15/2/2007 – 18h15
“Isto ainda não é a cura da Aids, porque o anticorpo não vai ter acesso ao vírus que já está alojado dentro da célula infectada,” disse o infectologista Ésper Kallas sobre a descoberta de um “ponto fraco” do HIV divulgada na noite desta quarta-feira (leia). Cientistas do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla em inglês), demonstraram pela primeira vez como um anticorpo de combate a infecções consegue aproveitar uma falha na formidável defesa do vírus HIV para atacá-lo.
Kallas explicou que todas as vezes que se fala em vacina, o conceito é o das vacinas infantis, como a contra a poliomielite, ou a da hepatite B, para adultos e crianças. Ou seja, baseia-se em estimular a produção de anticorpos em nossos organismos para neutralizar e destruir o agressor. “No caso do HIV, não se conseguiu desenvolver uma anticorpo que seja eficaz, por causa das mutações do vírus. Os testes anti-HIV verificam se a pessoa possui os anticorpos, mas estes não atuam contra o vírus. Este anticorpo B12, observado pelos cientistas americanos, pode servir para o desenvolvimento de uma vacina para prevenir a infecção pelo HIV, pode ajudar a evitar a transmissão vertical e até ajudar no tratamento de pessoas infectadas, associado a outras drogas, mas não é a cura,” enfatizou.
O diretor adjunto do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, Artur Kalichman, declarou existir na descoberta duas questões importantes que podem mudar o desenvolvimento de um novo medicamento ou vacina. “Primeiro, é que esta parte do vírus que foi identificada não é variável. Antes teriam que ser desenvolvidas vacinas específicas para cada cepa diferente do HIV e agora a expectativa é que qualquer vacina vai funcionar em qualquer lugar, seja aqui no Brasil, na África ou na Tailândia.”, disse ele. Outra questão levantada por ele, “é que as vacinas esterilizantes, utilizadas para deter a multiplicação do vírus no sangue, são mediadas por anticorpos e acabam sendo ineficazes, pois não acessam pedaços do vírus que ficam ocultos. E este segmento do HIV que foi observado parece ser importante para o vírus penetrar nas células, então pode dar origem á produção de vacinas ou medicamentos que possam estimular a produção de anticorpos.” Kalichman ressaltou que a descoberta de um ponto vulnerável, que parece ser altamente estável e crítico, é crucial. “No entanto, é preciso conseguir atingir este ponto, o que é uma outra etapa. Mas pelo menos temos um alvo e a Aids é um campo onde o tempo entre a pesquisa básica e sua aplicação é um dos mais curtos dentro da ciência,” concluiu.
Para o integrante do Comitê Nacional de Vacinas Jorge Beloqui, “é um estudo importante, mas por enquanto é só uma promessa. Uma vacina ainda vai demorar. Essa proteína [gp120] tem vários estudos, mas ainda não há informações muito novas”.
Maurício Barreira e Rodrigo Vasconcellos


