Ano novo e as promessas de vida nova: como cada um  que trabalha contra o crescimento do HIV lida com os votos feitos na virada

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 O dicionário nos informa que “uma promessa”, além de ser um substantivo feminino, é   “ o ato de declarar que se vai fazer algo, assumindo um compromisso com outra pessoa ou grupo, ou consigo mesmo. Quem faz uma promessa se compromete a realizar determinada ação no futuro, como forma de demonstrar responsabilidade, intenção ou boa-fé’

Ao prometer algo, a pessoa cria uma expectativa  para si mesma de que cumprirá o que foi dito, prometido ou acordado.  Elas, as promessas podem ser feitas oralmente ou mesmo escritas e até registradas  oficialmente em cartórios.  

 É  comum no encerramento de cada ano e início de outro, que as pessoas façam promessas de mudanças de comportamento que são importantes para reorganizar a vida: alguns prometem parar  de fumar, outros prometem iniciar atividades físicas. Tem os que  decidem tentar ser mais pacientes ou tolerantes e aqueles que simplesmente não se arriscam a prometer nada, porque sabem que não irão cumprir. Tem também  os mais práticos  que fazem promessas menos complexas,  para   poderem  honrar seu voto. Mas nem sempre conseguimos cumprir  a promessa ou promessas feitas no início de um novo ciclo.

O psicólogo  João Meirelles comenta que cada situação tem seu tempo para acontecer e que este fato deve ser levado em conta quando fazemos uma promessa, mas não conseguimos realizá-la.

 

“ Nem sempre conseguimos uma transformação de comportamento no tempo que gostaríamos que acontecesse. Nós somos aquém do que gostaríamos de ser e de quem gostaríamos de ser.. Quero dizer  com isso que  quando a gente faz uma promessa e  não está conseguindo obter o que gostaríamos que acontecesse é porque  pensamos  que conseguiriamos  caminhar mais. Pensamos que  somos mais  do que gostaríamos de ser . Então  tem que lidar com a frustração e ter  paciência para compreender  e assimilar o aprendizado sobre o tempo das coisas: cada coisa tem seu tempo para acontecer.”

Conversamos com ativistas e profissionais de saúde, pessoas que cotidianamente trabalham no enfrentamento do HIV, estigma e preconceito para saber como cada um deles lida com as conhecidas  promessas de virada do ano. “Você costuma cumprir suas promessas feitas no primeiro dia do Ano  Novo? “

 

Dra. Zarifa Cury, infectologista

 

 

” Eu Costumo sim .Confesso que faço promessas genéricas como concentrar-me na organização do horário de trabalho mas essa, também tenho que  confessar,  nunca consigo cumprir.  Também prometo cuidar da atividade física,concentrar-me em uma alimentação mais saudável  e compreender mais o outro lado de uma questão, por exemplo. “

 

 

Jenice Pizão, ativista, integrante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas

 

” Tenho sempre a esperança de cumprir minhas promessas feitas na virada do ano, mas como a maioria das pessoas, nem sempre consigo. Já fiquei bem irritada de prometer pra mim mesma e não realizar e, só por raiva, realizei a promessa  e consegui:  parei de fumar de vez, por pura irritação. As minhas “pretensões de” promessas pessoais para 2026 são diversas: controlar meu TDHA e  organizar minha biblioteca, armários e guarda-roupa. A vida fica mais fácil. Quero ter mais tempo livre pra viajar, curtir a natureza, estar com as amigas e partilhar a vida com quem tenho apreço. Porém, tenho 2 grandes objetivos para esse ano de 2026:conseguir o licenciamento compulsório de medicamentos pra combater o HIV com menos efeitos colaterais e com maior facilidade para serem utilizados.   Não menos importante, sensibilizar parceiros do movimento social, gestores e  parlamentares para dar o nome da Lei 9313/96  ( Lei Sarney que instituíu a obrigatoriedade da dispensação gratuíta dos medicamentos que combatem os efeitos do HIV nas pessoas vivendo  no Brasil,  promulgada a partir de 13 de novembro de  1996)  de “Nair Brito”, afinal foi ela a 1ª pessoa e mulher vivendo com HIV, já  em um  quadro de AIDS, que lutou na justiça para conseguir os medicamentos, o que universalizou o acesso a todas as PVHA  do Brasil aos medicamentos.

 

 

Eduardo Barbosa, coordenador do Movimento Paulistano de Luta Contra Aids

“Rsrs , olha, as vezes consigo cumprir. Geralmente, costumamos fazer um balanço no final do ano de tudo o que vivemos e também rever os propósitos que definimos para o ano futuro. A agitação da vida, por vezes nos fazem esquecer daquilo que definimos como prioritário, particularmente procuro voltar naquilo que me determinei.  Ano passado me propus a cuidar mais de minha saúde do meu bem estar e creio que consegui cumprir em pelo  menos 80% de tempo. Também  prometi a mim mesmo diminuir  meu ritmo de trabalho mas isto ainda não alcancei. Fica como meta para 2026!”.

 

Dra. Maria Clara Gianna, médica

“Acho que eu não tenho feito muitas promessas de Ano Novo. Nos  últimos dias do ano acabo fazendo um balanço interno de como foi o ano. Hoje procuro ter respeito pela travessia dos 365 dias do ano, sem muita culpa ou cobrança. Sem promessas mas sempre com muitos planos”.

 

Regina Silva, psicóloga e consteladora

 

 

 

 

 

 

 

“Na maioria das vezes, as promessas não fracassam por falta de vontade. Elas fracassam por falta de estrutura emocional. A maioria das pessoas e dos movimentos sociais promete a partir do desejo, não da realidade interna.”

“Prometem porque querem mudar, querem agradar, querem pertencer ou provar algo. Mas elas esquecem de checar se têm energia, maturidade emocional e clareza para sustentar aquilo no tempo. Ou seja, cumprir uma promessa exige três coisas que quase ninguém foi ensinado a desenvolver”.

“Primeiro, o autoconhecimento, saber quem eu sou hoje e não quem eu gostaria de parecer. Ou seja, entender o que realmente é importante para mim e se aquilo realmente é uma promessa cara ou barata. A promessa cara é aquilo que não tem a ver comigo e que normalmente eu acabo não cumprindo”.

“A barata é aquilo que eu vou fazer de tudo para cumprir. Coerência emocional, alinhar o que eu sinto com o que eu decido. Muitas vezes nós temos uma incongruência entre o que eu estou sentindo emocionalmente e o que eu decido racionalmente”.

“E estrutura prática, que é transformar a intenção em pequenos compromissos possíveis. Ou seja, para se chegar até a porta, eu tenho que caminhar até a porta”.

 

Renata Souza, ativista, integrante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas

“Em parte, sim. Algumas promessas eu consigo cumprir, especialmente aquelas que dependem mais de constância e organização. Outras acabam sendo adiadas, não por falta de vontade, mas porque a vida impõe prioridades, imprevistos e limites. Aprendi que o mais importante do que cumprir tudo no tempo ideal é não desistir do que faz sentido para mim e seguir retomando sempre que possível.”

 

Rubens Oliveira Duda, presidente sociedade Padre Costanzo dalbesio

 

 

 

 

 

 

 

 

“Entendo que mais importante do que cumprir promessas para a chegada do novo ano, é a benção que ela nos traz já em seu planejamento, quando geramos uma espécie de   combustível que nos dá forças para chegarmos até aqui”.

“Se as cumpriremos ou não é secundário, já será exitosa o exercício da reflexão, a renovação dos pensamentos, das ideias e das ações que julgamos não ter sido as melhores no ano que passou”.

“ Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e trilhar por outros caminhos, porque estes nos levam aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”, Fernando Teixeira.

Dica de entrevista

João Meirelles

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Jenice Pizao

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Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas

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Eduardo Barbosa

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Dra.Maria Clara Gianna

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Renata Souza

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