até o final.”

Transformar a própria história

Cinco anos depois do diagnóstico, Renato decidiu que não esconderia sua história. Hoje, com cerca de 82 mil seguidores no Instagram, ele compartilha conteúdos sobre viver com HIV — e recebe diariamente mensagens de pessoas que encontram ali um espaço de acolhimento.

“Toda vez que posto um vídeo sobre HIV é muito bonito ver a rede de apoio que se forma.”

Muitas pessoas chegam até ele para compartilhar experiências. “Tem gente que manda mensagem dizendo: ‘Acabei de descobrir e não estou conseguindo lidar’. Outros chegam pela história: ‘Você foi Testemunha de Jeová. Como é hoje falar com tanta liberdade na internet?’.”

Para Renato, esse diálogo cria conexões inesperadas. “Acho que isso vai criando conexões muito legais.”

Ressignificar o diagnóstico

Cinco anos após descobrir que vive com HIV, Renato diz que a experiência mudou profundamente sua relação com a própria saúde. “Hoje eu olho com muito mais carinho para a minha saúde.”

Ele conta que sempre cuidou da alimentação e manteve uma rotina de exercícios físicos. Ainda assim, o diagnóstico provocou uma transformação mais profunda — não apenas na forma de cuidar do corpo, mas também na maneira como passou a olhar para si mesmo. “Eu acho que o HIV me trouxe essa lição: olhar para a saúde e se empoderar disso.”

Hoje, ao falar publicamente sobre o diagnóstico, Renato tenta fazer com que outras pessoas não precisem enfrentar o medo ou o silêncio que ainda cercam o HIV.

Para ele, viver com o vírus também significou compreender que o diagnóstico não define quem ele é. “Entender que isso não diminui meu valor como ser humano, ou como sujeito em nenhuma camada.”

É dessa forma que ele resume o impacto dessa experiência em sua vida. “O HIV me trouxe muito um olhar de empoderamento.”

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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Renato Morelli

Instragram: @orenatomorelli

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