AIDS 2026 termina no Rio com apelo à solidariedade, defesa da ciência e grito por acesso universal: “A cura já existe, e ela se chama solidariedade”

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Cerimônia de encerramento reuniu líderes mundiais, ativistas e cientistas em um chamado emocionante para proteger conquistas históricas, enfrentar os cortes de financiamento e garantir que os avanços científicos cheguem a quem mais precisa

A 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026) terminou nesta sexta-feira (31) sob aplausos, lágrimas e um sentimento compartilhado de urgência. Depois de cinco dias em que a ciência apresentou avanços históricos — da prevenção de longa duração aos novos caminhos rumo à cura do HIV —, a cerimônia de encerramento deixou uma mensagem inequívoca: nenhuma inovação terá valor se permanecer inacessível para milhões de pessoas.

Mais do que celebrar descobertas, a conferência terminou lembrando que a epidemia continua sendo marcada por desigualdades, cortes de financiamento, racismo, estigma e exclusão. Em praticamente todos os discursos, uma palavra se repetiu: solidariedade.

Abrindo o encerramento, o presidente local da conferência, Dr. Draurio Barreira, destacou que os avanços apresentados ao longo da semana representam motivos reais para esperança, mas alertou que a ciência, sozinha, não basta.

“Os dados compartilhados aqui esta semana nos dão motivos para um otimismo genuíno”, afirmou, citando o tratamento oral semanal, os medicamentos injetáveis de longa duração e os avanços na busca pela cura do HIV. Ao mesmo tempo, lembrou que os participantes também testemunharam o impacto dos cortes globais de financiamento e das mudanças geopolíticas sobre comunidades inteiras.

Ao defender o Sistema Único de Saúde (SUS), Dr. Barreira ressaltou que sediar a AIDS 2026 no Brasil demonstrou “o que é possível quando respostas lideradas pela comunidade, sistemas públicos robustos e vontade política atuam em conjunto” e afirmou que as lacunas discutidas durante a conferência só serão fechadas quando governos transformarem conhecimento em políticas públicas concretas.

A co-presidente regional da conferência, Dra. Claudia Cortés, fez um dos discursos mais emocionantes da cerimônia. Depois de agradecer à comunidade internacional por levar ciência, experiência e compromisso à América Latina, lembrou que a resposta ao HIV nunca pertenceu apenas aos laboratórios.

“A resposta ao HIV é muito mais do que um campo científico. É uma comunidade”, afirmou.

Ela reconheceu os avanços científicos apresentados no Rio, mas alertou que o progresso não acontece de forma linear.

“No exato momento em que a ciência nos fornece ferramentas melhores, o financiamento global está sendo reduzido, programas estão sendo interrompidos, comunidades estão perdendo apoio e novos tratamentos que podem alterar o curso da pandemia ainda não estão sendo distribuídos de maneira equitativa.”

Dirigindo-se aos jovens pesquisadores e ativistas presentes, Dra. Cortés fez um apelo para que desafiem instituições, exijam políticas públicas justas e não aceitem que a liderança pertença apenas aos grandes centros científicos.

“Estamos mais perto do que nunca de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública. Mas estar perto não é o mesmo que chegar.”

“A cura já existe”

O momento de maior emoção da cerimônia veio com o pronunciamento comunitário de Jean Vinicius Oliveira, pesquisador, ativista da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) e representante da sociedade civil brasileira. Assim que subiu ao palco, o silêncio tomou conta do auditório. Com a voz embargada em diversos momentos, Jean falou não apenas como pesquisador, mas como alguém que viveu na própria pele as desigualdades que ainda alimentam a epidemia.

“Eu falo a partir da minha trajetória e do meu lugar de fala. Eu sou um homem negro, eu sou um homem gay, alguém que enfrentou a fome (…), alguém que teve que lidar com humilhações constantes e com muitas discriminações”, afirmou, diante de uma plateia que acompanhava o discurso em absoluto silêncio.

Ao recordar sua caminhada junto à Rede Estadual de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV e à ABIA, Jean disse carregar consigo “a voz de tantos corpos historicamente perseguidos, de vidas interrompidas pela morte evitável, mas que transformaram o luto e a luta em dor e resistência ancestral”. A declaração arrancou longos aplausos do público.

Em seguida, fez um reconhecimento à trajetória da resposta brasileira ao HIV. Lembrou que foi a sociedade civil organizada quem ensinou ao mundo que não haverá controle da epidemia sem enfrentar, simultaneamente, racismo, sexismo, LGBTfobia, desigualdades econômicas e todas as formas de discriminação. Para ele, são essas organizações que continuam garantindo que prevenção, tratamento e novas tecnologias sejam tratados como bens públicos globais e acessíveis a todas as pessoas.

À medida que o discurso se aproximava do fim, a emoção tomou conta do auditório. Muitos participantes enxugaram as lágrimas, enquanto outros se levantaram para aplaudir. O encerramento transformou-se em um dos momentos mais marcantes de toda a AIDS 2026.

“Transformemos as evidências que debatemos aqui em esperança viva e ação política concreta em todas as partes do planeta. Que sigamos de cabeça erguida, honrando quem veio antes de nós e construindo um futuro baseado na justiça, na verdade e na paz. No fim das contas, diante de todas as adversidades, a cura já existe, e ela se chama solidariedade.”

A frase final foi seguida por uma longa salva de aplausos, que ecoou pelo auditório e sintetizou o espírito da conferência: a convicção de que os avanços científicos precisam caminhar lado a lado com os direitos humanos, a justiça social e o compromisso coletivo de não deixar ninguém para trás.

Esta resposta não pode ser silenciada”

Ao se despedir da presidência da International AIDS Society (IAS), Dra. Beatriz Grinsztejn fez um dos discursos mais contundentes da cerimônia ao afirmar que a resposta global ao HIV vive um momento de transição. Sem ignorar os avanços científicos apresentados ao longo da conferência, ela alertou que o futuro da epidemia será definido menos pelas descobertas dos laboratórios e mais pela capacidade dos países de transformar essas inovações em acesso real para suas populações.

Dra. Grinsztejn defendeu que o protagonismo da resposta ao HIV precisa deixar de depender das prioridades estabelecidas por grandes financiadores internacionais e passar a ser conduzido pelos próprios países e pelas comunidades diretamente afetadas pela epidemia.

“A era de nossas prioridades em relação ao HIV conduzidas por doadores acabou”, afirmou. Segundo ela, essa mudança não ocorre apenas porque muitos financiadores internacionais reduziram seus investimentos, mas porque os próprios países e comunidades “sabem melhor do que ninguém o que precisam e o que funciona melhor para eles e para seu próprio povo”.

A infectologista brasileira ressaltou que essa nova etapa da resposta global exigirá alianças mais fortes entre países do Sul Global, fortalecimento das organizações comunitárias e proteção do espaço cívico para que movimentos sociais continuem participando das decisões políticas. Também fez um alerta contra o enfraquecimento das políticas baseadas em evidências e direitos humanos, defendendo que excluir as comunidades das decisões significa colocar em risco décadas de conquistas no enfrentamento ao HIV.

Para Dra. Grinsztejn, a AIDS 2026 deixa justamente esse legado: um novo caminho para a resposta global, construído a partir da ciência, da equidade e da participação comunitária. Ao encerrar sua gestão, ela lembrou que a conferência chega ao fim, mas que o verdadeiro trabalho continua nas clínicas, nas comunidades, nos centros de pesquisa e nos espaços onde são tomadas as decisões políticas que impactam a vida de milhões de pessoas.

“Não descansarei, e não descansaremos, até que todas as pessoas afetadas pelo HIV possam acessar a ciência de que precisam e os direitos a que têm direito”, concluiu, sendo aplaudida de pé por participantes de diversos países.

Duda Salabert recebe prêmio internacional e transforma discurso em manifesto

Um dos momentos mais aplaudidos da cerimônia foi a entrega do Barbara Lee Political Leadership Award à deputada federal Duda Salabert, apresentada virtualmente pela prefeita de Oakland, Barbara Lee.

Ao anunciar a vencedora, Bárbara Lee destacou a atuação de Duda na defesa dos direitos humanos, da população trans e pelo acesso universal ao lenacapavir, classificando sua atuação como exemplo da coragem política que o prêmio celebra.

Ao subir ao palco, Duda emocionou a plateia ao adaptar um poema de Ferreira Gullar para denunciar a realidade enfrentada pelas travestis brasileiras.

“No Brasil, mais de 40% das travestis estão hoje com HIV.
 No Brasil, mais de 40% das travestis hoje estão com HIV.
 No Brasil, mais de 40% das travestis hoje estão com HIV.”

Ao adaptar o poema de Ferreira Gullar, Duda Salabert transformou a homenagem em um contundente manifesto político. A repetição dos versos deixou de falar sobre a mortalidade infantil retratada pelo poeta para denunciar uma realidade que continua marcando a vida da população trans no Brasil. A cada repetição, o silêncio tomava conta do auditório, enquanto a plateia acompanhava atentamente a denúncia.

Na sequência, a deputada ligou a força do poema a um dos temas centrais da AIDS 2026: o acesso às novas tecnologias de prevenção. Ela lembrou que a ciência já produziu uma ferramenta revolucionária — o lenacapavir, capaz de prevenir a infecção pelo HIV com eficácia próxima de 100% —, mas advertiu que seu preço, estimado em cerca de R$ 200 mil por ano, torna o medicamento inalcançável justamente para as populações mais vulneráveis, entre elas travestis e transexuais. Diante desse cenário, anunciou que apresentou um projeto de lei para que o medicamento seja reconhecido pelo governo brasileiro como de interesse público, nacional e coletivo.

Em um dos trechos mais aplaudidos da cerimônia, Duda fez questão de afirmar que sua defesa do acesso ao medicamento não representa um ataque à ciência, mas uma exigência de que seus benefícios alcancem quem mais precisa.

“Eu não sou contra a ciência. Mas nenhuma patente pode estar acima da vida. (…) O papel da ciência é salvar vidas. O papel das patentes é promover a ciência. Mas o papel das patentes não é deixar os super-ricos ainda mais ricos.”

O discurso ganhou um tom ainda mais duro quando a parlamentar criticou os recentes cortes internacionais destinados à resposta ao HIV. Ao mencionar a redução do financiamento promovida pelo governo norte-americano, classificou seus impactos como um “genocídio silenciado”, afirmando que milhares de vidas estão sendo colocadas em risco pela interrupção de programas de prevenção e tratamento em diversos países. Ainda assim, fez questão de separar essas decisões da história do ativismo norte-americano, homenageando Barbara Lee e outros defensores da resposta global ao HIV.

Sob aplausos prolongados e com parte do público visivelmente emocionada, Duda encerrou sua fala resumindo a principal reivindicação que levou ao palco da AIDS 2026: “Vida acima da patente. Queremos o lenacapavir no SUS e vamos conquistar.” A frase ecoou pelo auditório como um dos últimos grandes chamados da conferência — um lembrete de que, sem acesso universal às novas tecnologias, os avanços científicos continuarão distantes das pessoas que mais precisam deles.

A nova liderança da IAS

A cerimônia também marcou a passagem de bastão na liderança da International AIDS Society (IAS). Ao assumir oficialmente a presidência da entidade, o pesquisador queniano Dr. Kenneth Ngure levou ao palco uma mensagem que ultrapassou fronteiras geográficas e resumiu o espírito de cooperação que marcou toda a AIDS 2026.

Inspirando-se na filosofia africana Ubuntu, começou sua fala lembrando que nenhuma conquista na resposta ao HIV foi construída individualmente. “Eu sou porque nós somos”, afirmou, explicando que o princípio, profundamente enraizado em diversas culturas africanas, ensina que a humanidade está interligada e que os maiores avanços só acontecem quando pessoas, comunidades e países escolhem caminhar juntos.

Em um discurso marcado por humildade e esperança, Dr. Ngure recordou sua primeira participação em uma conferência da IAS, em 2009, quando era apenas um jovem pesquisador do Quênia em busca de aprendizado e colaboração. Disse que jamais imaginou ocupar a presidência da maior sociedade científica dedicada ao HIV no mundo e aproveitou o momento para dirigir-se diretamente aos estudantes, jovens pesquisadores, profissionais de saúde e ativistas que lotavam o auditório.

“Talvez você esteja sentado onde eu estava em 2009. Talvez esteja se perguntando se suas ideias importam, se sua voz será ouvida e se você realmente pertence a este espaço. Minha resposta é simples: você pertence.”

Ao olhar para o futuro da resposta global ao HIV, Ngure reconheceu que a ciência vive um de seus momentos mais promissores. As tecnologias de prevenção de longa duração, novos tratamentos e a inovação em saúde pública estão redefinindo o que é possível. No entanto, advertiu que esses avanços terão pouco significado enquanto milhões de pessoas continuarem excluídas deles por razões econômicas, sociais ou políticas.

Foi nesse contexto que sintetizou a missão de sua gestão em três palavras: ciência, equidade e impacto.

“A ciência muda vidas apenas quando chega às pessoas”, afirmou. “A ciência como nossa base, a equidade como nossa medida e o impacto como nosso propósito — medido não pelas descobertas que fazemos, mas pelas vidas que transformamos.”

Ao encerrar, voltou ao conceito de Ubuntu para reforçar que o futuro da resposta ao HIV dependerá da capacidade de manter viva a colaboração entre pesquisadores, governos, organizações comunitárias e pessoas vivendo com HIV. Disse esperar que os jovens presentes um dia ocupem aquele mesmo palco e herdem um mundo “onde a ciência pertença a todos”. Recebido com calorosos aplausos, deixou uma mensagem que dialogou com todo o encerramento da AIDS 2026: a ciência pode abrir caminhos inéditos, mas somente a solidariedade e a equidade serão capazes de fazer esses avanços chegarem a quem mais precisa.

Música, resistência e um compromisso renovado

Quando os últimos discursos terminaram, não houve um silêncio de despedida. O auditório foi tomado pelos metais, tambores e pela energia contagiante do Bloco 442, que transformou a cerimônia de encerramento em uma celebração da vida. Delegados de dezenas de países deixaram seus lugares, cantaram, dançaram e se abraçaram, numa cena que simbolizou a própria história da resposta ao HIV: uma luta construída pela ciência, mas sustentada pela força das pessoas e das comunidades.

Mas a música não apagou o peso das mensagens que haviam ecoado no palco minutos antes. Ao contrário, parecia costurar em um único momento tudo o que a AIDS 2026 discutiu durante cinco dias: a esperança trazida pelos avanços científicos, a indignação diante das desigualdades, a defesa intransigente dos direitos humanos e o compromisso de não permitir que a epidemia volte a avançar por falta de vontade política.

Entre laboratórios e comunidades, entre pesquisadores e ativistas, entre ministros da Saúde, organizações da sociedade civil e pessoas vivendo com HIV, a conferência deixou uma certeza compartilhada: a ciência nunca esteve tão próxima de transformar definitivamente o curso da epidemia. Tratamentos mais simples, prevenção de longa duração e pesquisas promissoras rumo à cura apontam para um futuro que, há poucos anos, parecia inimaginável.

Ao mesmo tempo, a conferência também escancarou um paradoxo que atravessou praticamente todos os discursos de encerramento: de nada servirão as descobertas mais revolucionárias se continuarem inacessíveis para quem mais precisa delas. O verdadeiro desafio já não é apenas produzir conhecimento, mas garantir que ele ultrapasse as barreiras das patentes, das desigualdades sociais, do racismo, da transfobia, do estigma e dos cortes no financiamento internacional, chegando às pessoas cujas vidas dependem dele.

Foi essa a grande mensagem que o Rio de Janeiro entregou ao mundo ao apagar as luzes da AIDS 2026. A ciência mostrou que o futuro pode ser extraordinário. Mas a cerimônia de encerramento lembrou, de forma emocionante e contundente, que esse futuro não será construído apenas em laboratórios. Ele dependerá, sobretudo, de escolhas políticas corajosas, do fortalecimento das comunidades, da defesa dos direitos humanos e da solidariedade entre povos e nações.

Ao fim da conferência, permaneceram os aplausos, os abraços e a música. Mas, acima de tudo, permaneceu um compromisso coletivo: fazer com que cada descoberta científica deixe de ser apenas uma promessa e se transforme, de fato, em vida, dignidade e esperança para todas as pessoas, em todos os lugares.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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