América Latina: populações enfrentam problemas comuns na saúde em países da região, destaca O Globo

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Problemas de financiamento tanto no setor público quanto no privado, que afetam a qualidade dos serviços, longos atrasos nas consultas, médicos mal remunerados — resultando em protestos sindicais e greves — são alguns dos problemas comuns nos sistemas de saúde da América Latina, configurando um panorama preocupante e repleto de incertezas para o futuro.

Na maioria dos países da região, coexistem os sistemas público e privado, ambos sujeitos aos altos e baixos políticos e às crises econômicas recorrentes. Em muitos casos, foi estabelecida uma articulação entre os setores para suprir as deficiências.

No México, convivem três “subsistemas”: seguridade social, serviços de saúde pública para pessoas sem seguridade social e o setor privado. Há problemas de financiamento, consultas médicas costumam ser marcadas com meses de atraso, chegando, em casos extremos, a um ano, devido à falta de médicos e enfermeiros no setor público. Três em cada dez mexicanos não têm acesso a serviços de saúde, e apenas 72% da população conta com cobertura básica, o índice mais baixo entre os 38 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Já na Venezuela, cerca de 80% da população depende do sistema público, enquanto os 20% restantes utilizam serviços privados. Nos últimos anos, a crise econômica afetou gravemente ambos os setores, com uma notável deterioração dos serviços.

Na Argentina, coexistem os setores público, privado e de seguridade social, que incluem sindicatos, PAMI (para aposentados e pensionistas), as universidades nacionais, o Poder Legislativo e o Poder Judiciário. No setor público, o atendimento é gratuito, enquanto no privado ou na seguridade social há coparticipação. Entre as principais causas da crise do sistema argentino, estão a incorporação de novas tecnologias sem avaliação técnica de custo-efetividade, a atualização da cesta de serviços básicos e as decisões judiciais de pacientes.

O sistema de saúde no Chile também é misto, com um setor público (Fonasa) e outro privado. O público apresenta baixa eficiência e crescentes filas de espera, enquanto o setor privado é composto por Instituições de Saúde Previdenciária (Isapres) e clínicas particulares. De acordo com a Pesquisa Casen de 2022, 78,9% dos chilenos são afiliados ao Fonasa, enquanto 15,3% pertencem ao setor privado. Mas com a crise enfrentada no privado, muitos têm migrado para o seguro público. Um grande desafio são as filas de espera. Até setembro de 2024, havia mais de 2,5 milhões de pessoas aguardando atendimento. A incorporação de tecnologias sofisticadas e caras tem impactado significativamente ambos os sistemas de saúde. No setor privado, isso eleva as mensalidades; no setor público, aumenta a pressão sobre o orçamento estatal.

No Peru, as condições de atendimento no setor público também são precárias. Cerca de 95% dos estabelecimentos apresentam infraestrutura e equipamentos inadequados. Outro problema é a falta de profissionais: há apenas 10 médicos para cada 10 mil habitantes. Essa escassez, combinada com a ausência de medicamentos essenciais em 40% dos estabelecimentos, gera atrasos significativos no atendimento, aumentando a procura pelo setor privado.

Na Colômbia, o sistema de saúde é dividido em dois regimes: o contributivo, para trabalhadores formais e pessoas com capacidade de pagamento, e o subsidiado, para populações de baixa renda.

No Brasil, dois anos após a Constituição de 1988 considerar a saúde como um direito universal, foi criado o Sistema Único de Saúde (SUS), financiado com recursos públicos. Ele atende toda a população brasileira, ou seja, mais de 200 milhões de pessoas. Mesmo quem tem planos de saúde privados utiliza o SUS para vacinação, vigilância sanitária e serviços de emergência. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), 24% dos brasileiros possuem planos médicos ou odontológicos.

Apesar de ser reconhecido como um dos programas de saúde pública mais avançados do mundo, o SUS enfrenta desafios, principalmente a falta de financiamento. Eduardo Melo, pesquisador da Fiocruz, alerta que a sustentabilidade do SUS é um tema urgente. Segundo ele, seria necessário destinar pelo menos 6% do PIB à saúde para garantir a sustentabilidade financeira e atender às necessidades da população, especialmente diante do envelhecimento e das emergências sanitárias.

Tendências e desafios

Os sistemas de saúde na América Latina compartilham desafios comuns, como o envelhecimento da população, a crescente prevalência de doenças crônicas e o aumento dos custos de tecnologias avançadas. Esses fatores pressionam tanto os sistemas públicos quanto os privados, exigindo reformas estruturais.

Além disso, o impacto das emergências sanitárias, como a pandemia de Covid-19, evidenciou as fragilidades na capacidade de resposta de muitos sistemas de saúde da região. A necessidade de melhorar a infraestrutura, formar mais profissionais de saúde e ampliar o financiamento são pontos centrais em debates políticos e sociais em diversos países.

A busca por uma maior integração entre os setores público e privado, aliada à implementação de tecnologias digitais, como a telemedicina e os registros eletrônicos de saúde, pode ajudar a melhorar a eficiência e a qualidade do atendimento. No entanto, alcançar essas metas dependerá de vontade política, planejamento estratégico e maior investimento em saúde por parte dos governos da região.

Migração de Estudantes

A migração de estudantes de faculdades ou escolas de medicina entre centros de formação na região se intensificou nos últimos anos. E o principal motivo não é exatamente a busca por uma maior qualidade curricular, como costumava acontecer com a oferta universitária dos Estados Unidos ou da Europa. Os custos enfrentados durante o curso de graduação são a causa mais comum desse deslocamento para outros países da região ou, inclusive, para o interior, de acordo com pelo menos cinco países nos quais esse fenômeno é mais evidente.

Enquanto no Peru a migração interna é mais significativa do que para outros países, dados nacionais sobre as ofertas acadêmicas da Argentina e da Venezuela colocam esses dois destinos entre os mais atrativos para obter um diploma universitário devido à gratuidade ou aos valores mais baixos e à ausência de restrições em políticas relacionadas a recursos humanos na saúde.

A Argentina tem uma alta demanda de estrangeiros em cursos de graduação ou pós-graduação na área de ciências da saúde, embora ainda não existam dados sobre quantos retornam aos seus países para exercer ou se integram ao sistema de saúde local, uma lacuna estatística que se repete no restante da região.

Nas universidades argentinas, cerca de 5% dos estudantes são estrangeiros, mas essa proporção chega a 24% nos cursos associados à área da saúde. Mais de 90% desses estudantes vêm de outros países da América Latina, conforme o relatório Estadísticas Universitarias 2022-2023, divulgado pela Secretaria de Educação.

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