ANGOLA: ATIVISTAS ENTUSIASTAS E SOROPOSITIVOS SIGILOSOS

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5/12/2006 – 12h20

ABINDA, 4 Dezembro (PLUSNEWS) – O estigma é tão agudo em Angola que os programas de cuidados domiciliares dificilmente encontram doentes para assistirem. Dos 16 ativistas formados nesta atividade, em Cabinda, em fevereiro, apenas cinco cuidam de 12 pessoas, embora a soroprevalência na província seja de 3.2%. “As pessoas preferem ficar no silêncio e morrer em silêncio,” diz o coordenador do programa de HIV/Aids da Cruz Vermelha de Angola, Ambrósio Casal.

Nos poucos casos em que as pessoas soropositivas aceitam as visitas de ativistas, eles não vestem as camisetas e bonés brancos com a insígnia vermelha, para evitar suspeitas dos vizinhos. “A maior vergonha é ter um morto por Aids na família, porque é associado com sexo e feitiço,” explica Evaristo Lucas Kanica, coordenador de HIV/Aids da Cruz Vermelha em Cabinda, o enclave petrolífero do norte, com uma população de 350 mil pessoas.

Carga psicológica

Dos dez pacientes que o ativista José Cuabi N´Zau cuida, na cidade de Cabinda, apenas dois abriram-se com a família. Há quem esconde os anti-retrovirais numa mala, quem toma às escondidas, quem mente aos familiares e espera que o ativista assuma a mentira. Há famílias que pressionam o ativista para saber qual é a doença do parente. N´zau fala de uma mulher que não quer informar ao marido que ela e a filha são soropositivas. “É uma situação moralmente complicada para mim não avisar-lhe,” diz.

O sigilo e receio tornam-se numa carga psicológica para o cuidador. Como é único que conhece a verdade, é chamado em qualquer momento hora, mesmo à meia-noite, para atender, fazer companhia, procurar comida, levar ao hospital, o que for. Quando o doente fica deprimido, chama o ativista porque não pode conversar com os seus familiares.
Os provedores recebem 30 dólares americanos, por mês, para cuidar de dez pessoas. Na realidade, nunca conseguem desligar. Estão sempre em alerta. Não têm horário e acabam dando atenção à família inteira. “É um trabalho pesado e de grande responsabilidade” diz Kanica.

Iniciado em 2005, o programa de cuidados domiciliares de Cabinda pretende reforçar a articulação com o Centro de Testagem e Aconselhamento Voluntário (CATV), no Hospital Central, e com as igrejas católica e metodista, para estes referirem as pessoas HIV+ ao programa. “A igreja é o ponto de salvação para o povo angolano, onde falam o que não conseguem falar com a família,” explica Casal.

Kwanza Norte

A situação é bem diferente na província de Kwanza Norte. Na capital provincial, Ndalatando, 16 ativistas formados estão prontos para trabalhar, mas não têm a quem tomar conta. “As pessoas soropositivas ocultam-se nas províncias,” diz ao PlusNews, Salvador João Zimba, secretário provincial da Cruz Vermelha. Nenhum soropositivo já tornou público o seu estado na província.
“A nossa preocupação é ir ao encontro daqueles que vivem com HIV, mas a Direção da Saúde não facilita,” conta Zimba. O único CATV de Ndalatando abriu há dois meses e ainda persiste muito receio entre as pessoas. No Dondo, 180 quilômetros de Ndalatando, a história é a mesma: ativistas entusiastas e soropositivos que não se revelam.

A soroprevalência na província é de menos de um por cento, enquanto a média nacional é de quase quatro por cento, numa população de 14 milhões. O Programa Conjunto das Nações Unidas para a Aids estima que entre 100 mil a 600 mil pessoas vivem com HIV.

Novidade

Contrariamente a outros países da região, os cuidados domiciliares estão a arrancando em Angola, reflexo de uma crescente resposta à Aids, após o fim da guerra civil, em 2002.
Embora a epidemia seja jovem e a soroprevalência média relativamente baixa, o número de doentes aumenta e começa a superlotar os hospitais.

Em finais de Outubro, PlusNews testemunhou em Luanda o caso de uma empregada doméstica soropositiva em fase terminal que passou 24 horas numa cadeira de rodas, com soro, aguardando para uma cama ficar desocupada na sala de Aids do Hospital Américo Boavista.

A patroa teve que comprar todos os medicamentos, incluindo soros, agulhas, antibióticos e vitaminas. A empregada morreu três semanas mais tarde. “Nunca a médica falou com a família sobre o assunto. Era mais um ‘animal’ deitado numa cama qualquer do hospital”, conta a patroa em anonimato.

Em 2007, a Cruz Vermelha pretende ampliar o programa de cuidados às restantes 17 províncias, formar 200 cuidadores e atingir dois mil soropositivos e 14 mil membros de famílias. Este ano, a Rede Angolana das Organizações de Serviços de Sida (Anaso) formou 85 cuidadores de todas as províncias, em dois seminários, com o apoio do Fundo Global contra HIV/Sida, Tuberculose e Malária. Um terceiro seminário terá lugar em Janeiro.

A Anaso prevê “criar uma nova dinâmica e combater o estigma nas comunidades para que o portador sinta confiança na família e na comunidade e assuma a sua condição”, diz o seu secretário-geral, António Coelho. Até lá, cuidadores e pacientes continuarão a partilhar e guardar segredos.

Fonte: https://www.plusnews.org/pt

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