A trajetória de Aluísio Segurado nunca coube apenas nos corredores da Faculdade de Medicina da USP.
Formado em 1980, Aluísio Augusto Cotrim Segurado assumiu a residência de infectologia “no mesmo ano em que o vírus HIV chegou ao Brasil”. A frase, dita por ele à Agência Aids em um evento recente, ganhou outra dimensão nesta semana, quando o governador Tarcísio de Freitas confirmou sua nomeação como novo reitor da USP, a Universidade de São Paulo para o mandato de 2026 a 2030.
Primeiro colocado tanto na consulta à comunidade acadêmica quanto na votação do colégio eleitoral com 1.270 votos, Segurado chega à reitoria como representante de uma universidade que se prepara para um dos maiores desafios de sua história: encontrar um novo modelo de financiamento no cenário pós-reforma tributária. Mas ele chega também como símbolo de algo maior: um pesquisador que viveu todas as fases da epidemia de HIV no país e que construiu sua carreira em diálogo direto com o SUS, com as pessoas vivendo com HIV e com a sociedade civil organizada.
A nomeação segue a tradição de escolher o mais votado da lista tríplice, enviando um recado de continuidade institucional em um momento sensível para a autonomia universitária. Mas, para quem acompanha de perto a resposta brasileira ao HIV, o anúncio carrega também um forte valor simbólico.
Entrevista exclusiva para a Agência Aids:
Entrevista exclusiva para Agência Aids: “A minha vida na Universidade de São Paulo se confunde com a epidemia de HIV e Aids”
Da epidemia inicial à eliminação da transmissão materno-infantil
Segurado lembrou que sua entrada na infectologia coincidiu com o início da epidemia:
“A minha vida na Universidade de São Paulo se confunde com a epidemia de HIV e Aids, disse.
O médico viu, do consultório e da pesquisa, o pânico dos primeiros anos, a chegada dos antirretrovirais, a virada histórica que transformou a Aids em condição crônica, a expansão da testagem e das estratégias de prevenção, e finalmente a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV na cidade de São Paulo, conquista que ele faz questão de destacar como exemplo de ciência aplicada à vida:
“Pude acompanhar todos os avanços respaldados na ciência que incluíram a busca de novos tratamentos, de novas estratégias de prevenção e chegarmos a algo que o município de São Paulo logrou obter, que foi a certificação de eliminação da transmissão vertical ou materno-infantil do vírus”, afirmou.

Para Segurado, o Brasil já esteve “nota 9” na resposta ao HIV, especialmente no auge das políticas públicas dos anos 2000. Mas ele também reconhece perdas recentes:
“Todos nós sabemos, passamos nos anos recentes por um período de perdas, de benefícios, de direitos, e agora estamos buscando reconstruir isso.”
A interseção entre ciência, direitos e vulnerabilidade
Mesmo com a expansão das ferramentas de prevenção como PrEP, PEP, autotestes e métodos tradicionais, Segurado reafirma que o maior desafio ainda é social:
“Infelizmente, ainda convivemos, passados tantas décadas, com um grande problema de discriminação e de exclusão social dos grupos mais vulneráveis, que, por vezes, os impede de acessar as ferramentas que estão disponíveis.”
Essa visão, que integra ciência e justiça social, tem guiado sua carreira dentro e fora da universidade. Como pesquisador, ele trabalhou diretamente com cuidado a pessoas vivendo com HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, atuou na Casa da Aids, promoveu estudos clínicos, supervisionou ambulatórios e formou gerações de profissionais.
Como gestor, defende que a universidade esteja à altura desses desafios:
“É importante que a universidade possa co-criar pautas de pesquisa que venham atender as demandas da sociedade e saiba também traduzir para a sociedade em que medida o conhecimento gerado numa universidade de pesquisa se traduz em desenvolvimento social.”
Um reitor que traz a saúde pública como fundamento
Segurado não é apenas um pesquisador do HIV. É também o gestor que comandou o Instituto Central do Hospital das Clínicas na preparação para a pandemia de Covid-19, coordenando a “mobilização de guerra” que transformou o Hospital das Clínicas no maior hospital de atendimento exclusivo a pacientes com coronavírus no país.
À Folha de S.Paulo, ele lembrou que aquele momento evidenciou a força da universidade pública:
“A USP se colocou inteira à disposição da população”, disse ao relembrar as semanas em que centenas de profissionais foram mobilizados para reorganizar serviços, criar respiradores e ampliar protocolos de atendimento.
Essa mesma experiência aparece no seu discurso sobre o papel político da USP. Ele afirma que a universidade precisa dialogar “com todo o espectro político”, especialmente diante do novo cenário de financiamento das instituições estaduais após o fim do ICMS. Segundo ele, a tarefa da próxima gestão é “fazer a sociedade ficar do nosso lado”.
Os desafios que esperam pela reitoria
Entre os destaques na lista de desafios para a gestão Segurado estão:
- construir um novo modelo de financiamento para a USP, em diálogo com governo e Assembleia;
- reforçar a autonomia universitária num contexto de tensões políticas;
- consolidar a revisão curricular já iniciada, que envolveu mais de 140 cursos e a entrada de 900 novos professores;
- modernizar metodologias de ensino, adaptando avaliação e conteúdo ao impacto da inteligência artificial;
- enfrentar a evasão, especialmente entre jovens que chegam à universidade após a pandemia;
- aprofundar o diálogo com a sociedade, aproximando pesquisa, políticas públicas e terceiro setor.
Mas, ao falar com a Agência Aids, ele fez questão de incluir a saúde pública nessa agenda:
“Esperamos, na reitoria da USP, continuar atuando com a nossa missão de universidade pública, que é a de formar cidadãos e cidadãs tecnicamente capacitados e de traduzirmos o conhecimento em ações concretas em benefício da sociedade.”
Entre o local e o global: retrocessos e reconstruções
O médico também expressou preocupação com o cenário internacional da resposta à Aids. Ele deu “nota 8” para o mundo, mas lembrou que há retrocessos evidentes:
“Sociedades tão afluentes e tão desenvolvidas dão passos de retrocesso e prejudicam políticas internacionais de saúde global”, afirmou, citando explicitamente os Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, vê o Brasil e as universidades públicas como forças capazes de contrapor esse cenário, promovendo multilateralismo, equidade e políticas baseadas em ciência.

Foto: Marlene Bergamo/Folhapress
Um mandato que nasce com história
A nomeação de Aluísio Segurado condensa, em uma só biografia, quatro décadas de enfrentamento à epidemia de HIV, defesa do SUS, compromisso com direitos humanos e profundo enraizamento na universidade pública. Para a luta contra a Aids, sua gestão abre espaço para ampliar discussões sobre prevenção, acesso, estigma e políticas públicas dentro da maior universidade da América Latina.
Ao encerrar a conversa com a Agência Aids, ele ofereceu um gesto simbólico que resume sua visão de universidade e de mundo:
“Vou dar 9 para a USP, porque eu acho que podemos avançar ainda mais.”
É nesse espírito de avanço, ciência e compromisso social que começa a nova reitoria.
Redação da Agência de Notícias da Aids



