12/12/2006 – 12h20
Não é consenso, mas, oficialmente, considera-se que a Terceira Idade começa aos 60 anos. Com o aumento da longevidade e da qualidade de vida proporcionada pelos avanços da medicina, esse período da vida é cada vez mais dilatado. Em razão disso, o idoso se expõe por mais tempo aos problemas e alegrias de uma vida ativa, inclusive sexualmente. “O idoso não nasceu na era da Aids. As DST [Doenças Sexualmente Transmissíveis] existiam, mas não eram mortais. Os idosos não se veêm como um grupo exposto ao vírus [HIV]”, avalia Nadjane Bezerra, assistente social do Hospital São Paulo, localizado na capital paulista. Em 2004, ela apresentou uma tese de mestrado ao departamento de Gerontologia da Pontíficia Universidade Católica (PUC) intitulada “O pulso Ainda Pulsa: O Comportamento Sexual como expressão da Vulnerabilidade de um Grupo de Idosos Soropositivos”. Segundo Nadjane, no seu dia-a-dia na enfermaria do Hospital Emílio Ribas, onde trabalhou até agosto, ela percebeu um aumento do número de idosos infectados pelo vírus HIV. Por isso, deu início a uma pesquisa qualitativa com 8 pacientes (5 homens e 3 mulheres): todos acima de 60 anos e infectados pela via sexual.
A pesquisa, apresentada dois anos atrás, antecipou os resultados do Boletim Epidemiológico de 2006, divulgado no final de novembro. Segundo dados do Ministério da Saúde, de 1996 a 2005, houve crescimento da taxa de incidência de Aids entre homens e mulheres com mais de 60 anos. Nos homens, a taxa, que era de 5,9, passou para 8,8 (a cada 100 mil habitantes). No caso do sexo feminino, de 1,7 para 4,6. Para os representantes do governo federal, a resistência ao uso do preservativo, por indíviduos dessa faixa etária, contribuíu para o resultado. Além disso, para o Ministro da Saúde, Agenor Álvares, a inclusão de novos medicamentos contra a disfunção erétil também auxiliou, ainda que de forma indireta, no aumento do número de casos da doença.
O diretor médico da Pfizer, Dr. João Fittipaldi, discorda. A farmacêutica é a fabricante do Viagra, o medicamento de disfunção erétil mais vendido no país. “Não acredito que o crescimento da Aids entre os idosos tenha a ver com o Viagra. O medicamento não pode ser responsabilizado, pelo contrário, vejo o Viagra mais como um aliado do preservativo, uma vez que ele mantém a ereção e a não utilização da camisinha está associada ao medo de perder a ereção”, argumenta Fittipaldi. Segundo o médico, a companhia realizou uma pesquisa sobre o tema com homens acima de 40 anos (70% deles com parceira fixa). Os resultados foram assustadores: o uso do preservativo não faz parte dos hábitos de 80% dos entrevistados porque 59% dos pesquisados avaliam que a camisinha atrapalha a ereção e 28% temem perder a ereção.
Mesmo antes da divulgação dos resultados do Boletim Epidemiológico desse ano, a empresa já havia criado dois projetos de prevenção às DST/Aids voltados para a terceira idade. O “Cartas na Mesa”, feito em parceria com o Instituto Kaplan, trabalha a sexualidade dos idosos por meio de cartas de baralho. Desde 2000, estima-se que a campanha já tenha ultrapassado dez mil beneficiados. Em outra iniciativa, também focada para pessoas que já passaram dos 40 anos, atores encenam, em várias capitais do país, pequenas peças voltadas para prevenção. Iniciada em 20 de setembro de 2005, a Pfizer estima que a campanha tenha atingido, até o momento, 31 mil e 600 pessoas.
O ativista Emilio Hugo Graeser, vice-presidente do Grupo de Apoio Amar é Viver, fala dos “viagras da vida” como uma das causas do aumento da incidência de Aids entre os mais velhos, mas admite que “há uma pequena resistência e um certo desconhecimento” ao preservativo. “Antigamente a pessoa ficava presa em casa, hoje estão aproveitando mais, vão nos bailes de gafieira”, brinca Graeser, de 66 anos. A ONG da qual faz parte trabalha com prevenção na zona norte da capital paulista.
Em pesquisa “qualitativa” realizada para sua tese de mestrado, a assistente social Nadjane Bezerra também concluiu que os idosos “não se reconhecem” como um grupo vulnerável à pandemia. “É um grupo que precisa de muita atenção. As campanhas [de prevenção] não são voltadas pra esse grupo”, explica Bezerra. Em razão disso, quase sempre o diagnóstico é “tardio”. Formada pela Universidade Federal de Pernambuco, a assistente social explica que os idosos esperam contrair algumas doenças típicas da idade avançada (“como um câncer ou um alzheimer”, diz), mas nunca Aids. “Alguns até negam a doença”, lamenta a pernambucana de 31 anos, que há dez adotou São Paulo como casa.
Léo Nogueira e Maurício Barreira


