
O Centrão, grupo liderado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), quer que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abra espaço na Esplanada dos Ministérios para acomodar integrantes de partidos como PP, União Brasil e Republicanos. Em troca, garantem apoio as pautas do governo no Congresso Nacional.
Eles querem, por exemplo, o Ministério da Saúde, hoje ocupado pela ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade, que não tem filiação partidária e dá à pasta caráter técnico.
Em processo de ‘fritura’ pelo Centrão, a ministra Nísia Trindade negou que haja um plano de mudança de cargos na pasta dentro do governo federal e reforçou ter recebido “total apoio” do presidente Lula. As declarações foram dadas em conversa com jornalistas no Seminário Internacional de Atenção Especializada à Saúde na última segunda-feira (26).
Na visão da ministra, o que existe é um “movimento” que critica a condução dela dentro do órgão. Nísia evitou, porém, citar nomes ou atribuir a crise ao Centrão. O interesse desses partidos pela pasta se dá porque a Saúde detém o maior orçamento da Esplanada dos Ministérios em 2023.
Apesar do apetite do Centrão, Lula não colocou o cargo da ministra à disposição para negociar. O assunto tem tirado o sono de ativistas que lutam contra aids e a favor dos direitos humanos no país. Os militantes consideram que Nísia tem feito um bom trabalho nestes primeiros seis meses de governo, inclusive com a reconstrução da política de aids e o fortalecimento do SUS. “A gestão da ministra vem apoiando e realizando ações voltadas para prevenção ao HIV/aids e outras ISTs para a população das travestis e pessoas trans que não estavam acontecendo no governo anterior.”
“É muito importante termos hoje no Ministério da Saúde uma pessoa da capacidade e da forma de atuação junto aos vários seguimentos que atuam no SUS. A dra. Nísia Trindade tem um grande potencial de conhecimento e ao mesmo tempo sempre se mantém atenta às demandas e necessidades de cada seguimento da população.”
Confira a seguir:
Evalcilene dos Santos, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, núcleo Amazonas: “Estamos em um momento de reconstrução e credibilidade da ciência em nosso país, nós já vivemos tantos tormentos, tantas retiradas de direitos. Hoje, temos a frente do Ministério da Saúde a primeira mulher, essa pasta é tão importante, por isso, precisamos reforçar e valorizar a ciência. A ministra Nísia chegou ao ministério depois de comandar um importante núcleo de pesquisa, que é a Fiocruz. Temos que dar importância ao que já vem ocorrendo nesses dias que estamos iniciando um novo olhar, um novo momento, uma nova perspectiva de vida. As pessoas vivendo com HIV/aids sofreram muito, foram muitas retiradas de direitos nesses quatro anos de mandato em que as pessoas foram chamadas de várias coisas, menos de pessoas, nunca como seres humanos. Precisamos valorizar a vida, e a vida só é valorizada quando valorizamos também pessoas que são capazes de estar à frente de um ministério tão importante. Nosso Programa de IST/aids, Hepatites Virais e Tuberculose e o movimento aids se apagaram, não porque não estávamos na luta, mas porque quiseram nos calar, não conseguiram. Estamos aqui com voz ativa, perdemos muitos por conta da desvalorização da vida, mas estamos lutando e conquistando muitas coisas agora no início desse mandato. É o início da retomada de conquistas, valorização das pesquisas, da vida das pessoas, das pessoas como seres humanos e de garantia de direitos. A ministra é uma pessoa que está capacitada, que provou que está à frente de muitas coisas, precisa ser respaldada e precisa de reforço para ela seguir dando continuidade em todas as questões que vem ocorrendo no nosso Brasil.”
Rafaelly Wiest, mulher trans, consultora em Diversidade & Inclusão e diretora na Aliança Nacional LGBTI+: “Acredito que é importante reforçar que a gestão da ministra vem apoiando e realizando ações voltadas para prevenção ao HIV/aids e outras ISTs para a população das travestis e pessoas trans que não estavam acontecendo no governo anterior. Estas ações são importantes porque estas populações estão vulnerabilizadas e com ausência de políticas públicas de prevenção, inclusive por falta de acesso aos serviços. A gestão da Nísia está trabalhando para visibilizar a resposta nacional de enfrentamento ao HIV/aids que foi “destruída” no governo anterior. É importante a permanência da ministra Nísia, pois ela como defensora da ciência vai se comprometer em colocar de volta o site da aids, que foi uma referência para o mundo em termos de socializar evidências sobre o HIV/aids, a Tuberculose, Hepatites Virais e a IST. Nós da Aliança temos muito orgulho da atuação da ministra e para além da política de HIV, aids e IST, a ministra vem atuando com revisões na política nacional de saúde integral LGBTI+ e a revisão da política de saúde de pessoas trans.”
Eduardo Barbosa, coordenador do Movimento Paulistano de Luta Contra Aids: “O Ministério da Saúde foi bastante fragilizado nos últimos quatro anos, mas já vinha sofrendo desgaste desde o final do governo Temer. Para nós, movimento social, é muito importante termos hoje no Ministério da Saúde uma pessoa da capacidade e da forma de atuação junto aos vários seguimentos que atuam no SUS. A dra. Nísia Trindade, que veio da Fiocruz, tem um grande potencial de conhecimento e ao mesmo tempo sempre se mantém atenta às demandas e necessidades de cada seguimento da população. Um dos atos que marcaram o início dessa nova gestão foi a retomada daquilo que estava sendo quase destruído, que é o antigo Departamento de HIV/aids e Hepatites Virais; então, com a retomada e com o DATHI (Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis), sendo fortalecido é muito importante que essas ações continuem. A gente não pode ter no Ministério da Saúde, uma pasta tão importante, e nos vários setores do ministério, mudanças constantes, é preciso haver uma continuidade e seguir um plano. Dra. Nísia Trindade no Ministério da Saúde, Dra. Ethel Maciel na Secretaria de Vigilância em Saúde e Dr. Draurio Barreira com seus assessores diretos dentro do DATHI são fundamentais para que a gente retome tudo aquilo que perdemos ao longo dos últimos anos.”
Márcia Leão, do Fórum de ONG/Aids do Rio Grande do Sul: “Quando soubemos da indicação da ministra Nísia para o Ministério da Saúde comemoramos que após um período de afastamento da ciência, o Ministério tinha retomado o prumo. Mantermos a ministra Nísia é confirmar a importância da ciência, do SUS e do reconhecimento da saúde como uma agenda forte, é importante para o governo brasileiro. A ministra conseguiu recolocar o Brasil em diversas agendas, incluindo as internacionais, trazer para o destaque pautas como a do HIV, aids, Hepatites Virais e Tuberculose e acima de tudo, tem valorizado o SUS em todos os seus componentes.”
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Redação da Agência de Notícias da Aids



