Na mesma sessão da Conferência Internacional de AIDS, Dra. Inês Dourado e Adriano Queiroz da Silva mostraram que o futuro da prevenção ao HIV depende menos de novas tecnologias e mais da capacidade de levar o cuidado até onde as pessoas estão
A ampliação da oferta da profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV passa por um desafio que vai além do desenvolvimento de novos medicamentos: transformar a maneira como os serviços de saúde chegam às populações mais vulneráveis. Essa foi a principal mensagem da sessão “Avançando a Ciência e o Acesso à Prevenção do HIV – Sessão 5: Levando a prevenção à prática: da inovação à escolha no mundo real”, realizada durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026).
Embora tenham apresentado experiências diferentes, a pesquisadora Dra. Inês Dourado e o consultor técnico Adriano Queiroz da Silva defenderam princípios semelhantes: os serviços precisam ser flexíveis, utilizar ferramentas digitais, aproximar-se dos territórios e considerar as diferentes realidades das pessoas que mais necessitam da prevenção.

Enquanto Dra. Inês apresentou resultados de pesquisas com adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade, mostrando que educadores pares e estratégias comunitárias são fundamentais para aumentar o acesso e a permanência na PrEP, Adriano compartilhou a experiência da cidade de São Paulo, que vem utilizando teleatendimento, dispensadores automáticos instalados em estações de metrô e integração digital para facilitar o acesso à prevenção combinada.

Jovens precisam ser encontrados onde estão
Logo no início de sua apresentação, Dra. Inês Dourado destacou que o aumento da disponibilidade de clínicas, serviços e opções de PrEP não significa automaticamente mais equidade. Segundo a pesquisadora, persistem desafios como início tardio da profilaxia, baixa permanência no cuidado, estigma, discriminação de gênero e barreiras estruturais relacionadas à pobreza, escolaridade e transporte, especialmente na América Latina.
Como alternativa, ela apresentou os resultados do PrEP1519, estudo que incorporou educadores pares em todas as etapas da prevenção, desde o recrutamento até o acompanhamento dos usuários da PrEP. Os resultados mostraram que jovens da própria comunidade foram mais eficazes para alcançar adolescentes elegíveis à profilaxia. Aplicativos de relacionamento lideraram o recrutamento online, seguidos pelo Instagram, enquanto ações presenciais em praias, escolas, eventos culturais, saraus e manifestações permaneceram fundamentais para alcançar aqueles em maior situação de vulnerabilidade social.
Ao ampliar a discussão, Dra. Inês apresentou experiências desenvolvidas na África do Sul, que reforçam a importância do protagonismo dos educadores pares, da oferta comunitária da PrEP, da integração entre prevenção do HIV e saúde sexual e reprodutiva e do uso de ferramentas digitais em modelos de atendimento mais flexíveis para adolescentes e jovens.
Tecnologia aproxima os serviços da população
A proposta de aproximar a prevenção da rotina das pessoas também esteve no centro da apresentação de Adriano Queiroz da Silva, que mostrou como São Paulo vem utilizando ferramentas digitais para reduzir barreiras de acesso à PrEP.
Segundo ele, a estratégia começou com a criação do canal e-Saúde SP, plataforma de teleatendimento que permite avaliação clínica remota para início da PrEP e realização de testagem para HIV e outras IST. O usuário pode receber atendimento online e retirar a medicação em diferentes pontos distribuídos pela cidade.
Entre os principais destaques estão os dispensadores automáticos instalados em cinco estações do metrô paulistano. As máquinas permitem retirar PrEP, preservativos, acessar informações sobre prevenção e, posteriormente, medicamentos antirretrovirais, tornando os serviços mais acessíveis para pessoas que dificilmente procurariam uma unidade de saúde durante o horário comercial.
A estratégia também inclui a ampliação dos profissionais habilitados para prescrever PrEP, lembretes via WhatsApp para reduzir a interrupção do tratamento e início rápido da terapia antirretroviral para pessoas diagnosticadas com HIV. Segundo Adriano, a combinação dessas ações contribuiu para uma redução de 56% nas novas infecções por HIV registradas na capital paulista entre 2016 e 2025.


Diferentes estratégias, o mesmo objetivo
Apesar de partirem de realidades distintas, as duas apresentações convergiram ao defender que o sucesso da PrEP depende menos da existência de novos medicamentos e mais da capacidade dos sistemas de saúde de reorganizar seus serviços.
Enquanto a experiência do PrEP1519 demonstra que adolescentes precisam de espaços acolhedores, comunicação adequada e apoio de educadores pares para criar vínculos e permanecer no cuidado, a estratégia de São Paulo mostra que tecnologias como telemedicina, autoatendimento e dispensação descentralizada podem reduzir barreiras e ampliar o acesso quando integradas à rede pública de saúde.
Em comum, as duas experiências demonstram que não existe um único modelo de prevenção. O desafio passa por oferecer diferentes caminhos para diferentes pessoas, combinando inovação tecnológica, participação comunitária e serviços de saúde capazes de se adaptar às necessidades da população.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




