De acordo com o Relatório Global da Tuberculose 2025, 89% das pessoas que desenvolveram a doença foram diagnosticadas e notificadas oficialmente em 2024
Mesmo sendo uma doença com diagnóstico e tratamento gratuitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a tuberculose continua representando um dos maiores desafios para a saúde pública na Bahia. Em 2025, o estado registrou 4.754 casos da doença e 424 mortes, segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab). Somente em 2026, até o dia 14 de julho, já haviam sido contabilizados 2.176 casos, o que demonstra que a enfermidade permanece em circulação e exige atenção constante das autoridades de saúde e da população.
A situação baiana acompanha um cenário preocupante em todo o país. O Brasil registra, em média, entre 84 mil e 86 mil novos casos e cerca de 6 mil mortes por tuberculose todos os anos. Mundialmente, a doença continua entre as infecções que mais provocam óbitos. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que 10,7 milhões de pessoas adoeceram em 2024 e aproximadamente 1,23 milhão morreram em consequência da doença. Apesar disso, o Brasil vem apresentando avanços no diagnóstico.
De acordo com o Relatório Global da Tuberculose 2025, 89% das pessoas que desenvolveram a doença foram diagnosticadas e notificadas oficialmente em 2024, colocando o país entre aqueles com melhor cobertura de serviços para enfrentamento da enfermidade.
Tratamento
Embora o tratamento esteja disponível gratuitamente pelo SUS, especialistas afirmam que a tuberculose continua sendo fortemente influenciada por fatores sociais. A demora para procurar atendimento, as dificuldades enfrentadas por pessoas em situação de vulnerabilidade e o abandono do tratamento continuam sendo os principais entraves para reduzir o número de casos e mortes.
Para a infectologista Clarissa Cerqueira, a tuberculose vai muito além de uma infecção causada por uma bactéria.
“A tuberculose é uma doença muitas vezes socialmente determinada e ligada à vulnerabilidade social. Muitas pessoas passam semanas com tosse antes de procurar atendimento. Isso faz com que elas evoluam para formas mais graves e também transmitam a doença para outras pessoas”, explica.
Segundo a médica, um dos problemas mais frequentes é que muitos pacientes ignoram os primeiros sintomas ou acreditam que a tosse persistente seja consequência de uma gripe prolongada, alergia ou pneumonia. Quando finalmente procuram atendimento, a doença já está em estágio mais avançado.
Sintomas
Os principais sintomas da tuberculose são tosse persistente por mais de duas ou três semanas, febre, geralmente no fim do dia, suor noturno, perda de peso sem causa aparente, cansaço e, em alguns casos, falta de ar. A recomendação é que qualquer pessoa com esses sinais procure imediatamente uma unidade de saúde para investigação.
“A orientação é não esperar os sintomas piorarem. Quem apresenta tosse persistente e febre deve procurar atendimento rapidamente. No início, a tuberculose pode ser confundida com uma pneumonia ou outra infecção respiratória. Quanto antes o diagnóstico for feito, maiores são as chances de cura e menor é o risco de transmitir a doença”, afirma Clarissa Cerqueira.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a tuberculose não é transmitida pelo compartilhamento de objetos pessoais. A transmissão acontece exclusivamente pelo ar. Quando uma pessoa com tuberculose pulmonar ou da laringe fala, tosse ou espirra, pequenas partículas contendo a bactéria ficam suspensas no ambiente e podem ser inaladas por outras pessoas.
“A tuberculose é transmitida exclusivamente pelo ar. Ela não passa por copos, talheres, roupas, toalhas, abraços ou aperto de mão. Somente as formas pulmonar e laríngea transmitem a doença”, esclarece a infectologista.
Transmissão
Por isso, ambientes fechados, pouco ventilados e com grande circulação de pessoas favorecem a disseminação da bactéria. Em contrapartida, manter portas e janelas abertas, permitindo a circulação do ar e a entrada de luz solar, reduz significativamente o risco de transmissão.
A tuberculose tem cura, mas exige disciplina do paciente. O tratamento é gratuito e dura, em média, entre seis e doze meses. Mesmo quando os sintomas desaparecem nas primeiras semanas, é fundamental continuar tomando os medicamentos até o fim. Segundo Clarissa Cerqueira, interromper a medicação antes do tempo recomendado representa um dos maiores desafios enfrentados pelas equipes de saúde.
“Muitas pessoas melhoram nas primeiras semanas e acreditam que estão curadas. O maior risco de interromper a medicação é desenvolver uma tuberculose multirresistente, além de a doença voltar e continuar sendo transmitida para outras pessoas”, alerta.
Para evitar o abandono do tratamento, o SUS utiliza o Tratamento Diretamente Observado (TDO), estratégia em que profissionais de saúde acompanham o paciente durante o uso da medicação para garantir que todas as doses sejam tomadas corretamente.
Outra medida importante é a vacinação com a BCG, aplicada ainda na maternidade. Embora ela não impeça totalmente a infecção, reduz significativamente o risco das formas mais graves da doença, como a meningite tuberculosa em crianças.
Máscara
A infectologista também reforça que todos os familiares e pessoas que convivem com um paciente diagnosticado devem procurar uma unidade de saúde para avaliação, já que podem ter sido expostos à bactéria sem apresentar sintomas. Além disso, durante os primeiros dias de tratamento, o uso de máscara pelo paciente ajuda a diminuir o risco de transmissão até que a carga bacteriana seja reduzida.



