Aids: da crise à esperança — O Globo

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É possível transformar uma tragédia em história de superação e confiança na ciência.

Mais de quatro décadas após o surgimento dos primeiros casos de aids, o mundo assiste a uma transformação profunda na forma de lidar com o vírus HIV. O diagnóstico, que nas décadas de 80 e 90 era visto como sentença de morte, tornou-se, graças aos avanços da ciência e das políticas públicas, uma condição controlável. Hoje, pessoas com o vírus têm expectativa de vida semelhante à do restante da população.

Os primeiros registros da síndrome da imunodeficiência adquirida ocorreram em 1981, nos Estados Unidos. A falta de conhecimento sobre o agente causador, somada ao preconceito contra populações vulneráveis, transformou a aids numa tragédia social antes mesmo de ser plenamente compreendida. Em 1983, pesquisadores franceses identificaram o vírus da imunodeficiência humana (HIV) como responsável pela doença, abrindo caminho para o desenvolvimento de exames e tratamentos mais direcionados.

Além do impacto devastador, com o aumento constante de vítimas, a aids também representou enorme desafio para a medicina. Muitos especialistas consideram essa luta uma das histórias mais marcantes da medicina moderna, não apenas pelos avanços científicos, mas também pela mobilização social e pela consolidação de políticas públicas eficazes. No Brasil, desempenhamos papel importante nessa trajetória.

A Casa da Aids do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), criada em 1994, destacou-se por projetos de pesquisa nacionais e internacionais, programas de extensão à comunidade, educação continuada para alunos e treinamento em serviço para profissionais de saúde, entre outras iniciativas pioneiras.

O Brasil também inovou ao garantir, em 1996, o acesso universal e gratuito aos antirretrovirais pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — medida que salvou milhares de vidas e se tornou referência mundial no enfrentamento da epidemia.

Os primeiros coquetéis antirretrovirais, lançados na segunda metade da década de 90, revolucionaram o tratamento ao combinar medicamentos que impedem a multiplicação do HIV. A adesão a essas terapias reduziu drasticamente a carga viral dos pacientes. Com o avanço da prevenção, a medicina passou a oferecer ferramentas eficazes para evitar novas infecções. A profilaxia pré-exposição (PrEP), introduzida no Brasil em 2018, permite que pessoas com maior risco tomem antirretrovirais de forma preventiva. Estudos mostram que, quando usada corretamente, a PrEP reduz em até 99% as chances de infecção. Essa estratégia integra um modelo mais amplo de prevenção combinada, que inclui o uso de preservativos, testagem regular e tratamento imediato após o diagnóstico, além da profilaxia pós-exposição (PEP).

O avanço mais recente é o desenvolvimento das formas injetáveis de PrEP, que representam uma nova geração de prevenção contra o HIV. Diferentemente das versões orais, oferecem proteção de longa duração, com aplicações entre dois e seis meses, conforme o medicamento. Ensaios clínicos mostram que sua eficácia é superior à da PrEP oral, principalmente por melhorar a adesão, um dos maiores desafios das estratégias preventivas.

No Brasil, a PrEP injetável de longa duração foi aprovada pela Anvisa em 2022 e está em implantação no SUS desde 2023, priorizando grupos com maior vulnerabilidade. O medicamento é aplicado a cada dois meses e apresenta eficácia comprovada acima de 99% quando mantido o esquema corretamente.

Paralelamente, uma formulação injetável de ação ainda mais prolongada, capaz de proteger por até seis meses, está em avaliação pela Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos. Se aprovada no Brasil, representará avanço adicional, oferecendo mais comodidade e favorecendo a adesão em larga escala, especialmente em regiões onde o acompanhamento contínuo é um desafio.

Os números mais recentes do Ministério da Saúde indicam que o Brasil possui cerca de um milhão de pessoas vivendo com HIV, mais de 90% delas têm acesso ao tratamento. O País mantém uma das políticas mais abrangentes do mundo, com testagem gratuita, distribuição de medicamentos e campanhas educativas contínuas. Essa estrutura consolidou uma rede de cuidados que hoje serve de exemplo para outras nações em desenvolvimento.

Apesar dos avanços, a cura definitiva ainda é um sonho. Casos raros de pacientes considerados “curados” após transplantes de medula óssea oferecem pistas promissoras, mas não são viáveis em larga escala. A pesquisa segue em ritmo acelerado, com estratégias que vão de vacinas terapêuticas a técnicas de edição genética capazes de eliminar o vírus das células infectadas.

Mais de 40 anos após o surgimento do HIV, muita coisa mudou. O medo e o estigma dos primeiros anos deram lugar à esperança. A aids pode ainda não ter cura, mas os avanços científicos, a solidariedade entre pacientes e a atuação consistente das políticas públicas provam que é possível transformar uma tragédia em história de superação e confiança na ciência.

Opinião por David Uip

Médico infectologista, reitor do Centro Universitário FMABC, é diretor nacional de Infectologia da Rede D’Or

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