Em julho de 2026, o Brasil será palco de um dos eventos mais importantes da saúde global: a 26ª Conferência Internacional sobre Aids (Aids 2026), que acontecerá no Rio de Janeiro e também em formato virtual. Em meio a uma crise de financiamento sem precedentes e ao risco de retrocessos na resposta ao HIV, o encontro reunirá cientistas, pessoas vivendo com HIV, gestores públicos e movimentos sociais com um objetivo urgente: repensar, reconstruir e garantir a sustentabilidade das conquistas alcançadas nas últimas quatro décadas.
Mas para entender o peso deste momento, é preciso voltar no tempo.
Uma história que começa em meio ao medo
A primeira Conferência Internacional sobre Aids foi realizada em 1985, em Atlanta, nos Centers for Disease Control and Prevention. Naquele momento, o HIV ainda era cercado por medo, desconhecimento e forte estigma. Não havia tratamento eficaz, e o diagnóstico era frequentemente associado a uma sentença de morte.
As primeiras conferências foram marcadas por um caráter altamente científico, com pouca participação da sociedade civil. Isso começou a mudar no final dos anos 1980, quando ativistas passaram a ocupar esses espaços exigindo acesso a medicamentos, participação nas decisões e respeito aos direitos humanos.
Ativismo muda o rumo da epidemia
Um dos momentos mais emblemáticos dessa virada ocorreu em 1989, na conferência de Montreal, quando ativistas interromperam sessões para exigir inclusão. A partir dali, o lema “Nada sobre nós sem nós” passou a orientar o movimento global.
Nos anos 1990, a conferência de Vancouver, em 1996, marcou um divisor de águas: foi ali que a terapia antirretroviral combinada foi apresentada ao mundo, transformando o HIV em uma condição tratável para quem tem acesso ao tratamento.
Do acesso ao tratamento à justiça social

Nos anos 2000, as conferências passaram a refletir não apenas avanços biomédicos, mas também as profundas desigualdades no acesso ao tratamento. Em 2000, em Durban, a conferência escancarou a desigualdade global, especialmente na África, onde milhões morriam sem acesso a medicamentos já disponíveis em países ricos.
Foi nesta Conferência que Nelson Mandela fez um dos discursos mais emblemáticos da história do evento. Ao colocar o combate ao HIV/aids como uma questão de justiça social e direitos humanos, Mandela ajudou a romper o silêncio e a pressionar governos a agir diante da devastação no continente africano.
Esse período também foi marcado pela criação de grandes iniciativas globais, como o PEPFAR e o Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária, que ampliaram significativamente o acesso ao tratamento em países de baixa e média renda.
Ciência avança, desafios persistem
Ao longo dos anos 2010, conferências em cidades como Melbourne, Paris e Amsterdã destacaram avanços como o conceito “indetectável=intransmissível” (I=I) e novas estratégias de prevenção, incluindo a PrEP.
Mais recentemente, tecnologias de longa duração passaram a ganhar destaque, como os medicamentos lenacapavir e cabotegravir, considerados promissores para ampliar a adesão à prevenção e ao tratamento.

Linha do tempo das Conferências Internacionais sobre Aids (1985–2026)
1985 — Atlanta
Primeira conferência, organizada pelos Centers for Disease Control and Prevention. Foco científico em meio ao desconhecimento e medo.
1986 — Paris
Primeiros debates mais amplos sobre políticas públicas globais.
1987 — Washington, D.C.
Cresce a pressão por respostas governamentais.
1988 — Estocolmo
Ampliação da cooperação internacional.
1989 — Montreal
Marco do ativismo: protestos mudam o rumo das conferências.
1990 — San Francisco
Forte presença de movimentos sociais.
1991 — Florença
Debates sobre direitos humanos ganham força.
1992 — Amsterdã
Boicote internacional devido a políticas migratórias dos EUA.
1993 — Berlim
Conferência retoma centralidade global.
1994 — Yokohama
Primeira edição na Ásia.
1996 — Vancouver
Revolução científica: terapia antirretroviral combinada.
1998 — Genebra
Acesso desigual aos tratamentos entra no centro do debate.
2000 — Durban
Histórica: evidencia desigualdades globais e mobiliza o Sul Global.
2002 — Barcelona
Pressão por acesso universal aos medicamentos.
2004 — Bangkok
Fortalecimento da resposta em países em desenvolvimento.
2006 — Toronto
Tema do acesso universal ganha destaque.
2008 — Cidade do México
Foco na América Latina e populações-chave.
2010 — Viena
Relação entre HIV e políticas de drogas.
2012 — Washington, D.C.
Retorno após retirada de restrições a pessoas com HIV.
2014 — Melbourne
Homenagem a pesquisadores mortos no voo MH17.
2016 — Durban
Retorno simbólico à África do Sul.
2018 — Amsterdã
Destaque para prevenção e PrEP.
2020 — (virtual, com sede em San Francisco e Oakland)
Impacto da pandemia de Covid-19.
2022 — Montreal
Retomada híbrida e foco em equidade.
2024 — Munique
Discussões sobre sustentabilidade da resposta global.
Aids 2026: um ponto de inflexão

Chegando a 2026, o cenário é paradoxal. De um lado, os avanços científicos são inegáveis: desde 2010, as mortes relacionadas à aids caíram 54%, e as novas infecções diminuíram 40%. De outro, os números recentes do Unaids mostram estagnação: 1,3 milhão de novas infecções e 630 mil mortes em 2023 e 2024.
Além disso, 9,2 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não têm acesso ao tratamento.
A situação se agravou no início de 2025, com a suspensão de recursos internacionais — incluindo o PEPFAR —, desencadeando uma crise que ameaça desfazer décadas de progresso.
Assim como nas décadas anteriores, a Aids 2026 não será apenas uma vitrine de avanços científicos. O evento deve colocar no centro do debate questões estruturais que continuam a limitar a resposta ao HIV: estigma, discriminação, criminalização e desigualdades sociais.
Quarenta anos depois da primeira conferência, o mundo volta a um ponto crítico. A diferença é que agora há conhecimento, tecnologia e experiência acumulada. O desafio é garantir que tudo isso chegue a quem mais precisa.
Ao reunir diferentes setores da sociedade global, a conferência no Brasil representa mais do que um evento — é um chamado à ação.
Se, no passado, as conferências ajudaram a transformar o HIV de uma sentença de morte em uma condição tratável, o momento atual exige um novo salto: transformar avanços em acesso universal, sustentável e justo.
A história das Conferências Internacionais sobre aids mostra que mudanças reais acontecem quando ciência, políticas públicas e mobilização social caminham juntas.
Em 2026, o mundo terá mais uma oportunidade de decidir qual será o próximo capítulo dessa história.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Serviço
26ª Conferência Internacional sobre AIDS
Quando: 26 a 31 de julho de 2026
Onde: Rio de Janeiro + formato virtual
Tema: Repensar. Reconstruir. Ascender
Mais informações: www.iasociety.org/conferences/aids2026




