A aprovação do lenacapavir injetável pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), anunciada na última segunda-feira (12), representa um marco no campo da prevenção do HIV no Brasil. Com alta eficácia e apenas duas aplicações ao ano, o medicamento inaugura uma nova geração de profilaxia pré-exposição (PrEP) de longa duração, capaz de enfrentar um dos principais desafios da prevenção combinada: a adesão ao uso contínuo de comprimidos orais. Para a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), a decisão da Anvisa abre caminho para uma estratégia mais eficaz e inovadora, mas o acesso desigual ameaça transformar esse avanço científico em mais um exemplo de exclusão.
Em posicionamento público, o MSF destaca que o lenacapavir tem potencial para ampliar significativamente a proteção contra o HIV, especialmente entre populações que enfrentam barreiras estruturais para manter o uso diário da PrEP oral. A formulação injetável semestral reduz falhas relacionadas ao esquecimento, ao estigma e às dificuldades de acesso regular aos serviços de saúde — fatores que impactam de forma desproporcional pessoas em situação de maior vulnerabilidade social.
No entanto, a organização alerta que, nas condições atuais, esse benefício está distante de quem mais precisa. O principal obstáculo é o preço. A fabricante do medicamento, a farmacêutica Gilead Sciences, anunciou nos Estados Unidos um valor de tabela superior a US$ 28 mil por pessoa ao ano — o equivalente a cerca de R$ 155 mil. Para o MSF, trata-se de um custo incompatível com sistemas públicos de saúde e absolutamente inacessível para a maioria da população mundial.
“O acesso ao lenacapavir, da forma como está hoje, é impossível”, aponta a organização, ao lembrar que o desenvolvimento do medicamento contou com a participação expressiva de instituições, pesquisadores e voluntários brasileiros nos ensaios clínicos. “É inaceitável que um fármaco construído com esforço coletivo e participação do Sul Global esteja disponível apenas para quem pode pagar preços exorbitantes”, reforça o MSF.
A crítica ganha ainda mais força diante de evidências científicas que indicam que o alto preço não se justifica. Um artigo publicado na revista The Lancet HIV estima que versões genéricas do lenacapavir poderiam ser produzidas por valores entre US$ 35 e US$ 46 por pessoa ao ano — algo entre R$ 192 e R$ 253. A diferença expõe, segundo especialistas e organizações da sociedade civil, o peso das patentes e das estratégias comerciais na manutenção de desigualdades no acesso a tecnologias de saúde.
Para o MSF, a aprovação regulatória é apenas o primeiro passo de uma longa jornada. O desafio agora é garantir que o medicamento seja incorporado de forma equitativa aos sistemas de saúde, como o Sistema Único de Saúde (SUS), e que haja transparência na definição de preços, além da ampliação da produção de genéricos. Sem isso, o lenacapavir corre o risco de se tornar uma inovação restrita a poucos países e a parcelas privilegiadas da população, contrariando os princípios da saúde como direito.
A discussão sobre o lenacapavir também reacende um debate histórico no enfrentamento do HIV/aids: quem se beneficia dos avanços científicos. Em um país que construiu uma resposta reconhecida internacionalmente, baseada no acesso universal e gratuito à prevenção e ao tratamento, a chegada de uma nova tecnologia impõe decisões políticas urgentes. Para organizações como o Médicos Sem Fronteiras, garantir o acesso amplo à PrEP de longa duração não é apenas uma questão de custo-benefício, mas de compromisso ético com a vida.
Enquanto a ciência avança, a sociedade civil, os movimentos sociais e entidades humanitárias reforçam a necessidade de mobilização para que o lenacapavir não represente apenas uma promessa no papel, mas uma ferramenta concreta na redução das infecções pelo HIV — especialmente entre aqueles que historicamente ficaram à margem das políticas de saúde.
Redação da Agência de Notícias da Aids
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