Antirretrovirais, 30 anos: para onde vamos? destaca Outra Saúde

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Há três décadas, introdução de medicamentos de alta eficácia revolucionou o tratamento do HIV. Mas desigualdade no acesso e monopólios corporativos persistem no mundo. Exigir a cura é caminho para romper com “arquitetura da cronicidade”, defende ativista

Em 1996, o tratamento do HIV/aids mudou para sempre após a introdução da terapia tripla antirretroviral. Altamente eficaz, esta terapêutica assegura que o vírus fique em níveis indetectáveis e impede sua transmissão — além de aumentar a expectativa de vida e o bem-estar das pessoas que vivem com HIV. A data é particularmente marcante no Brasil, já que naquele mesmo ano foi promulgada a Lei nº 9313/96, que assegura o tratamento universal e gratuito e a distribuição de medicamentos de HIV/aids, uma medida que se tornou exemplo internacional.

Em reflexão que marca estes trinta anos e que Outra Saúde publica a seguir, o ativista argentino José María di Bello (Fundación GEP/RedLAM) lança o questionamento: mas como superar os altos preços, os problemas de acesso e a lógica de consumo eterno de medicamentos que se tornaram mercadorias na mão de grandes corporações farmacêuticas? Em sua visão, exigir cada vez mais claramente que a ciência se dedique à busca da cura do HIV é o caminho para romper com estes ciclos. Entendemos que se trata de uma importante provocação. Boa leitura!

Em reflexão que marca estes trinta anos e que Outra Saúde publica a seguir, o ativista argentino José María di Bello (Fundación GEP/RedLAM) lança o questionamento: mas como superar os altos preços, os problemas de acesso e a lógica de consumo eterno de medicamentos que se tornaram mercadorias na mão de grandes corporações farmacêuticas? Em sua visão, exigir cada vez mais claramente que a ciência se dedique à busca da cura do HIV é o caminho para romper com estes ciclos. Entendemos que se trata de uma importante provocação. Boa leitura!

Este ano, completam-se trinta anos da introdução da Terapia Antirretroviral Altamente Ativa (HAART, na sigla em inglês). Trinta anos desde que a história do HIV mudou para sempre. Trinta anos desde que deixamos de receber diagnósticos que, na prática, eram sentenças de morte. Trinta anos desde que a ciência demonstrou que podia salvar vidas.

Trinta anos depois, estou vivo. Estamos vivos. E isso merece ser celebrado, mas também merece ser pensado. Porque se é verdade que o HAART nos deu vida, também revelou algo que poucas vezes se fala em voz alta: a cura não chega porque o poder corporativo não quer.

Três décadas da terapia antirretroviral também significam três décadas de um modelo de negócios que exige que sigamos sendo pacientes crônicos, consumidores permanentes de medicamentos convertidos em mercadorias que alimentam lucros astronômicos e sustentam monopólios que nenhum governo parece disposto a enfrentar.

A arquitetura da cronicidade está desenhada para que os tratamentos sejam eternos, os preços sejam abusivos, os monopólios sejam inquestionáveis e a cura seja sempre uma promessa distante. Não se trata de casualidade, nem de erro e muito menos de um problema técnico. É uma decisão política.

Nesses trinta anos, o mercado do HIV não apenas se manteve, como cresceu. A PrEP é uma ferramenta biomédica efetiva, de fato. Mas também é uma estratégia corporativa para ampliar a base de consumidores, porque já não bastam as 40 milhões de pessoas no mundo que vivem com o HIV. O mercado precisa de centenas de milhões ou mesmo bilhões de compradores. Assim, surge a perversa lógica de “consumir antirretrovirais para prevenir o consumo de antirretrovirais”, como diria Paul Preciado.

Enquanto isso, quase 10 milhões de pessoas com HIV seguem sem acesso ao tratamento e cerca de 600 mil morrem todos os anos. Já sabemos que “indetectável=intransmissível” e que o tratamento como prevenção (TasP) é a melhor prevenção – mas também sabemos que a prevenção definitiva é a cura.

Mesmo assim, dedicamos tempo, recurso e ativismo para garantir antirretrovirais a pessoas que não tem HIV, enquanto milhões que vivem com o vírus seguem sem acesso a tratamento. A quem serve essa agenda? Às comunidades ou às corporações? Trinta anos de antirretrovirais, zero anos de cura. Coincidência? Não. Poder.

A pergunta que deveríamos nos fazer é simples: se a ciência pôde desenvolver tratamentos que aumentaram em décadas nossa expectativa de vida, por que não pôde – ou não quis – desenvolver a cura? A resposta é incômoda: porque a cura rompe com o modelo de negócios. Ela redistribui poder, acaba com a dependência, não é lucrativa. Os últimos trinta anos nos ensinam que a ciência pode salvar vidas, mas também mostram que o mercado pode impedir que a ciência avance até onde mais precisamos dela.

O mais doloroso é que parte do ativismo global tenha sido colonizado por esta arquitetura corporativa. Repetimos suas prioridades, defendemos suas inovações, exigimos acesso a seus produtos sem conquistar seus monopólios. Nos mobilizamos para expandir mercados, não para conquistar direitos.

Um exemplo claro é a obsessão por exigir o acesso universal ao lenacapavir, enquanto milhões de pessoas com HIV seguem sem acesso a tratamentos básicos.

Trata-se de um problema de captura política e não de culpa individual, mas é preciso romper com esse ciclo. Se há algo que essas três décadas nos ensinam, é que a vida deve ser defendida não apenas com medicamentos, mas com poder.

Precisamos de um ativismo que exija acesso universal ao tratamento para todas as pessoas com HIV, denuncie a arquitetura da cronicidade, freie a expansão corporativa disfarçada de prevenção, recupere o financiamento para a mobilização comunitária e, principalmente, defenda a cura como horizonte político, não como slogan vazio.

A experiência mostra que a mobilização, bem além de um acessório técnico, pode ser uma ferramenta de distribuição de poder. Quando as comunidades produzem dados, monitoramento, exigem transparência e definem agendas, as corporações perdem o controle da pauta e a cura pode deixar de ser impossível.

Trinta anos após a introdução da terapia antirretroviral de alta atividade, estamos vivos. Mas queremos mais do que apenas sobreviver. Celebro a vida, a resistência e a ciência que nos permitiram chegar até aqui, mas também gostaria de dizer claramente que não queremos ser consumidores eternos. Desejamos ser livres; e a liberdade, nesta luta, se chama Cura.

Não podemos aceitar mais trinta anos de cronicidade imposta. É hora de disputar o poder, descolonizar o ativismo e exigir o que o mercado nunca nos dará voluntariamente: a cura, o acesso universal ao tratamento e a soberania sanitária de nossas comunidades.

Seguiremos exigindo a cura!

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