Encontro reuniu jovens para discutir prevenção, tratamento, sexualidade, direitos e enfrentamento ao estigma relacionado ao HIV
“Quem já conversou, quem já encontrou uma pessoa vivendo com HIV, que publicamente disse para você que tinha HIV? Levanta a mão para nós.”
A pergunta da jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência de Notícias da Aids, abriu o encontro realizado nesta quarta-feira (19), no Senac São Bernardo do Campo. Diante de uma plateia de quase cem estudantes, apenas três ou quatro mãos se levantaram. “Olha como o assunto é silenciado, né? Por isso que a gente está aqui”, afirmou.
A atividade integrou o ciclo de palestras “Educação em Saúde e Prevenção”, realizado pela Agência Aids em parceria com o Senac São Paulo, e abordou HIV, aids, prevenção, sexualidade, autocuidado e enfrentamento ao estigma.
Além de Roseli, participaram a psicóloga e sexóloga Regiane Garcia e a artista, educadora e produtora cultural Micaela Cyrino, graduada em Artes Visuais e que vive com HIV desde o nascimento.
HIV, aids e os avanços do tratamento
A equipe iniciou a conversa apresentando conceitos básicos sobre HIV e aids e destacando os avanços registrados nas últimas décadas. “HIV é o vírus que causa a aids. Uma situação é ter o vírus, outra é desenvolver a doença”, explicou Roseli.
Regiane detalhou a diferença. “A aids, na verdade, é a doença causada pelo vírus. O vírus afeta o sistema imunológico, as células de defesa são afetadas pelo vírus, a imunidade da pessoa cai, e aí a pessoa fica doente de aids”, afirmou.
A psicóloga explicou que o tratamento adequado impede a progressão da infecção e permite alcançar a carga viral indetectável. Os estudantes também receberam informações sobre o conceito I=I — Indetectável é igual a Intransmissível, segundo o qual uma pessoa vivendo com HIV, em tratamento e com carga viral indetectável, não transmite o vírus por via sexual.
Roseli Tardelli relembrou o contexto do início da epidemia e explicou como começou a trabalhar com o tema. “Voltei de um curso que fui fazer na Espanha e meu irmão havia se infectado com o vírus que causa a aids. Uma década muito difícil de ser vivida. Não tínhamos muitas informações. Não tínhamos remédios. A pessoa recebia o diagnóstico e era praticamente uma sentença de morte. Ainda bem que tudo mudou e nós estamos aqui para conversar sobre tudo isso com vocês”, contou.
Durante o encontro, foram exibidas manchetes de jornais e capas de revistas publicadas nos primeiros anos da epidemia. “Essas manchetes, muitas vezes sensacionalistas, ajudaram a criar um estigma que permanece até hoje”, afirmou Roseli.
Educação para a saúde e acolhimento
Regiane Garcia também relatou sua aproximação com o trabalho de prevenção ao HIV por meio do Instituto Cultural Barong, organização que desenvolve ações itinerantes de prevenção e testagem. “Eu conheci o Barong há muito tempo. Me identifiquei imediatamente com a dinâmica das ações e passei a fazer parte do grupo”, explicou.
Para a psicóloga, o acesso à informação é parte do cuidado com a própria saúde. “A gente se cuidando, a gente se conhecendo e, principalmente, uma coisa que eu acho fundamental é a gente se educar para a saúde, ou seja, a gente saber se cuidar, a gente entender as coisas, ter informações, para que a gente possa ter responsabilidade nos nossos atos, nas nossas atitudes e que a gente viva bem”, afirmou.
Regiane falou ainds sobre como acolher uma pessoa que compartilha um diagnóstico de HIV. “Eu acho que no primeiro momento eu ia te ouvir mais do que falar, perguntar como é que você está se sentindo, que aliás eu acho que isso é uma coisa que a gente precisa aprender nas nossas relações, independente de diagnóstico de doença. A gente precisa aprender a ser mais empática e a desenvolver uma escuta”, disse.
Segundo ela, a partir dessa escuta é possível orientar a pessoa sobre serviços de saúde, acompanhamento psicológico, assistência social e tratamento.
A psicóloga reforçou que o diagnóstico não define a identidade de quem vive com HIV. “Você não está condenada simplesmente porque você não é um vírus, você tem um vírus. […] Ela tem uma vida, tem família, tem amigos, tem amores, tem trabalho, tem estudo, e tem o vírus. Nós temos o vírus, mas nós somos múltiplos, nós somos várias, nós somos muitas coisas”, afirmou.
“Vulneráveis somos todos. Todos nós, humanos, somos vulneráveis”, acrescentou.
A experiência de viver com HIV desde o nascimento
A artista e educadora Micaela Cyrino contou aos estudantes sua trajetória como pessoa que nasceu com HIV por transmissão vertical. “Eu nasci com HIV no momento que não se pensava na possibilidade de crianças nascendo com HIV no Brasil e no mundo. Eu tenho 38 anos hoje, vivo com HIV, faço meu tratamento há 38 anos”, relatou.
Micaela explicou que decidiu falar publicamente sobre a própria sorologia como forma de contribuir para a desconstrução de estigmas relacionados ao HIV.
“Eu trago minha história de vida sempre para a gente desmistificar o HIV […]. A gente tem um monte de pessoas que vivem com HIV na sociedade, que têm as suas vidas, então a gente precisa também sair desse lugar do estigma e olhar mais amplamente para esse tema e construir coletivamente”, afirmou.
Ela contou que começou a compreender o próprio diagnóstico por volta dos seis anos, quando passou a adoecer. Na mesma época, perdeu a mãe em decorrência da aids e passou a viver em um abrigo para crianças que viviam com HIV.
“A minha mãe faleceu em decorrência da aids, eu tinha seis anos de idade, e aí eu fui morar num abrigo para crianças soropositivas, isso era muito comum no Brasil. Nos anos 90 [havia] abrigos para crianças soropositivas, porque existia uma taxa de mortalidade muito grande dos pais em decorrência da aids”, relatou.
Micaela disse que viveu durante alguns anos “numa bolha”, cercada por profissionais de saúde e educadores. Ao começar a frequentar a escola do bairro, passou a perceber a desinformação e o preconceito existentes fora daquele ambiente. “Eu sentia que, de alguma maneira, parecia que eu tava escondendo alguma parte de mim”, contou.
Na adolescência, participou da criação de um espetáculo de fantoches sobre uma criança soropositiva que queria compartilhar sua condição com os colegas.
“Não foi um momento acolhedor, a gente tinha um contexto de desinformação muito grande […] foi onde eu entendi o lugar [do preconceito], das pessoas que têm preconceito com as pessoas que vivem com HIV, especialmente os adultos, os pais das crianças, que falavam: ‘não brinca mais com ela, porque ela tem HIV’”, lembrou.
Segundo Micaela, o acolhimento oferecido pela escola e ações educativas desenvolvidas naquele período tiveram papel importante em sua trajetória. “Foi muito importante para eu entender no meu processo de vida o compartilhar, porque para mim fica muito mais fácil eu poder falar sobre minha sorologia e seguir minha vida assim, compartilhar com outras pessoas […] e isso foi me fortalecendo.”
Perguntas dos estudantes
Durante a atividade, os estudantes fizeram perguntas sobre transmissão, prevenção, relacionamentos, sexualidade e perspectivas de futuro após um diagnóstico de HIV. “Se eu usar a toalha de banho que a Micaela usou, posso pegar o HIV?”, perguntou um dos jovens.
Regiane respondeu: “Você pode compartilhar toalhas, pode abraçar, beber no mesmo copo. Não vai contrair HIV assim.”
Outra pergunta foi sobre a possibilidade de utilizar manteiga na ausência de gel lubrificante durante uma relação anal. “Não é correto, nem adequado. É fundamental que sempre os insumos de prevenção sejam utilizados por todos nós. Eles estão à disposição”, explicou Roseli.
Os jovens receberam informações sobre testagem, preservativos e outros insumos de prevenção disponíveis gratuitamente no município, incluindo os serviços oferecidos pelo Programa Municipal de IST/Aids, na Policlínica Centro, localizada na Avenida Armando Ítalo Setti, 402, em Baeta Neves.
A equipe apresentou ainda a Mandala da Prevenção Combinada, que reúne estratégias como preservativos, testagem, PrEP, PEP e tratamento como prevenção. Ao final, um material com informações sobre prevenção foi disponibilizado aos estudantes por meio de QR Code.
Sigilo, testagem e transmissão vertical
Micaela também abordou o direito dos jovens ao acesso aos serviços de saúde e ao sigilo. “Vocês têm o direito a fazer exames de IST, de HIV, quando vocês acharem […] vocês não precisam falar para ninguém, vocês têm o sigilo médico garantido”, afirmou.
Ela ressaltou que a testagem para HIV e outras ISTs é oferecida gratuitamente pelo SUS. “A gente não sabe o nosso diagnóstico se a gente não faz o teste”, disse.
As perguntas dos estudantes foram reunidas pela professora Domênica, do Programa Aprendizagem do Senac. Segundo ela, os assuntos discutidos ainda são atravessados por preconceitos relacionados à sexualidade e ao gênero.
“A gente precisa falar de sexualidade, falar de cuidados de saúde, mas também [falar] desses estigmas sobre ser gay, ser lésbica, ser mulher e todas as intersecções que a gente conhece.”
Entre as dúvidas estavam a possibilidade de pessoas vivendo com HIV terem filhos e como orientar adolescentes recém-diagnosticados sobre tratamento, relacionamentos e projetos de vida.
Micaela explicou que os avanços no diagnóstico e no tratamento modificaram a realidade da transmissão vertical no país. “Hoje em dia, se você está no SUS, você vai fazer o pré-natal, pede-se o teste de HIV. Então, geralmente, se você teve uma relação e foi infectada, e está gestando, você vai ter um diagnóstico [ainda] na sua gestação”, afirmou.
O diagnóstico durante o pré-natal permite iniciar o tratamento e adotar medidas para prevenir a transmissão do HIV para o bebê.
Questionada sobre sua rotina atual, Micaela contou que namora, trabalha, produz arte, tem vida sexual ativa e mantém acompanhamento regular de saúde.
O encontro no Senac São Bernardo do Campo integra as ações realizadas pela Agência Aids em parceria com o Senac São Paulo para levar informações sobre HIV, aids, prevenção e saúde sexual aos estudantes.
Galeria de fotos:

Alunos do Senac de SBC participam e interagem durante o encontro

Mandala da Prevenção é detalhadamente explicada aos alunos

Aluno do Senac pegando insumo de prevenção

Equipes do Senac e da Agência registrando o momento

A unidade de SBC tem horta pedagógica

Olha a pose da Regiane para a foto!

Agora foi a vez da Mica!
Algumas unidades da capital paulista também receberão os encontros que conectam saúde, informação e prevenção.
Redação da Agência de Notícias da Aids



