27/11/2014 – 12h
O site do “Jornal de Brasília” publicou nessa quinta-feira reportagem de Jéssica Antunes sobre o aumento de casos de HIV/aids na população mais jovem do Distrito Federal. Segundo o Boletim Epidemiológico do ano passado, de 2001 a 2012, os registros no DF aumentaram 188% na faixa entre 15 e 24 anos, passando de 26 para 75. Leia a reportagem a seguir:
Ela não se relacionou sem proteção, não usou agulhas infectadas, não fez transfusão com sangue contagiado e não foi cortada por instrumentos suspeitos. Alessandra Diniz (nome fictício) já nasceu com o vírus HIV no sangue e, aos 16 anos, convive com a doença. Hoje, o tratamento permite ao soropositivo uma vida normal, mas 37% dos novos casos no DF são de jovens entre 15 e 29 anos. Em 11 anos, o número subiu 188%. Na próxima segunda-feira, é lembrado o Dia Mundial de Combate à Aids.
“Para mim, não há diferença alguma. Cresci acostumada com a doença, tomando remédios, convivendo com pessoas soropositivas”, revela Alessandra. Ela trata com naturalidade a presença do vírus e explica que apenas os amigos mais íntimos sabem de sua situação. “Não tem pra quê ficar espalhando”, justifica.
Origem
Da família, apenas a irmã mais nova, de 15 anos, não tem Aids. A suspeita é de que seu pai tenha contraído o vírus de um relacionamento extraconjugal.
“Minha mãe descobriu a doença depois que eu já tinha nascido. Todos fizemos o teste e, com o resultado positivo, começamos o tratamento”, conta. Hoje, ela toma sete comprimidos diários.
Alessandra diz não sofrer preconceito. “Só quando era pequena, na escola, mas por causa do lugar que eu moro, nunca por eu ter a doença”, pondera.
A garota vive na comunidade de soropositivos Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista (Fale), onde também encontrou seu namorado.
“A pior parte é a privação de relacionamentos”, admite. O namorado não possui a doença, mas tem histórico com familiares. “Nós já éramos amigos. É bom porque ele me entende”.
Quase cem bebês nascidos com HIV
Alessandra vive uma vida normal, com dignidade, respeito, amigos e familiares. Sem exclusão ou discriminação, sente até certa dificuldade em dizer se vê diferença no tratamento fora dos portões da instituição onde vive, a Fale. Mas, há dez anos, seu irmão foi vítima das consequências da doença.
Aos dois anos e sete meses de idade, a criança teve complicações no hospital. Fraco com o diagnóstico tardio de micose na região oral, foi internado e, ali, com a imunidade fragilizada, adquiriu outras infecções e não resistiu.
Assim como Alessandra, neste ano 96 crianças nasceram com a doença, transmitida pela mãe durante a gestação, mas o número preocupante envolve os novos casos. No Distrito Federal, além de os jovens entre 15 e 29 anos representam 37% dos diagnósticos de aids, neste ano, 197 pessoas soropositivas foram identificadas. Entre 2008 e 2013, 508 diagnósticos foram registrados por ano, revela a Secretaria de Saúde.
Para Mário Ângelo Silva, coordenador do Polo de Prevenção DST/ Aids do Hospital Universitário de Brasília, um grave problema que torna os jovens mais vulneráveis é o uso abusivo de álcool e outras drogas. “Mesmo tendo conhecimentos sobre a importância de usar preservativos, a pessoa baixa a guarda e acha que não vai acontecer com ela, não tomando devidos cuidados”, afirma.
“A questão da aids está mais banalizada. Como tem tratamento, as pessoas acham que é algo mais simples, mas isso não é fácil. É um tratamento quase quimioterápico. Tem efeitos colaterais bastante severos”, alerta o especialista. Ele entende que a banalização está associada à eficácia do controle. “É preciso compreender que é um tratamento para a vida toda.”


