Entenda por que cuidar da saúde mental das mulheres com HIV/aids é parte fundamental para a qualidade de vida e o bem-estar.
Durante o Outubro Rosa, campanha voltada à saúde feminina, o Grupo de Trabalho em Prevenção Posithivo (GTP+), do Recife, chama atenção para a realidade das mulheres que vivem com HIV em Pernambuco. Entre os principais desafios estão o diagnóstico tardio, o preconceito e a falta de apoio emocional.
Entre 2020 e 2024, Pernambuco registrou 4.393 novos diagnósticos de HIV em mulheres, o equivalente a 27,8% do total estadual, segundo o Informe Epidemiológico HIV/Aids 2025, da Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE).
Entre mulheres com 13 anos ou mais, 94,5% dos casos tiveram transmissão heterossexual, perfil que ajuda a explicar por que muitas não se percebem em situação de risco e adiam a testagem.
Diagnóstico tardio preocupa entre mulheres mais velhas
Os dados epidemiológicos mostram que 53,7% dos casos de aids entre pernambucanas foram registrados a partir dos 40 anos. Entre os homens, a proporção foi de 43,8%. No período analisado, as mulheres também representaram 33,7% das mortes por aids.
Outro dado que chama atenção é o crescimento dos diagnósticos entre mulheres com 60 anos ou mais. Os registros passaram de 30, em 2020, para 66, em 2024.
Gravidez ainda é uma das principais portas de entrada para o diagnóstico
Em 2024, Pernambuco notificou 532 gestantes com HIV, a maior taxa da série histórica: 4,8 casos por mil nascidos vivos.
Entre 2020 e 2024, 37,4% das gestantes diagnosticadas souberam da infecção durante o pré-natal. Cerca de uma em cada nove recebeu o diagnóstico apenas no parto ou depois dele. No mesmo intervalo, 2.601 crianças foram expostas ao vírus.
Um estudo realizado em Porto Alegre pelo Grupo Hospitalar Conceição em parceria com a Universidade da Califórnia (UCLA) também identificou que mais de um terço dos diagnósticos tardios de HIV ocorreu entre mulheres heterossexuais com filhos.
Apoio psicológico é importante após o diagnóstico
Além dos desafios relacionados à saúde, mulheres que recebem o diagnóstico de HIV podem enfrentar medo da rejeição, preconceito e falta de apoio familiar.
Um levantamento realizado em Natal com pessoas vivendo com HIV identificou sintomas de depressão em 40% dos participantes, com maior impacto entre as mulheres.
A experiência de Priscila Batista Miranda da Silva, acolhida pelo GTP+, evidencia a importância do acompanhamento psicológico diante de situações de discriminação.
“A gente já tem muito problema com a família quando se assume como um corpo trans. Às vezes, a gente fica magoada pelo preconceito da família, e não tem uma pessoa que venha apoiar a gente. Ainda tem o preconceito do dia a dia que a gente enfrenta na rua: ser um corpo trans, negra e periférica já é enfrentar preconceito todo dia. Então, é muito bom ter um acompanhamento psicológico, muito bom mesmo”, relata.
Fundado em 2000, o Grupo de Trabalho em Prevenção Posithivo (GTP+) foi a primeira organização do Nordeste conduzida por pessoas que vivem com HIV. No Centro do Recife, a entidade mantém o Projeto Testar e Cuidar, aberto a todas as mulheres, independentemente do diagnóstico, e à população em geral.
O serviço oferece testes rápidos, gratuitos e sigilosos para HIV, sífilis e hepatites B e C, sem necessidade de agendamento. O atendimento também inclui aconselhamento psicológico, com o objetivo de garantir orientação e acolhimento durante o processo de testagem.
“Uma mulher diagnosticada com o HIV acaba enfrentando um luto do diagnóstico, o medo, inseguranças e, muitas vezes, precisa lidar com o preconceito e com o medo de ser rejeitada. Quando ela está emocionalmente fragilizada, pode ter mais dificuldade para manter a rotina do tratamento”, explica Danielle Barbosa, psicóloga do GTP+.
A profissional ressalta que o cuidado emocional contribui para que as mulheres mantenham o acompanhamento de saúde sem culpa ou julgamento. Ela também destaca que viver com HIV não significa necessariamente desenvolver problemas de saúde mental.
Sobrecarga de tarefas também afeta a rotina de cuidados
A desigualdade na divisão do trabalho doméstico e dos cuidados com outras pessoas é outro fator que pode dificultar a atenção à própria saúde.
No Nordeste, as mulheres dedicam, em média, 23,5 horas semanais a essas atividades, enquanto os homens destinam 11,8 horas, segundo a PNAD Contínua 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Nesse contexto, espaços de acolhimento podem ajudar a reduzir o isolamento e oferecer apoio para lidar com o diagnóstico e as infecções sexualmente transmissíveis.
“A pessoa já está tão aflita, tão triste, tão abatida, que a gente tem que indicar um lugar de acolhimento. Para mim, esse lugar é o GTP+, um lugar de confiança e segurança para falar sobre HIV e infecções sexualmente transmissíveis”, completa Priscila.
Serviço: Projeto Testar e Cuidar – GTP+
Atendimentos: testagem gratuita e sigilosa para HIV, sífilis e hepatites B e C, além de aconselhamento psicológico.
Endereço: Rua Gervásio Pires, Galeria 436, loja 8, Centro, Recife (PE).
Horário: de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, sem necessidade de agendamento.
E-mail: gtp@gtp.org.br.
Instagram: @gtposithivo.




