Relatório apresentado na AIDS 2026 destaca expansão da prevenção no Brasil, mas aponta que América Latina está entre as regiões onde a epidemia segue em alta; especialistas defendem financiamento sustentável e acesso às novas tecnologias
Enquanto o mundo comemora avanços históricos no tratamento e na prevenção do HIV, a América Latina caminha na direção oposta em um dos principais indicadores da epidemia: o número de novas infecções continua aumentando. O alerta faz parte do relatório especial United to End AIDS, divulgado pelo UNAIDS durante a abertura da 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), no Rio de Janeiro.

De acordo com o documento, desde 2010 houve queda global de 42% nas novas infecções por HIV. Entretanto, a América Latina registrou aumento de 25% no mesmo período, tornando-se uma das regiões onde a epidemia segue em expansão, ao lado da Europa Oriental e Ásia Central e do Oriente Médio e Norte da África.
O cenário preocupa porque ocorre justamente em um momento em que a ciência oferece ferramentas inéditas para controlar a epidemia, mas o financiamento internacional diminui rapidamente e ameaça programas de prevenção em diversos países.
Brasil aparece como exceção na expansão da PrEP
Apesar do crescimento das infecções na região, o relatório destaca o Brasil como um dos países que conseguiram ampliar o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP).
Entre 2024 e 2025, o número de pessoas que utilizaram PrEP no país passou de 165 mil para 233 mil, crescimento de 41%, desempenho que contrasta com reduções observadas em diversos países africanos afetados pelos cortes de financiamento internacional.

O documento ressalta que, enquanto Camarões, Nigéria e Zâmbia perderam mais da metade dos usuários de PrEP em apenas um ano, o Brasil ampliou sua cobertura preventiva graças ao investimento nacional.
Região avança, mas diagnóstico tardio continua sendo desafio
Durante a coletiva de imprensa, o diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Dr. Jarbas Barbosa, destacou que mais de 325 mil pessoas já utilizam PrEP na América Latina e no Caribe, resultado da expansão das políticas de prevenção nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, ele advertiu que as novas infecções não diminuíram na região e que muitos pacientes continuam recebendo o diagnóstico apenas em estágios avançados da infecção.
Segundo Dr. Jarbas, esse cenário levou a OPAS a lançar, durante a AIDS 2026, a Aliança para a Eliminação do HIV nas Américas, iniciativa que pretende reunir governos, sociedade civil, academia e organismos internacionais para acelerar a resposta regional.
“Sabemos o que funciona. Temos a ciência e as ferramentas. Agora precisamos garantir que elas cheguem a todas as pessoas que delas necessitam”, afirmou.
Brasil destaca redução da mortalidade
Representando o Ministério da Saúde, a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente, Dra. Mariângela Simão, afirmou que o Brasil chega à conferência apresentando resultados importantes.
Ela lembrou que o país foi certificado pela Organização Mundial da Saúde pela eliminação da transmissão vertical do HIV e destacou que, pela primeira vez em muitos anos, houve redução consistente da mortalidade relacionada à AIDS.
Segundo a secretária, entre 2014 e 2024 o Brasil reduziu em cerca de 20% as mortes por HIV, o equivalente a aproximadamente 1.300 vidas preservadas.
Dra. Mariangela, porém, alertou que esses avanços dependem da sustentabilidade do financiamento e do acesso às novas tecnologias.
“O tratamento existe, mas precisa ser acessível. Inovação sem acesso não é inovação; é injustiça”, afirmou.
Crescimento preocupa também no Brasil
Embora o Brasil tenha ampliado o acesso à prevenção, o relatório do UNAIDS inclui o país entre os 21 que ainda registram aumento nas novas infecções por HIV desde 2010, indicando que a expansão da PrEP, sozinha, ainda não foi suficiente para inverter a tendência da epidemia.
O documento ressalta que alcançar a meta de eliminar a AIDS como problema de saúde pública exigirá ampliar a prevenção combinada, reduzir o diagnóstico tardio, fortalecer os serviços comunitários e garantir financiamento sustentável.
Ciência existe; desafio agora é garantir acesso
O relatório conclui que o mundo dispõe hoje de tecnologias capazes de transformar o curso da epidemia, incluindo medicamentos de longa duração para prevenção. Entretanto, o sucesso dependerá da capacidade dos países de manter investimentos, ampliar o acesso e proteger os direitos humanos.
Para a América Latina, a mensagem é clara: embora existam exemplos positivos, como a expansão da PrEP no Brasil e o avanço da eliminação da transmissão vertical, a persistência do crescimento das novas infecções mostra que a região ainda está distante da trajetória necessária para atingir a meta de acabar com a AIDS até 2030.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



