
Na tarde desta quinta-feira, 5 de junho, durante o XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, XI Congresso Brasileiro de Aids e VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids, realizado no Rio de Janeiro, o pesquisador e professor da Faculdade de Medicina da USP, Alexandre Grangeiro, trouxe uma análise contundente e provocadora sobre o cenário atual da prevenção combinada, as novas tecnologias e os desafios éticos e estruturais da resposta ao HIV no Brasil.
A sessão, presidida pelo infectologista Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi) do Ministério da Saúde, foi aberta com palavras que demonstraram o apreço e respeito entre colegas. Grangeiro iniciou destacando que sua fala seria baseada em duas convicções: de que os métodos de prevenção já são amplamente conhecidos e de que enfrentamos hoje um novo tipo de violência — que chamou de “violência de terceira geração” — expressa nas desigualdades de acesso às tecnologias de prevenção.
O fracasso da meta de eliminação até 2030
Baseando-se em estudos de implementação e dados recentes, Grangeiro apresentou consensos ao longo da palestra e foi enfático ao afirmar que o Brasil caminha na contramão da meta de eliminação da transmissão do HIV até 2030. “Quando analisamos os dados, percebemos que 80% dos municípios ou apresentam tendência de crescimento da epidemia ou estão longe de atingir 50% das metas previstas”, explicou. O cenário se agrava quando os dados são analisados por estados, com destaque negativo para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Essa análise o levou a afirmar que o país está dividido em dois potes: um com pessoas com acesso à prevenção e tratamento; e outro com populações sob alto risco de infecção e morte por HIV. “Estamos criando duas realidades paralelas, marcadas por uma desigualdade que só aumenta com o tempo”, criticou.
Enfrentar desigualdades: política ou revolução?

Para Grangeiro, enfrentar desigualdades estruturais exige mais do que boas intenções ou ações pontuais. “A história mostra que a redução significativa de desigualdades geralmente se deu por meio de conflitos ou revoluções. A crença de que políticas sociais pacíficas podem fazer isso é contemporânea, mas exige coragem e enfrentamento real das estruturas de poder.”
O pesquisador exemplificou como decisões aparentemente neutras podem perpetuar desigualdades. Citou, por exemplo, o caso da vacinação contra a covid-19 em São Paulo, onde o critério principal foi a idade — o que beneficiou as regiões mais centrais e com população mais velha, e prejudicou as periferias, que registravam as maiores taxas de internação e mortalidade. “Políticas públicas baseadas apenas em critérios epidemiológicos, sem considerar o contexto social, podem proteger os mais protegidos e deixar de lado os mais vulneráveis.”
Crítica ao modelo industrial e à neutralidade científica
Grangeiro também levantou preocupações sobre os interesses por trás da implementação de novas tecnologias, como PrEP e injetáveis de longa duração. Declarou que participa de estudos de implementação financiados pela indústria farmacêutica, mas que isso não o impede de criticar a lógica de monopólio e exclusividade mantida por essas empresas. “Após 20 anos de acordos com a indústria farmacêutica internacional, ainda pagamos mais caro por medicamentos do que se os comprássemos como genéricos. O monopólio persiste.”
Para ele, a autonomia científica das universidades está em risco, e há uma pressão crescente para que pesquisadores não se posicionem criticamente diante da indústria. “Precisamos manter a ciência comprometida com o interesse público, e não com o mercado”, defendeu.
Direitos humanos e o silêncio institucional
Ao abordar os direitos humanos, Grangeiro fez uma provocação direta: “Quem aqui se lembra da última campanha nacional voltada para populações vulneráveis que tenha sido pensada com base em direitos humanos?”. Segundo ele, há um esvaziamento dessas pautas no discurso oficial, e isso se reflete na ausência de políticas afirmativas e campanhas dirigidas a populações como pessoas trans, negras e usuários de drogas.
Ele também destacou que, embora todos os métodos de prevenção tenham respaldo nos direitos humanos, seus impactos não são iguais. “É preciso entender que nem todos os métodos geram o mesmo impacto em termos de justiça e proteção social.”
Grangeiro ainda abordou o tema do chemsex com cautela e criticidade, alertando contra abordagens moralistas e culpabilizantes. Disse que os desafios em torno da prevenção nesse contexto não podem ser reduzidos à lógica de risco individual, mas precisam considerar os aspectos coletivos, sociais e estruturais envolvidos. “A responsabilização moral pelo uso de drogas em contextos sexuais pode afastar essas populações dos serviços de saúde e da prevenção.”
Vozes da gestão e da sociedade civil

Ao final da conferência, o dr. Draurio Barreira, diretor do Dathi, fez questão de reforçar a importância do compromisso político com a equidade e com a escuta qualificada. “O que Alexandre trouxe nos provoca a olhar com mais responsabilidade para as políticas públicas. Se a gente não confrontar os determinantes sociais, continuaremos apenas remediando, e não prevenindo de fato. Precisamos garantir que os avanços tecnológicos sejam acompanhados de avanços éticos e sociais”, afirmou.
Vanessa Campos, representante da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+ Brasil), também contribuiu para o debate, trazendo à tona a invisibilidade das mulheres nas estratégias de prevenção. “Ainda hoje a PrEP é tratada como algo exclusivo para homens gays e HSH. As mulheres, especialmente as mulheres negras e periféricas, não são sequer informadas sobre essa possibilidade. Precisamos de campanhas, formação de profissionais e acesso real para todas”, defendeu.
Compromisso ético e político
Ao encerrar sua fala, Alexandre Grangeiro reforçou que o avanço da resposta ao HIV no Brasil exige um compromisso ético e político com a equidade. “A prevenção combinada não pode ser apenas um cardápio de tecnologias. Ela precisa estar ancorada na redução de desigualdades, no fortalecimento do SUS e na defesa intransigente dos direitos humanos.”
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Alexandre Grangeiro
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* A Agência de Notícias da Aids cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde



