Após reeleição de Lula, movimento de luta contra a aids cobra voz nas decisões e avanços concretos na resposta à epidemia

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Lideranças de diferentes regiões do Brasil avaliam a reeleição do presidente, defendem o fortalecimento do SUS, mais investimentos na resposta ao HIV e participação efetiva da sociedade civil nas decisões do quarto mandato

As urnas garantiram a Luiz Inácio Lula da Silva mais quatro anos à frente da Presidência da República. Para o movimento brasileiro de luta contra a aids, no entanto, a vitória eleitoral é também o ponto de partida para uma nova agenda de reivindicações. Depois de décadas de mobilização por acesso universal ao tratamento, prevenção e direitos humanos, ativistas defendem que o próximo mandato seja marcado não apenas pela continuidade das políticas públicas, mas por avanços capazes de transformar a realidade de quem vive com HIV e das populações mais afetadas pela epidemia.

Reeleito neste domingo (25), com 51,79% dos votos válidos, Lula chegará ao quarto mandato diante de desafios que vão da ampliação do acesso às novas tecnologias de prevenção ao enfrentamento das desigualdades que ainda determinam quem consegue se proteger, receber um diagnóstico oportuno e permanecer em tratamento. Para a sociedade civil, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e a garantia de financiamento às organizações comunitárias estão entre as condições fundamentais para que o país avance na resposta ao HIV e à aids.

Em diferentes regiões do Brasil, lideranças ouvidas pela Agência de Notícias da Aids reconhecem a importância da reeleição para a manutenção dos espaços de diálogo entre governo e movimentos sociais, mas também fazem cobranças. Entre elas estão a ampliação dos investimentos públicos, o fortalecimento dos serviços especializados, a incorporação de medicamentos de longa ação, o enfrentamento do estigma e da discriminação e a construção de mecanismos que assegurem participação efetiva da sociedade civil na formulação e no acompanhamento das políticas de saúde.

Os depoimentos também revelam uma preocupação compartilhada: a distância que ainda existe entre os compromissos anunciados pelo poder público e sua implementação nos territórios. Para essas lideranças, a resposta brasileira ao HIV não pode depender apenas dos avanços científicos ou da oferta de medicamentos. Ela exige políticas articuladas de combate à pobreza, ao racismo, à LGBTfobia e às diferentes formas de exclusão que dificultam o acesso à saúde.

Entre a expectativa de continuidade e a cobrança por mudanças, os ativistas apresentam propostas para os próximos quatro anos. O recado é que a experiência histórica do movimento de luta contra a aids precisa ser reconhecida não apenas nos discursos, mas também na distribuição de recursos e nos espaços onde as decisões são tomadas.

Eduardo Luiz Barbosa — representante do Grupo Pela Vidda/SP, do Mopaids e da Anaids

“A expectativa dos movimentos sociais para os próximos quatro anos é que o governo Lula fortaleça as políticas públicas de saúde, amplie os investimentos no SUS e reafirme o compromisso com os direitos humanos, a participação social e a redução das desigualdades.

O Brasil construiu uma trajetória importante na resposta ao HIV e à aids, com a oferta universal de tratamento pelo SUS e a participação histórica dos movimentos sociais. Entretanto, ainda enfrentamos desafios relacionados ao diagnóstico tardio, ao estigma, à discriminação, às desigualdades regionais e às dificuldades de acesso à prevenção e à assistência.

Defendemos que o enfrentamento ao HIV/aids, à tuberculose, às hepatites virais e às demais infecções sexualmente transmissíveis seja tratado como uma agenda prioritária de saúde pública, com financiamento adequado, metas claras e mecanismos permanentes de monitoramento.

É fundamental ampliar a prevenção combinada do HIV, garantir o acesso às novas tecnologias preventivas, fortalecer a testagem e assegurar a continuidade do tratamento. Também precisamos olhar para as pessoas que envelhecem vivendo com HIV, considerando suas necessidades de saúde integral, saúde mental, proteção social e qualidade de vida.

No enfrentamento à tuberculose, é indispensável articular diagnóstico, tratamento e proteção social, reconhecendo que a doença está diretamente relacionada às condições de vida, à pobreza, à insegurança alimentar e à falta de acesso aos serviços de saúde. Da mesma forma, precisamos avançar na eliminação das hepatites virais e no controle das demais ISTs, ampliando a vacinação, a testagem, o tratamento e a educação em saúde.

Outra questão central é o fortalecimento das organizações da sociedade civil. Os movimentos sociais não podem ser chamados apenas para participar de reuniões ou validar decisões já tomadas. Precisam ter voz, poder de incidência e condições materiais para desenvolver seu trabalho nos territórios. Isso exige financiamento público contínuo, editais acessíveis e reconhecimento do papel histórico das organizações na construção das políticas brasileiras de HIV/aids e na defesa do SUS.

Esperamos que o próximo período seja marcado pelo fortalecimento da participação social, pelo diálogo permanente com os movimentos e pela valorização das pessoas vivendo com HIV, das populações LGBTQIAPN+, das pessoas em situação de vulnerabilidade e de todas aquelas que enfrentam barreiras para acessar seus direitos.

Nossa principal proposta é estabelecer uma agenda nacional de compromissos para os próximos quatro anos, envolvendo governo federal, estados, municípios, universidades, serviços de saúde e organizações da sociedade civil, com metas, recursos definidos e transparência nos resultados.

Não haverá eliminação do HIV, da aids, da tuberculose, das hepatites virais e das demais ISTs sem investimento público, justiça social e participação comunitária. A sociedade civil precisa estar no centro das decisões, porque quem vive a realidade dos territórios também precisa participar da construção das soluções.”

Thiago Rodrigues — representante político da RNP+ Brasil

“Para os próximos quatro anos, nossa expectativa é que o governo Lula avance na consolidação de uma política de Estado, com financiamento adequado, metas públicas, transparência, articulação entre União, estados e municípios e participação social permanente. Precisamos transformar compromissos em resultados concretos, reduzindo desigualdades, ampliando o acesso aos serviços e garantindo que nenhuma pessoa seja deixada para trás.

A reeleição, por si só, não resolve os desafios históricos do país. Ela renova a responsabilidade de governar para toda a população, especialmente para aqueles que mais dependem das políticas públicas para ter seus direitos assegurados. Seguiremos vigilantes, propositivos e mobilizados, reconhecendo os avanços, cobrando o que ainda precisa ser feito e defendendo a democracia e o SUS.

Também esperamos que o governo federal fortaleça o diálogo com os movimentos sociais, garantindo participação efetiva na formulação, no monitoramento e na avaliação das políticas públicas. A experiência acumulada pelas organizações comunitárias precisa ser reconhecida como parte estratégica da resposta brasileira ao HIV/aids. Não queremos ser ouvidos apenas em momentos de consulta: queremos participar das decisões, acompanhar a execução dos recursos e contribuir para que as políticas cheguem a quem mais precisa.

Outro desafio central é enfrentar o estigma e a discriminação relacionados ao HIV, que continuam produzindo sofrimento, afastando pessoas dos serviços de saúde e limitando oportunidades de trabalho e participação social. A resposta à aids precisa dialogar com as políticas de combate ao racismo, à LGBTfobia e a todas as formas de violência e exclusão. Não é possível construir uma resposta efetiva à epidemia sem considerar as desigualdades sociais que atingem, de maneira desproporcional, pessoas negras, LGBTQIA+, mulheres, jovens, pessoas em situação de vulnerabilidade e comunidades historicamente invisibilizadas.”

Jaciara Pereira — representante regional do Nordeste no Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP)

“A reeleição do presidente Lula representa uma vitória muito importante para nós, enquanto movimentos sociais de luta contra a aids, pois fortalece a continuidade dos nossos espaços de diálogo, discussões e advocacy em defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV e aids. Temos comissões importantes no Conselho Nacional e no Ministério da Saúde, onde a sociedade civil participa ativamente da construção e do fortalecimento das políticas públicas de HIV e aids no Brasil.

Por isso, considero essa vitória fundamental, pois não representa apenas a reeleição de um presidente, mas também a conquista de todo o povo brasileiro e dos movimentos sociais que lutam diariamente por direitos, dignidade, acesso à saúde e uma sociedade mais justa e sem preconceitos.”

Rodrigo Pinheiro — presidente do Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo

“Os desafios continuam sendo os mesmos, porque a gente não conseguiu avançar em vários pontos na resposta ao enfrentamento da epidemia.

A gente precisa avançar na resposta do Brasil Saudável. O Brasil Saudável precisa mostrar a que veio, realmente, de fato, implementando as políticas públicas. A gente precisa fortalecer a sociedade civil por meio de projetos.

No ano passado, houve dois editais, mas foram 35 ONGs contempladas em nível nacional. A gente tem mais de 600 organizações não governamentais no Brasil. Então, foram cerca de 5% das organizações não governamentais contempladas.

A gente precisa trabalhar por repasses maiores, editais com mais recursos para a sociedade civil, para que ela possa fazer a sua parte na resposta à epidemia. A questão do fortalecimento dos serviços especializados também. A gente precisa fortalecer os serviços especializados para ter uma resposta melhor nas bases, dentro dos municípios, e ampliar a capacidade de enfrentamento.

A questão da incorporação dos medicamentos de longa ação. Como se dá, de fato, essa incorporação? O governo vai continuar trabalhando na negociação com as duas farmacêuticas? As duas farmacêuticas não querem negociar.

A gente vai trabalhar essa questão com o governo. Acho que é uma grande oportunidade para o governo, para o presidente Lula, decretar o licenciamento compulsório. Os desafios continuam sendo os mesmos. A gente precisa fazer com que isso aconteça.”

Carla Almeida — presidente do Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (GAPA/RS) e conselheira do Fórum de ONG/Aids do Rio Grande do Sul

“A vitória do presidente Lula é histórica, fundamental não só para a garantia da democracia no Brasil, mas também com reflexos na geopolítica internacional. Agora, é importante que nós percebamos que esta é uma vitória do povo brasileiro, construída a partir do trinômio rede-rua-território, em que a sociedade civil teve um papel central neste processo.

No discurso da vitória, o presidente Lula já aponta um dos nossos principais anseios: uma participação efetiva da sociedade civil nos processos de definição das políticas públicas. Além disso, nossa expectativa é que realmente tenhamos mecanismos que garantam a participação social efetiva e a valorização e o reconhecimento da resposta comunitária.

Ainda em relação à epidemia de aids, nós esperamos avanços importantes, especialmente no fortalecimento do SUS, na incorporação de novas tecnologias biomédicas — especialmente no campo da prevenção — e no compromisso inexorável com o enfrentamento dos determinantes sociais em saúde!

Precisamos de ações articuladas de enfrentamento à pobreza, ao racismo, ao machismo e à LGBTQIfobia. O Programa Brasil Saudável precisa ser prioridade desta gestão. É necessário rever seu modelo de governança e construir ações que se reflitam no cotidiano dos territórios.

Será um governo com muitos desafios, que enfrentará um Congresso extremamente conservador e reacionário, o que exigirá não só uma imensa capacidade de articulação política, mas também uma mobilização social constante.

Que a quarta gestão do Lula seja realmente transformadora e comprometida com políticas de reparação histórica e justiça social!”

Janailson Lobo Girón, diretor de Comunicação da Coalizão +Brasil e líder do Movimento Paraense de Pessoas Vivendo e Convivendo com o HIV/Aids e outras Patologias com Determinação Social

“A democracia não se encerra com a apuração dos votos; é a partir dela que se renova a responsabilidade coletiva com o futuro do Brasil. Como diretor de Comunicação da Coalizão +Brasil, considero fundamental que este novo ciclo seja marcado pelo fortalecimento do SUS e do SUAS, pela defesa dos direitos humanos, pela redução das desigualdades e pela participação efetiva da sociedade civil na construção e no acompanhamento das políticas públicas. Nosso compromisso é contribuir com propostas, promover o diálogo institucional e exercer o controle social com autonomia, responsabilidade e capacidade crítica. Apoiar uma agenda de transformação social não significa abrir mão da independência, mas assumir o compromisso de colaborar, avaliar e cobrar resultados concretos. Afinal, nenhuma mudança estrutural se sustenta sem a participação de quem vive os desafios nos territórios e conhece de perto as necessidades da população. O Brasil precisa de políticas públicas fortes, instituições democráticas e uma sociedade civil organizada, plural e atuante. É nessa direção que a Coalizão +Brasil seguirá trabalhando: de mãos dadas, em defesa da dignidade humana e de um país mais justo, inclusivo e democrático.”

Evalcilene Santos — mulher vivendo com HIV, afro-indígena, amazônida e ativista dos direitos humanos

“Como mulher vivendo com HIV, espero que o presidente Lula promova políticas públicas que nos enxerguem, nos escutem e nos coloquem no centro das decisões. Por muito tempo, nossos direitos foram negados, nossos corpos não foram protegidos e nossas experiências foram invisibilizadas. Não queremos políticas construídas sem a nossa participação. Queremos respeito, dignidade, proteção e o direito de sermos protagonistas das decisões que impactam nossas vidas.

Como mulher afro-indígena, amazônida, ativista e militante do movimento de HIV e aids, da redução de danos, da saúde mental, da população LGBTQIA+, da luta dos povos indígenas, da população em situação de rua, das pessoas que usam álcool e outras substâncias, da população negra e de todas as pessoas em situação de vulnerabilidade, dediquei minha caminhada e minha participação nesta campanha eleitoral à defesa da democracia e da vida do povo brasileiro.

Queremos ser ouvidas e ouvidos, reconhecidas e reconhecidos, com respeito e compromisso! Nossas respostas existem e precisam ser consideradas. Precisamos de pesquisas, investimentos, editais públicos que fortaleçam as organizações dos movimentos sociais e apoio para que suas representações possam exercer seu papel nos espaços de participação e na construção, no acompanhamento e no controle social das políticas públicas.

Reivindico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governo brasileiro, ao longo dos quatro anos de mandato, compromisso efetivo com o fortalecimento das políticas de HIV e aids, hepatites virais, tuberculose, saúde mental e redução de danos, garantindo prevenção, diagnóstico, tratamento, cuidado e proteção social, especialmente para as populações historicamente invisibilizadas e vulnerabilizadas.

Estamos aqui como parceiras e parceiros na construção de políticas públicas que defendam a vida. Queremos diálogo permanente, participação social e compromisso concreto para que o Brasil volte a ser exemplo mundial de políticas de HIV e aids, com respostas baseadas nos direitos humanos, na ciência, na equidade e na dignidade de todas as pessoas.

E, como amazônida e amazonense, exijo que o nosso território seja visto para além de suas riquezas naturais. A Amazônia precisa de políticas públicas que cheguem às comunidades, respeitem os povos indígenas, considerem nossas realidades e garantam acesso à saúde, à educação, à assistência social e aos direitos humanos. Não podemos continuar esquecidos enquanto nossas populações enfrentam tantas desigualdades.

Não queremos ser lembradas apenas em discursos ou campanhas. Queremos estar presentes nas decisões, nos orçamentos, nos editais, nas pesquisas e nos espaços de poder.

Que o presidente Lula, neste mandato histórico, como ele mesmo afirmou — e eu fui uma das pessoas que lutaram por sua eleição —, lute conosco pela vida, pelos direitos humanos, pela democracia e por uma Amazônia onde ninguém seja invisível.”

Redação da Agência de Notícias da Aids

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