O que significa, de fato, falar em cura do HIV? Para além dos avanços científicos e das pesquisas que buscam eliminar o vírus do organismo, ativistas, pesquisadores e pessoas que vivem com HIV defenderam que essa discussão precisa ir além dos laboratórios. Para eles, pensar em cura também significa enfrentar o estigma, as desigualdades sociais e as diversas formas de violência que ainda marcam a vida de quem convive com o vírus.
Essa foi a proposta do encontro Além da Ciência: O Que a Cura Significa para Nossa Comunidade, realizado durante a programação “Cadê a cura, mona?”, no espaço HIV Cure & Prevention Research & Advocacy Networking Zone (AVAC), na Global Village da 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026). O debate reuniu a pesquisadora, antropóloga e ativista Pisci Bruja, a artista plástica e ativista Micaela Cyrino e a pesquisadora Luciana Kamel para ampliar a reflexão sobre o significado da cura a partir das experiências das comunidades mais afetadas pela epidemia.
Ao longo da conversa, ficou claro que a ideia de cura ultrapassa a dimensão biomédica. Embora o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas continue sendo prioridade para a ciência, as palestrantes defenderam que uma eventual cura só será completa se também enfrentar as desigualdades que dificultam o acesso à saúde e comprometem a qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV.
Para Pisci Bruja, a cura representa também uma forma de reparação histórica diante das marcas deixadas por mais de quatro décadas da epidemia.
“Ela é tanto um aspecto biomédico quanto uma espécie de reparação histórica diante de todo o trauma, do estigma e das violências estruturais e institucionais que fazem com que as pessoas ainda hoje adoeçam e morram em decorrência da aids”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, essa perspectiva amplia o debate para questões que frequentemente ficam fora das pesquisas biomédicas. Entre elas estão o desejo de envelhecer com qualidade de vida, os impactos dos efeitos prolongados dos medicamentos, os processos inflamatórios associados ao HIV e, principalmente, o peso de viver permanentemente sob o estigma.
“Quando as pessoas falam em cura, elas também falam sobre parar de esconder os medicamentos, deixar de sofrer com os efeitos colaterais, não precisar mais viver sob o medo da discriminação e poder pensar no futuro com mais tranquilidade”, resumiu.
Corpos historicamente invisibilizados

A artista plástica e ativista Micaela Cyrino levou ao encontro uma perspectiva construída a partir de sua pesquisa artística sobre a cura, desenvolvida desde 2015. Para ela, discutir esse tema exige reconhecer que alguns grupos continuam pouco contemplados tanto pelas pesquisas quanto pelas políticas públicas.
Micaela chamou atenção para o silenciamento vivido por jovens que nasceram com HIV e, especialmente, por mulheres negras que vivem com o vírus.
Segundo ela, esses corpos permanecem invisibilizados em diferentes espaços, o que repercute diretamente na produção de conhecimento e na formulação de políticas de saúde.
“A gente precisa pensar a cura de forma mais ampla. Não basta discutir apenas a pesquisa biomédica. É preciso olhar para a saúde integral dessas pessoas, especialmente para a saúde mental, que continua sendo profundamente negligenciada”, afirmou.
Embora reconheça avanços na participação da sociedade civil e de mulheres nos espaços de decisão, a ativista avalia que as mudanças ainda caminham em ritmo lento. “É um caminho que poderia ser mais rápido, mas que continua avançando.”
Comunidade como protagonista da pesquisa
Outro eixo importante da conversa foi a defesa de uma participação efetiva das comunidades na construção das pesquisas sobre cura do HIV.

Para Pisci Bruja, não é possível pensar em uma cura desenvolvida exclusivamente dentro dos laboratórios. Segundo ela, as pessoas diretamente impactadas pelos resultados dessas pesquisas precisam participar da construção desse conhecimento desde o início.
A pesquisadora destacou que questões práticas — como o acesso aos serviços de saúde após uma eventual cura, o acolhimento de populações historicamente marginalizadas e a continuidade dos cuidados especializados — precisam integrar esse debate desde agora.
Ela também ressaltou o papel da arte como uma ponte entre pesquisadores e comunidades. “As artes conseguem traduzir temas científicos complexos para uma linguagem mais próxima das comunidades. Mas esse diálogo também acontece no sentido contrário: as experiências das comunidades ajudam a produzir um conhecimento científico mais conectado com a realidade.”
Uma discussão que precisa sair da Conferência
Entre os participantes do encontro estava o psicólogo Lirio Nascimento, que destacou o caráter simbólico de levar esse debate para dentro da própria Conferência Internacional de Aids.
Segundo ele, embora a busca pela cura ocupe um espaço importante na pesquisa científica, ainda são poucas as oportunidades para discutir o que ela representa, na prática, para quem vive com HIV.
“É histórico estarmos discutindo isso dentro da IAS. A cura tem sido constantemente silenciada. Fazer esse debate na Global Village, junto com ativistas e pessoas que vivem com HIV, abre espaço para disputar esse tema e pensar em uma cura que seja realmente universal.”
Para Lirio, o próximo desafio é garantir que as reflexões produzidas durante a conferência ultrapassem os limites do evento e alcancem as comunidades.
“Essas conferências ainda ficam muito fechadas em si mesmas. O nosso esforço na Global Village é justamente ampliar esse diálogo. Agora será importante observar como essa discussão vai reverberar nos próximos dias.”

Ao final do encontro, as diferentes vozes presentes convergiram para uma mesma conclusão: a busca pela cura do HIV não pode ser restrita ao sucesso de uma estratégia biomédica. Os avanços da ciência seguem fundamentais, mas uma cura só fará sentido se vier acompanhada da redução das desigualdades, da ampliação do acesso à saúde e do enfrentamento do estigma que, mais de quatro décadas após o início da epidemia, ainda marca a vida de milhões de pessoas. Mais do que um resultado laboratorial, ela precisa representar dignidade, reconhecimento e o direito de viver sem discriminação.
Bárbara Clara
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




