“Algumas decisões pontuais poderiam ter sido mais bem calibradas, com maior escuta e tempo de maturação”: Fábio Mesquita lança o livro Diário de Bordo e revisita sua trajetória na saúde

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Falar de Fábio Mesquita é revisitar uma trajetória que se entrelaça com a própria construção da resposta brasileira ao HIV/aids — uma história marcada por ciência, enfrentamento político e compromisso contínuo com a saúde pública.

Médico formado pela Universidade Estadual de Londrina e doutor em Saúde Pública pela USP, Mesquita iniciou sua atuação no início dos anos 1990, quando o Brasil ainda buscava respostas para uma epidemia cercada por medo, desinformação e forte estigma. Naquele momento, assumiu posições estratégicas em programas municipais de DST/Aids em cidades como Santos e São Vicente, no litoral paulista — regiões que concentravam altas taxas de infecção. Foi no território, lidando diretamente com populações vulneráveis, que ajudou a consolidar uma abordagem que viria a marcar toda a sua trajetória: enfrentar a epidemia não apenas como questão biomédica, mas como um desafio social e de direitos humanos.

Ainda nos anos 1990, tornou-se um dos principais defensores da política de redução de danos no Brasil, especialmente entre usuários de drogas injetáveis. Em um contexto de forte resistência institucional, Mesquita apostou em estratégias baseadas em evidências, como programas de troca de seringas e ampliação do acesso à informação e aos serviços de saúde. A insistência em uma abordagem pragmática e humanizada contribuiu para reduzir infecções e reposicionar o país como referência internacional em políticas públicas voltadas ao HIV.

Antes de assumir a direção do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais no governo da presidenta Dilma Rousseff, Mesquita já acumulava experiência no sistema das Nações Unidas. À época do convite feito pelo então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ele estava baseado no Vietnã, após passagem pelo escritório regional nas Filipinas. A ida para o governo federal, em julho de 2013, representou, portanto, um retorno ao Brasil depois de anos de atuação internacional.

À frente do departamento até maio de 2016, liderou um período de expansão das estratégias de prevenção combinada, com ampliação do diagnóstico, fortalecimento do acesso universal ao tratamento e incorporação de novas tecnologias de cuidado. Sua gestão se deu em um momento de consolidação do modelo brasileiro, que combinava ciência, acesso e articulação com a sociedade civil — elementos que sustentaram o reconhecimento internacional do país na resposta ao HIV.

Concluída essa etapa, Mesquita retornou ao cenário internacional, com passagens por países como Suíça e Myanmar, mantendo sua atuação em políticas de saúde e resposta ao HIV em diferentes contextos. A experiência global ampliou o alcance de sua atuação, consolidando seu nome como referência em saúde pública.

De volta ao Brasil, assumiu em 2025 a Secretaria Municipal de Saúde do Guarujá, onde permaneceu até fevereiro de 2026. À frente da pasta, enfrentou os desafios impostos pelo período pós-pandemia, com foco na reorganização da rede pública, ampliação do acesso e fortalecimento da atenção básica. 

Ao longo de mais de três décadas, Fábio Mesquita construiu uma carreira que transita entre o local e o global sem perder coerência. Sua atuação é marcada pela capacidade de transformar evidência científica em política pública efetiva, sempre ancorada na defesa do Sistema Único de Saúde e na compreensão de que epidemias não se enfrentam sem considerar as desigualdades que as atravessam.

Seu legado ultrapassa os cargos que ocupou. Está presente nas políticas que ajudou a estruturar, nas estratégias que hoje orientam o enfrentamento do HIV e na formação de uma geração de profissionais que passaram a enxergar a saúde pública como um campo onde ciência e direitos humanos caminham juntos. Em um cenário historicamente atravessado por disputas morais e políticas, Fábio se manteve fiel a um princípio essencial: o de que salvar vidas exige mais do que conhecimento técnico — requer coragem para sustentar escolhas baseadas em evidências, mesmo quando elas contrariam consensos estabelecidos.

Fábio lança o livro “Diário de Bordo”no próximo sábado, a partir de 16 horas na Casa das Culturas de Santos.   Quer deixar o Fábio feliz? convide-o para comer uma pasta ou um sushi, ele adora. Detesta fígado e além da Saúde e seus desafios, o Palmeiras também é outra de suas paixões. A Agência Aids conversou com o autor e convida você a acompanhar o diálogo e as considerações feitas por ele.

Por que, nesta altura da vida, você resolveu compartilhar com o grande público sua trajetória?

Chega um momento em que a experiência deixa de ser só sua. Eu tive o privilégio de atuar em diferentes contextos, no Brasil e fora dele, inclusive em organismos internacionais, acompanhando de perto epidemias, políticas públicas e histórias humanas muito intensas. O livro nasce dessa preocupação de não deixar essas histórias se perderem. É também uma forma de devolver ao público , especialmente aos mais jovens profissionais de saúde , aquilo que aprendi na prática, muitas vezes em cenários difíceis. Também estimular a juventude a fuçar possibilidades nesta área de trabalho humanitário.

É ainda um gesto de reconhecimento a quem segue movendo essa agenda, nas universidades, nos territórios e nos movimentos sociais, na imprensa, com coragem e inquietação.

O que você fez que hoje acha que não deveria ter feito?

Na saúde pública, a gente toma decisões sob pressão, com informação incompleta e em contextos políticos complexos. Em alguns momentos, talvez eu tenha subestimado o impacto das disputas institucionais. Não é um arrependimento individual, mas a consciência de que algumas decisões pontuais poderiam ter sido mais bem calibradas, com maior escuta e tempo de maturação. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que tudo é processo, e a carência é tanta que tudo parece urgente. A gente age sempre a partir dos elementos que tem em cada momento da vida, e esses elementos são atravessados por urgências, limites e também pelo contexto histórico. A vida é dinâmica, e o que hoje parece evidente muitas vezes não era em outro momento. Olhar para trás, então, não é para paralisar, mas para compreender melhor o caminho e seguir com mais consciência.

Você mais acertou ou mais errou?

Eu acho que acertei mais no rumo do que nos detalhes. Trabalhar com HIV/aids é atuar em um campo onde ciência, política e moral se cruzam o tempo todo, e manter um compromisso firme com evidências científicas e direitos humanos sempre foi o que orientou minhas escolhas. Os erros, inevitáveis, vieram muito mais dos limites do contexto — institucionais, culturais e até históricos — do que de uma falta de direção. Mas claro que tem coisas das quais eu morro de orgulho de ter feito ou participado. Criar o primeiro Programa Municipal de Aids no Brasil, na Cidade de Santos; ser pioneiro em Redução de Danos na América Latina ainda em Santos; ser o chefe da Unidade de Prevenção do Departamento de IST/Aids e Hepatites Virais quando se convenceu a CNBB a deixar a gente fazer campanha de prevenção falando de camisinha na TV (o primeiro país Católico de Média e Baixa Renda que conseguiu isto); ter sido o Coordenador do Programa de DST/Aids e Hepatites Virais da Cidade de São Paulo (hoje o melhor de todo o Brasil); na OMS ter elaborado o primeiro documento da ONU que denunciou o tratamento compulsório de drogas no Sudeste da Àsia e depois ser parte de quem fez que 12 Organizações da ONU assinassem um documento contra o tratamento compulsório de dependência de drogas em todo o mundo; ter sido diretor do Departamento de IST/AIDS e Hepatites Virais com a Dilma e ser o terceiro país do mundo todo na época que implantou o tratamento para todos com o HIV em 2013, tudo isto não tem preço… 

Qual foi o momento mais difícil de relatar no livro?

Os momentos em que a política pública falha e isso se traduz em sofrimento real. Perder pessoas, ver epidemias avançarem onde poderiam ter sido contidas, ou enfrentar retrocessos em políticas que já estavam consolidadas. Esses episódios exigem não só memória, mas coragem para revisitar.

Qual o episódio mais delicado que o leitor encontrará?

Os bastidores da epidemia, aquilo que não aparece nos relatórios. As tensões entre governos, as resistências à implementação de políticas baseadas em evidências e, sobretudo, as histórias de pessoas que viveram o HIV em contextos de exclusão. O delicado não é apenas o que aconteceu, mas como aconteceu , e as consequências concretas dessas escolhas na vida das pessoas.

Ver projetos consistentes e transformadores se fragilizarem ou serem interrompidos em determinados períodos políticos como na era Temer e Bolsonaro, foi especialmente duro. O fechamento de espaços de diálogo, o avanço de posições conservadoras e o enfraquecimento de políticas públicas baseadas em direitos produziram impactos reais, ampliando vulnerabilidades e, em alguns casos, resultando em sofrimento evitável e perda de vidas. São memórias difíceis de revisitar. Também há experiências marcadas por contextos extremos, como atuar em cenários de guerra civil ao mesmo tempo em que se enfrentava uma pandemia, situações em que a complexidade se impõe de forma brutal e exige respostas rápidas, muitas vezes com recursos limitados.

Quais são os “inimigos” da luta contra a aids hoje?

O principal continua sendo o estigma. Ele atravessa tudo: dificulta a testagem, o acesso ao tratamento e as estratégias de prevenção. Soma-se a isso o negacionismo, a desinformação e o enfraquecimento de políticas públicas. A aids deixou de ser prioridade em muitos lugares, o que é um erro grave, porque a epidemia se transformou, mas não desapareceu. Não devemos subestimar sua propagação nem tratar o HIV como algo já controlado, relegando essa pauta a segundo plano nas agendas públicas.

Há também o peso do moralismo e do fundamentalismo, que afastam as pessoas dos serviços e dificultam abordagens baseadas em direitos. Além disso, ainda enfrentamos dificuldades em reconhecer plenamente os determinantes sociais que estruturam a epidemia. E, dentro do próprio campo de resposta ao HIV, por vezes há resistências à renovação, com setores mais tradicionais que têm dificuldade de abrir espaço para as novas gerações, suas linguagens e formas de enfrentamento, fundamentais para manter a resposta viva, atual e conectada com a realidade.

Mais recentemente em países mais pobres a desestruturação do PEPFAR (decisão do Governo de Donald Trump), pode por falta de financiamento até de medicamentos devolver quadros graves de disseminação do HIV aonde chegou a estar quase sob controle. 

Sobre Chemsex: como estamos e o que ainda precisa ser feito?

Ainda estamos atrasados. Fora a Inglaterra e a Austrália, pra começar falta política pública para um tema tão relevante. Falta ainda capacitação dos profissionais de saúde para lidar com o tema sem julgamento e com base em redução de danos, e isso se traduz, na prática, em serviços que não acolhem, não perguntam e, muitas vezes, afastam as pessoas. O Chemsex segue sendo tratado de forma simplificada, como “ comportamento de risco”, quando, na verdade, é um fenômeno complexo que envolve saúde mental, prazer, sociabilidade, uso de substâncias e acesso desigual ao cuidado, sendo reconhecido pela literatura como um desafio relevante de saúde pública .

Existe também uma dificuldade estrutural do poder público em reconhecer a centralidade do tema. Falar de Chemsex implica enfrentar tabus relacionados à sexualidade, ao uso de drogas e às populações mais afetadas, e isso ainda encontra muita resistência em agendas governamentais, que tendem a silenciar ou reduzir o problema. Na América Latina, embora haja iniciativas importantes, elas ainda são fragmentadas e pouco institucionalizadas. Países como Brasil, México, Argentina e Costa Rica já têm pesquisas, diretrizes técnicas ou experiências locais de cuidado e redução de danos — muitas vezes articuladas com serviços de HIV e IST —, mas ainda não consolidaram políticas públicas nacionais robustas e estruturadas sobre o tema .

Enquanto isso, a sociedade civil e as universidades têm assumido um papel central, produzindo conhecimento, desenvolvendo estratégias de cuidado e criando espaços de escuta qualificada. São esses atores que, na prática, têm funcionado como motor da resposta, muitas vezes ocupando lacunas deixadas pelo Estado. O governo precisa escutar mais essas experiências, reconhecer o acúmulo que já existe fora das estruturas formais e incorporar essas contribuições na formulação de políticas públicas.

O que você pretende com o “Diário de Bordo”?

Mais do que contar histórias, eu quero provocar reflexão. Mostrar que a saúde pública é feita por pessoas como quaisquer outras e que essa trajetória é atravessada por escolhas técnicas, políticas e, sobretudo, humanas. Médicos não são semideuses, são pessoas, com falhas, dúvidas, sonhos, expectativas e medos, tomando decisões em contextos muitas vezes incertos e desafiadores. Trazer isso à tona também é uma forma de humanizar o cuidado e desmistificar a ideia de que existe um caminho perfeito ou linear nessa área.

Galeria de fotos: momentos da trajetória do médico

 

Com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha

 

Além de torcedor fiel do Palmeiras, outra de suas paixões é ensinar: Fábio se realiza também dando aula

Sempre presente  e contribuindo com seu conhecimento em Conferências Internacionais

 

Com a presidenta do IAS 2026,  a amiga Dra.Beatriz Grinsztejn

Em sua formatura, com a filha Juliana, então com 4 anos

Kadija e Fabi : filha e esposa parceiras de aventuras e conquistas

Lançamento Sábado, 09/05/2026  – 16h – Casa das Culturas de  Santos, Rua 7 de setembro, 49 – Santos – São Paulo

Redação da Agência de Notïcias da Aids

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