Amamentação e HIV: pediatra Carué Contreiras aponta avanço internacional do debate e necessidade de ampliar informação no Brasil

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Em live promovida pelo Projeto Bem-Me-Quer, Dr. Carué Contreiras recupera três décadas de avanços na prevenção da transmissão vertical e discute a mudança de protocolos internacionais; no Brasil, orientação oficial ainda é não amamentar

Durante décadas, uma das orientações mais rígidas dirigidas às mulheres vivendo com HIV no Brasil foi também uma das mais difíceis de atravessar no exercício da maternidade: não amamentar.

A medida nasceu em um período em que as possibilidades de impedir a transmissão do vírus da mãe para a criança eram muito menores. Mas a história do HIV mudou. Surgiram medicamentos mais potentes, a terapia antirretroviral passou a controlar a replicação do vírus, mulheres com HIV conquistaram o direito de engravidar com segurança, o parto vaginal deixou de ser automaticamente contraindicado e a transmissão vertical despencou. Agora, uma das últimas fronteiras dessa transformação chega à amamentação.

Em diferentes países, protocolos começaram a abandonar a lógica de uma proibição absoluta para incorporar, em situações muito específicas, aconselhamento individualizado e decisão compartilhada entre a mulher e a equipe de saúde. O risco de transmissão pelo leite materno, entretanto, não desapareceu — e a ciência ainda não autoriza aplicar à amamentação o conceito de Indetectável=Intransmissível, consolidado para a transmissão sexual.

Foi nesse terreno, entre os avanços científicos, o risco residual, os direitos reprodutivos e a capacidade dos sistemas de saúde de garantir acompanhamento rigoroso, que o pediatra Dr. Carué Contreiras conduziu uma live promovida nesta semana pelo Projeto Bem-Me-Quer, no Instagram da ONG.

Pediatra e profissional com atuação no Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids do Estado de São Paulo (CRT), onde acompanha adolescentes e jovens trans e vivendo com HIV, Carué também falou a partir de sua própria trajetória: contou que vive com HIV há 15 anos e que, após o diagnóstico, aproximou sua carreira da área do HIV, somando experiência clínica, saúde coletiva, pesquisa e movimento social.

Mais do que defender uma mudança de protocolo, ele fez uma provocação: as mulheres que serão diretamente afetadas por essa discussão estão tendo acesso a ela?

“Acredito que as mulheres vivendo com HIV têm que ter acesso a toda a informação atualizada, disponível. E eu acho que esse debate ainda não está capilarizado na sociedade”, afirmou.

Uma história que começou com a proibição

A discussão atual só pode ser compreendida quando colocada diante da história da epidemia. No início da resposta ao HIV, a possibilidade de transmissão durante a gestação, o parto e a amamentação restringia severamente as escolhas reprodutivas das mulheres. Na live, Carué lembrou que mulheres que engravidavam eram frequentemente vistas como irresponsáveis e que as medidas de prevenção envolviam cesariana, medicamentos no parto, profilaxia do recém-nascido e proibição da amamentação.

Uma mudança decisiva ocorreu em 1994. Naquele ano, o estudo ACTG 076 mostrou que o uso de zidovudina, o AZT, durante a gestação e o parto e no recém-nascido reduzia em aproximadamente dois terços a transmissão do HIV. Entre as crianças do grupo placebo, a transmissão chegou a 25,5%; entre aquelas expostas ao esquema com AZT, caiu para 8,3%. O resultado transformou a prevenção da transmissão vertical em todo o mundo.

As décadas seguintes trouxeram avanços ainda maiores. Tratamentos combinados mais eficazes permitiram alcançar e manter a carga viral indetectável. Em 2013, a Organização Mundial da Saúde recomendou que todas as gestantes e lactantes vivendo com HIV tivessem acesso à terapia antirretroviral, independentemente da contagem de CD4, consolidando progressivamente a estratégia de tratamento contínuo.

Também mudaram o parto e a própria sexualidade das pessoas vivendo com HIV. Hoje, sabe-se que uma pessoa em tratamento, com carga viral indetectável sustentada, não transmite HIV por via sexual — conceito mundialmente conhecido como I=I.

Carué fez justamente essa comparação durante a live. “A gente começa de uma situação de interdição e a gente consegue avançar com o conhecimento, com o avanço do conhecimento, com o avanço das lutas pelos direitos para a nova situação que a gente tem hoje”, afirmou ao reconstruir a evolução das recomendações.

Mas há uma diferença fundamental: I=I não pode, até o momento, ser simplesmente transferido para a amamentação.

O risco caiu muito. Mas não chegou a zero

Esse é um dos pontos mais importantes — e delicados — do debate. Uma revisão sistemática publicada em 2025 no The Lancet HIV analisou dados sobre transmissão vertical e mostrou que o momento de início do tratamento antirretroviral faz enorme diferença.

Entre mulheres que iniciaram o tratamento durante a gravidez, a probabilidade estimada de transmissão pelo aleitamento foi de 0,13% por mês. Entre aquelas que já estavam em terapia antirretroviral antes da concepção, caiu para aproximadamente 0,02% ao mês.

Foi justamente esse dado que Carué apresentou durante a live. “O risco de você transmitir não é zero. […] Como tem na sexual, isso a gente não tem. A gente tem o risco, mas é um risco muito baixo”, explicou.

A ressalva é essencial. Os próprios pesquisadores apontam que os dados disponíveis são construídos a partir de populações, períodos de tratamento e modelos de acompanhamento diferentes. Portanto, não permitem afirmar que uma mulher individualmente considerada, mesmo indetectável desde antes da gravidez, tenha risco zero.

É justamente nessa zona de incerteza que países começaram a mudar a forma de aconselhar suas pacientes.

Da Suíça aos Estados Unidos: protocolos começam a mudar

A Suíça foi um dos primeiros países de alta renda a formalizar uma abordagem de decisão compartilhada. Em recomendações publicadas em 2018, autoridades suíças estabeleceram que mulheres com carga viral inferior a 50 cópias/mL durante toda a gravidez, com adesão ao tratamento e possibilidade de acompanhamento frequente, poderiam discutir a amamentação com uma equipe multidisciplinar. O documento estabelece monitoramento da carga viral, acompanhamento da mãe e da criança e interrupção da amamentação diante de perda da supressão viral.

Outros países seguiram trajetórias semelhantes. Nos Estados Unidos, a mudança tornou-se particularmente clara nos últimos anos. A atualização das diretrizes federais de junho de 2026 recomenda que, quando a pessoa usa regularmente terapia antirretroviral e mantém carga viral inferior a 50 cópias/mL por pelo menos três meses antes do parto, sejam apresentadas três possibilidades: fórmula infantil, leite humano pasteurizado de banco ou amamentação.

A pessoa que optar por amamentar deve ser apoiada nessa decisão. Ao mesmo tempo, o protocolo norte-americano é explícito: fórmula preparada adequadamente ou leite de banco eliminam o risco de transmissão pós-natal do HIV; tratamento e supressão viral reduzem o risco associado à amamentação para menos de 1%, mas não o zeram.

O acompanhamento também é mais intenso. Crianças amamentadas e expostas ao HIV devem realizar testes virológicos durante o aleitamento e após sua interrupção, e uma carga viral detectável da mãe pode levar à suspensão temporária ou definitiva da amamentação.

No Reino Unido, as diretrizes da British HIV Association (BHIVA) também passaram a detalhar a chamada amamentação apoiada. A alimentação exclusivamente com fórmula continua sendo a opção para quem deseja eliminar o risco de transmissão pelo leite, mas as normas oferecem acompanhamento às mulheres que escolhem amamentar.

As diretrizes europeias igualmente reconhecem que, diante de adesão adequada ao tratamento, carga viral suprimida e disponibilidade de acompanhamento especializado e monitoramento frequente, a possibilidade de amamentação apoiada pode ser oferecida. Ressaltam, novamente, que o risco é muito baixo, mas não zero.

E a OMS?

O cenário mundial é mais complexo do que simplesmente dividir países entre aqueles que “permitem” e aqueles que “proíbem” a amamentação. Há anos, a Organização Mundial da Saúde adota uma abordagem que leva em conta também mortalidade infantil, acesso à água potável, disponibilidade de fórmula, nutrição e capacidade dos sistemas de saúde.

A OMS estabelecia que autoridades nacionais podem definir se seus serviços orientarão prioritariamente mulheres com HIV a amamentar em uso de antirretrovirais ou a evitar completamente a amamentação.

Nos locais onde a política é amamentar, a recomendação é aleitamento exclusivo nos seis primeiros meses, seguido pela introdução de alimentos complementares, com continuidade da amamentação e manutenção do tratamento antirretroviral.

A própria OMS destaca que, entre mulheres em terapia antirretroviral, a amamentação pode ocorrer com risco muito baixo de transmissão e precisa ser acompanhada por serviços capazes de garantir tratamento e adesão.

Em dezembro de 2025, a organização publicou novas recomendações para o manejo clínico do HIV, incluindo atualizações sobre profilaxia pós-natal e amamentação de crianças expostas ao vírus.

A recomendação agora é: “Em contextos em que o programa nacional recomenda a alimentação de substituição, deve ser oferecida às mães que vivem com HIV, estão em tratamento antirretroviral e apresentam supressão viral a possibilidade de escolher amamentar, com apoio à sua decisão sobre a alimentação de seus filhos.”

O que muda de um país para outro, portanto, não é apenas a ciência disponível. Mudam também as condições sociais, sanitárias e a capacidade de acompanhamento.

“Não é para todo mundo”

Carué voltou diversas vezes a esse ponto durante a live. Decisão compartilhada não significa simplesmente perguntar à mulher se ela deseja amamentar e autorizar a prática.

“Não é para todo mundo. Não é só você estar indetectável desde antes da gravidez, você tem que estar com uma situação de serviço de saúde que consiga dar conta daquela situação”, afirmou.

Uma mulher que escolha amamentar precisaria, segundo ele, de monitoramento muito mais próximo, com avaliações frequentes da carga viral, acompanhamento do bebê e apoio especializado à amamentação.

Fissuras mamárias, mastites, dificuldades de adesão ao tratamento ou aumento da carga viral precisam ser identificados rapidamente. “A mãe que decide amamentar não pode ser largada: ‘volta daqui a um mês na consulta do neném’. Não pode. A gente tem que ter um suporte mais intensivo”, disse.

É justamente esse ponto que desloca o debate da esfera exclusivamente individual para o campo das políticas públicas. Não basta reconhecer autonomia. É preciso perguntar se o SUS consegue oferecer as condições necessárias para que essa escolha seja feita com segurança.

Brasil ainda recomenda não amamentar

No Brasil, apesar do avanço da discussão, a orientação oficial permanece diferente daquela adotada atualmente por países como Estados Unidos e Suíça.

O Ministério da Saúde informa que pessoas gestantes vivendo com HIV devem receber tratamento antirretroviral para alcançar a indetectabilidade e reduzir o risco de transmissão para a criança. Para o período pós-parto, porém, a recomendação oficial continua sendo não amamentar, porque o HIV pode ser transmitido pelo leite humano.

O SUS fornece fórmula láctea para as crianças expostas. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical foi atualizado em 2024 e segue orientando a resposta nacional.

Isso não significa, entretanto, que o debate esteja parado. Nesta mesma semana, a amamentação por mulheres vivendo com HIV chegou ao plenário do Conselho Nacional de Saúde, principal espaço de controle social do SUS, em discussão que reuniu governo, especialistas e movimento social.

Durante a live, Carué chamou atenção para a coincidência e avaliou que o tema começa a ganhar força no país. Segundo ele, o debate no Conselho foi “bastante positivo” em relação à construção de um novo entendimento baseado na decisão compartilhada para situações selecionadas.

AIDS 2026 levou debate à América Latina

A discussão também ganhou espaço durante a AIDS 2026, realizada em julho, no Rio de Janeiro. Carué contou que a amamentação foi um dos temas aos quais mais se dedicou durante a conferência e destacou uma mesa centrada na realidade da América Latina.

Segundo ele, representantes da Argentina apresentaram uma experiência de acompanhamento de mulheres vivendo com HIV que decidiram amamentar. O pediatra relatou que pouco mais de 20 mulheres haviam entrado no acompanhamento e que parte delas já havia encerrado a amamentação sem registro de soroconversão entre as crianças até aquele momento.

É importante separar essa experiência da política oficial brasileira: são dados apresentados durante a conferência e relatados por Carué na live, não evidência de que o SUS tenha alterado sua recomendação nacional.

Mas a experiência ajuda a explicar por que o assunto deixou de ser apenas teórico. Há mulheres querendo amamentar. Há países construindo protocolos. Há equipes acompanhando essas situações. E novos dados estão sendo produzidos.

Quando a fórmula não resolve todos os riscos

A live trouxe ainda uma questão pouco presente nos debates de países de alta renda: a desigualdade social.

Representantes do Projeto Bem-Me-Quer, organização que atua em Perus, na periferia de São Paulo, lembraram que acompanham pessoas vivendo com HIV em situação de vulnerabilidade e levantaram uma situação concreta: o que acontece quando uma mulher recebe a fórmula infantil, mas não possui acesso seguro à água potável para prepará-la?

Carué destacou riscos como infecções intestinais e lembrou que falta de estoque, distância dos serviços e dificuldade de acesso à fórmula também podem interferir na segurança da alimentação da criança.

A pergunta aproxima o Brasil de um princípio que há anos orienta a OMS: estratégias de alimentação infantil não podem ignorar as condições concretas em que mães e crianças vivem.

Em um país continental e profundamente desigual, uma política nacional precisa funcionar tanto em grandes centros urbanos com acesso a serviços especializados quanto em territórios onde chegar a uma unidade de saúde, realizar uma carga viral ou mesmo obter água tratada pode ser um desafio.

Ciência, autonomia — e estigma

Há ainda outra dimensão atravessando toda essa discussão. Para Carué, as mudanças científicas também podem modificar a relação das pessoas vivendo com HIV com o próprio diagnóstico.

Foi assim com I=I. Ao descobrir que não transmitiria mais o HIV sexualmente quando estivesse indetectável, uma pessoa deixou de carregar parte do medo associado à possibilidade de colocar o parceiro em risco. Segundo ele, esse conhecimento teve efeitos sobre autoestima, adesão ao tratamento e combate ao estigma.

Na experiência das mulheres, porém, uma mensagem continuou intacta: mesmo indetectáveis, ainda poderiam transmitir HIV ao filho pela amamentação.

Carué não diz que essa possibilidade deixou de existir. Ao contrário: faz questão de afirmar que o risco permanece. Mas argumenta que compreender suas diferentes dimensões e permitir que mulheres selecionadas participem da decisão pode modificar uma relação historicamente baseada apenas na proibição.

“Poder tomar decisão, poder ser monitorado, ser respeitado na sua decisão, isso pode ser algo que estimule […] a adesão, ao acompanhamento, ter um efeito positivo sobre essas mulheres, do estigma e do acompanhamento”, afirmou.

O debate que o Brasil terá de enfrentar

A questão que começa a chegar ao Brasil não é se amamentar com HIV “é seguro” ou “é perigoso”. A ciência já tornou essa resposta mais complexa.

Fórmula infantil adequadamente preparada elimina o risco de transmissão do HIV pelo leite. A amamentação sob terapia antirretroviral e supressão viral sustentada reduz esse risco a níveis muito baixos, mas não comprovadamente a zero.

Por isso, países diferentes escolheram respostas diferentes. E é justamente nesse espaço que estão as perguntas que o SUS terá de enfrentar: quais mulheres poderiam participar de uma decisão compartilhada? Por quanto tempo a carga viral precisaria estar indetectável? Com que frequência mãe e criança seriam testadas? Que profilaxia seria utilizada? O que aconteceria diante de mastite, fissura, falha de adesão ou aumento da carga viral? Quais serviços teriam estrutura para oferecer esse acompanhamento?

E, sobretudo: como garantir que a mulher receba informação suficiente para participar de uma decisão que diz respeito ao próprio corpo e ao próprio filho?

Para Carué, essa discussão não pode permanecer restrita aos especialistas. “Eu acho que esse debate ainda está um pouco restrito a instituições, a Brasília”, afirmou durante a live.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dicas de entrevista

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